Vox Capital mira R$ 1 bi em fundos de impacto

Gestora pioneira vai criar produtos de outras classes de ativos além de venture capital e acaba de lançar nova tese de impacto

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Depois de pregar no deserto durante quase uma década, a Vox Capital começou a colher os frutos da catequese.

Pioneira em fundos de venture capital com impacto social no Brasil numa época em que todo mundo franzia a testa para o conceito, a gestora fundada em 2009 tem ganhado musculatura conforme o assunto sai do nicho – e faz planos arrojados.

Com metade do seu terceiro fundo já captada, a casa mais que dobrou o volume de ativos sob gestão e chegou a R$ 500 milhões.

“Devemos bater em R$ 800 milhões em março e em R$ 1 bilhão em algum ponto do ano que vem”, calcula Daniel Izzo, CEO e cofundador da gestora (ao lado de Antonio Ermírio de Moraes Neto, que deixou a sociedade alguns anos atrás).

 

Assim como outras casas pioneiras em impacto e ESG no país, a aceitação crescente na pandemia pode ser medida pelo tamanho da equipe.

Em março do ano passado, a Vox tinha dez funcionários e agora está com 40, atraindo gente egressa de instituições como Nubank, BTG e C6. O simpático escritório no bairro de Pinheiros, em São Paulo, já não comporta a equipe e tem operado em esquema de rodízio desde que o trabalho presencial voltou a ser possível.

O crescimento do volume de recursos sob gestão passa, necessariamente, pela diversificação de produtos de investimento.

“Estão para sair novos produtos na área de crédito e o desafio é a distribuição. Estamos em conversas com plataformas”, diz Izzo.  

Além de produtos de crédito no chamado ‘buy side’ (fundos), a Vox também quer operar no ‘sell side’. “A ideia é ter uma prática de crédito, com originação, estruturação e distribuição.” O primeiro papel, uma debênture de energia renovável, está a caminho. 

“O interessante de fazer impacto via crédito é que você consegue investir em negócios que não foram fundados por pessoas que estudaram em Harvard, MIT e Stanford. O venture capital é o jogo dos que se formaram nas melhores faculdades, porque precisa de escala, de conexões.”

Mas não adianta só lançar produtos em diferentes classes de ativos. Para os produtos de impacto ganharem mais escala, é preciso criar o que Izzo chama de ‘gôndola dos orgânicos’.

“O problema é que nenhuma plataforma de investimento tem hoje uma gôndola com fundos de impacto e ESG pra você escolher. É como se o leite vegetal e o orgânico estivessem na mesma prateleira do leite de vaca no supermercado”, diz ele.

O discurso de Izzo sugere que a própria Vox poderia partir para oferecer a solução para essa dor – mas ele deixa o assunto no ar.

Outra trava para o crescimento, em sua visão, é que as plataformas não estão preparadas para oferecer ao investidor uma ‘experiência diferenciada’, além do relatório do retorno financeiro.

“O investimento em impacto não pode ser tratado como um investimento financeiro. Você está investindo em impacto porque é algo que se propõe a fazer algum tipo de transformação. Cadê as informações da transformação?”, diz ele. “Tem que contar as histórias.”

A Vox tem apostado nesse caminho. Montou um núcleo de produção que está filmando histórias de quem se beneficiou do impacto na ponta. “A transformação acontecerá quando você investir em impacto e receber toda semana um aviso no seu aplicativo com uma história nova”, diz ele. “É o que a gente está chamando de ‘impacto 3D’.” 

Terceiro fundo e nova tese

Com metade do fundo 3 captado – Izzo não comenta o valor, mas a intenção inicial era levantar R$ 500 milhões –, a Vox já investiu metade do que levantou até agora. Acompanhou uma rodada série B da Celcoin, liderou a rodada da Vitalk e está próxima de concluir um investimento numa empresa de substitutos lácteos à base de planta, o que marca uma novidade.

No primeiro e no segundo fundos, a Vox construiu uma história orientada a inclusão financeira, saúde e educação, cada vez mais com uma pegada tecnológica, para dar escala ao impacto. No terceiro fundo, uma ampliação de escopo começou a aparecer, com a inclusão de negócios que buscam benefícios ambientais.

Agora, a gestora acaba de lançar uma nova tese de impacto, conectada aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU – e construída numa linguagem pensada para atrair o investidor de varejo.

São quatro pilares: pessoas, instituições, cidades e planeta. Cada um desses pilares se desdobra em setores. Dentro de cidades, por exemplo, estão mobilidade, saneamento, economia circular e lazer e cultura. Em planeta, entram clima, poluição, florestas, agricultura e pecuária e energia limpa e acessível.

“Agora que queremos ampliar a oferta de veículos de investimento para democratizar o impacto, precisamos ir para outros campos”, diz Daniel Brandão, líder de impacto da Vox. “A ideia é ter produtos temáticos, com recortes da grande tese.” 

Lado B e lado A

Se em 2009 ‘as pessoas davam risada e achavam ridículo’ quando Izzo batia à porta de potenciais investidores, hoje a coisa mudou. “Não preciso mais explicar o que é impacto. Estamos num ponto melhor de entendimento e com espaço a ocupar”, diz. 

Há ainda algum ceticismo no mercado. “O que é justo, porque também não há muitos dados ainda para comprovar que dá para ter retorno. Os dados são pequenos e não são consistentes”, diz Izzo.

Além de Vox e Mov (que tem Órigo e Terra Nova na carteira), outras gestoras independentes surgiram no país nos últimos dois anos, como Rise Ventures, X8 e GK Ventures. Ao mesmo tempo, grandes nomes do mundo financeiro também criaram veículos de private equity, como Vinci Partners e BTG Pactual.

Essa multiplicação de atores e o crescimento da Vox são o ‘lado A’ da saída do nicho, mas Daniel Izzo vê também um ‘lado B’ e aponta para o buzz em torno do ESG.

“No médio e longo prazos o ESG é bom porque a discussão deixou de ser apenas o retorno financeiro. Você vai educando os investidores e criando senso crítico.” Mas no curto prazo, diz, o ESG polui a conversa.

“Qual o critério que estamos olhando quando falamos em ESG? O que é bom e o que não é? Por que um fundo tem Vale e outro não? O ESG é difícil de entender conceitualmente e, se você juntar todos os portfólios ESG do mercado, provavelmente todas as ações da bolsa estão em algum portfólio ESG, ou quase isso.”

Ele recorre a uma metáfora diferente daquela que abriu a reportagem, mas igualmente árida, para sintetizar o momento do investimento de impacto.

“É como aquela plantinha que nasceu no meio do asfalto, como no poema ‘A flor e a náusea’, do Carlos Drummond de Andrade. É preciso ser extra cuidadoso para acertar e não fazer nada errado. Se uma gestora fizer besteira, pode puxar todo mundo para baixo.”

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