X8 capta fundo de impacto ‘com grife’ e faz primeiro aporte na Home Agent

Primeira tranche de R$ 60 milhões conta com recursos do fundo de fundos do Capria, de Seattle

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O ecossistema de investimentos de impacto brasileiro está ganhando um reforço com pedigree.

A gestora de venture capital de impacto X8 Investimentos está fechando a primeira tranche de captação do seu fundo de estreia. A carteira já tem R$ 60 milhões garantidos, de um total de R$ 150 milhões pretendidos inicialmente, e o primeiro investimento engatilhado.

Parte do capital virá direto de Seattle, do Capria. Liderado por Will Poole, um ex-executivo da Microsoft, o Capria é, ao mesmo tempo, um fundo de fundos de impacto e uma rede que conecta 20 VCs ao redor do mundo, X8 incluída. 

Não por acaso, conta com o dinheiro de Bill Gates e da Vulcan Capital, braço de investimentos de Paul Allen, cofundador da Microsoft morto em 2018. Além deles, o quadro de investidores inclui a Omidyar Network, do fundador do eBay e filantropista, Pierre Omidyar, além de Ford Foundation e International Finance Corporation (IFC).

Além do Capria, esse primeiro ‘closing’ acessou os bolsos de empreendedores de sucesso do Brasil e dos Estados Unidos. “Queremos usar o DNA desses empreendedores para garantir o DNA do fundo e, numa próxima rodada, vamos para investidores mais institucionais”, diz Carlos Miranda, um dos sócios principais da X8, ao lado de Eduardo Grytz.

Embora esteja no seu primeiro fundo, a X8 não é exatamente uma novata.

É resultado da junção de dois outros negócios: a gestora BR Opportunities, reconhecida pelo bem-sucedido investimento na Mãe Terra, fabricante de alimentos naturais e orgânicos vendida em 2017 para a Unilever com um gordo retorno, da qual Miranda era sócio, e a área de venture capital da gestora Performa, de onde veio Grytz.

A ideia da união nasceu durante um almoço, quando os dois se deram conta de que, cada um no seu quadrado, vinham gestando projetos muito parecidos.  Computado o histórico, a casa tem 12 anos de estrada e está indo para o seu terceiro fundo, mas agora voltada a gerar impacto social e ambiental.

“Quando começamos o ‘fund raising’ ficamos preocupados que teríamos que explicar para os empreendedores que não se tratava de fazer filantropia, mas de ganhar dinheiro”, diz Miranda. “Mas a gente se espantou. Chegávamos nas reuniões e descobríamos que as pessoas estavam querendo fazer investimento de impacto.” 

O foco do fundo são empresas de porte médio, com receita entre R$ 20 milhões e R$ 200 milhões por ano e com altas taxas de crescimento, acima de 35%. “E o impacto tem que ser intrínseco ao negócio delas, ou não entramos”, diz Miranda.

O ticket médio dos aportes vai ficar entre R$15 milhões e R$ 20 milhões e a ideia é ter cerca de 10 cases no portfólio. Embora a intenção inicial seja de alcançar R$ 150 milhões, os sócios dizem que o fundo tem potencial de ir a R$ 300 milhões no futuro.

Os setores que têm merecido mais atenção da equipe são alimentação, mobilidade, serviços financeiros, saúde e economia circular. “Mas é um fundo agnóstico, não focado em setores específicos.”

Requalificando o call center

O primeiro investimento deixa isso claro.

Trata-se da Home Agent, um contact center que já operava 100% em home office antes de este ser o novo normal pandêmico.

Criada em 2011 e liderada por Fabio Boucinhas, ex-diretor de mídia digital da Natura, a empresa hoje tem 480 atendentes que trabalham exclusivamente de suas casas, todos na cidade de São Paulo. A empresa monta a infraestrutura necessária, com acesso a rede de internet, computador, mouse e fones.

“Como trabalham de casa, 90% são mulheres aposentadas ou que estão fora do mercado de trabalho porque não podem sair de casa e que agora conseguem trabalhar e dobrar a renda familiar”, diz Grytz. 

Os atendentes são todos contratados em regime de CLT, com uma jornada de 36 horas semanais e renda média mensal de R$ 1700, variando de acordo com o grau de senioridade.

“Nossa ideia foi reinventar essa indústria, conhecida pela baixa qualificação dos atendentes e por ser um gerador de estresse”, diz Boucinhas. “Por causa do formato, conseguimos acessar pessoas mais qualificadas e ter menor rotatividade”.

Além da predominância de mulheres, 60% têm curso superior e a média de idade dos agentes é de 35 anos (dez a mais que a média do setor), o que permite oferecer um atendimento mais qualificado aos clientes. 

A hora do home office

Segundo Boucinhas, a empresa faz uma pesquisa anual para entender o impacto que gera e a de 2020 mostrou que 85% dos colaboradores antes estavam desempregados ou em atividades informais, que cada colaborador economizou 4 horas no trânsito por dia (60 dias no ano) e que 500 mil viagens para deslocamento foram evitadas. Outro efeito gerado, mas não medido, é que a renda obtida é gasta na economia do bairro. 

Antes da pandemia, o modelo de home office dos atendentes sempre travou o crescimento do negócio. Os clientes em potencial ficavam desconfiados da qualidade e constância do trabalho executado por uma equipe totalmente descentralizada e sem uma supervisão física.

Mas quando a economia fechou por causa do novo coronavírus, o que era esquisito automaticamente se converteu em vantagem.

De pouco mais de 100 atendentes no fim de 2019, a empresa multiplicou seu quadro por quatro — e  chegou a superar as 1000 posições na época da Black Friday do ano passado. Novos clientes chegaram e hoje a carteira exibe nomes como Ambev, Centauro, Volvo, Nike, Unilever e C&A.

“O plano era dobrar a receita em 2020, mas crescemos quatro vezes”, diz Boucinhas.

A pandemia também abriu uma nova frente de negócios, depois que vários clientes bateram à porta da empresa pedindo consultoria para montar seus próprios home offices. 

A Home Agent já estava dentro da casa da X8 desde o fim de 2019. Numa modalidade chamada de warehousing, o Capria havia feito uma espécie de investimento-ponte na empresa, enquanto o fundo da X8 não estava pronto. Agora o negócio será transferido para o fundo, ao mesmo tempo em que a X8 está liderando a rodada série A que a Home Agent deve concluir em breve.

“Vamos usar o dinheiro para acelerar o nosso crescimento orgânico, tanto nas vendas quanto nas entregas, financiar a criação de novos produtos e fazer aquisições para completar nossas competências”, diz Boucinhas. 

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