Vox abre fundo de renda fixa com tíquete de R$ 1.000

Fundo com ‘viés de impacto’ investe em debêntures de empresas listadas que tenham produtos ou serviços que atendem aos ODS

Compartilhar

Referência em fundos de venture capital com foco em impacto no Brasil, a Vox Capital está colocando no mercado um fundo de renda fixa para o público de varejo, com tíquete de entrada de R$ 1.000.

O novo produto faz parte de uma aposta da casa num modelo de one stop shop de investimentos de impacto para bolsos de tamanhos variados, se afastando da sua origem de gestora de fundos de capital de risco voltados para os muito ricos. 

No ano passado, a gestora fez uma rodada de captação – de valor e investidores não-revelados – para estruturar o novo modelo. Nos últimos doze meses foram feitos investimentos em tecnologia, marca, produtos e back office e o número de funcionários passou de 10 para 46 pessoas.

A tese que norteia o movimento é que impacto não é uma classe de ativos como se acreditava no passado, mas uma lente que pode ser aplicada a diversas modalidades de investimentos. Como esse, outros novos fundos virão.

 

“Estamos trabalhando para democratizar o acesso a investimentos de impacto e sair do modelo que serve para o 1% mais rico da população aplicar 1% do seu patrimônio”, diz Daniel Izzo, CEO da Vox. 

O Vox Desenvolvimento Sustentável Renda Fixa é um produto que a gestora está qualificando como ‘alinhado a impacto’. Ou seja, ele não é um puro-sangue que busca ativos 100% focados em resolver problemas sociais ou ambientais, mas aplica uma lente de impacto ao olhar para ativos do universo tradicional de investimento.

Trata-se, em essência, de um fundo que compra títulos de crédito emitidos por empresas, especificamente debêntures. Mas não qualquer uma.

Os ODS como norte

Para escolher quais debêntures são elegíveis, foi desenvolvida uma metodologia própria, que tem como ponto de partida os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU, os ODS.

O critério principal é buscar empresas que tenham algum produto ou serviço que procure resolver pelo menos um dos ODS – e, embora não seja um fundo de ações, são consideradas apenas empresas listadas na B3. 

“Fizemos um recorte de 10 dos 17 ODS, deixando de fora aqueles mais conectados a políticas públicas. E, dentro desses 10, estamos mirando as submetas de cada um”, explica Daniela Rachid De La Torre, gestora do fundo.

Além de passar por esse filtro inicial, as empresas são avaliadas sob o aspecto reputacional, ou seja, se estão envolvidas em controvérsias sociais, ambientais ou de governança. “Contratamos uma ferramenta que faz uma busca ativa em mais de 20 mil fontes de informação. Para as empresas em carteira, essa busca é feita diariamente”, diz De La Torre.

O que tem dentro e materialidade

Aplicados os filtros todos, nessa fase inicial a gestora mapeou 46 empresas elegíveis, de 11 diferentes setores, dentro do universo de mais de 400 empresas com ações negociadas na bolsa brasileira.

Na carteira inicial, há cinco papéis: Ambipar, de serviços ambientais; Vamos, de mobilidade; Ômega, de energia elétrica; Kallas, de incorporação; e Fleury, de serviços de saúde.

“A Ambipar, por exemplo, faz gestão de resíduos, o que contribui para o ODS 13, de ação global contra a mudança climática”, diz De La Torre. 

Um senão da metodologia é que uma empresa pode ter um produto que endereça algum dos ODS e zilhões de outros que não contribuem ou, no limite, podem até prejudicar o desenvolvimento sustentável.

Imagine, por exemplo, um banco que tenha uma linha de microcrédito que ocupa uma fração do seu balanço, mas que financie bilhões em projetos de energias sujas ou setores associados ao desmatamento, por exemplo.

“Não estamos no ponto de cobrar materialidade dessas empresas ainda, mas reconhecemos as empresas que contribuem para os ODS”, diz a gestora. “Quanto mais pessoas investirem, mais poderemos ser vocais e cobrar as empresas. Num segundo momento, podemos tornar a metodologia mais restritiva e cobrar mais materialidade”, completa. 

De qualquer forma, diz ela, os casos mais complicados, como racismo, corrupção, trabalho análogo à escravidão, entre outros, são pegos no filtro negativo que checa as controvérsias.

As debêntures também são avaliadas sob o ponto de vista da liquidez, para atender às características do produto. Também para garantir a liquidez, entre 20% e 30% do patrimônio líquido ficam em caixa, em títulos públicos.

O fundo tem liquidez de D+6, ou seja, uma vez solicitado o resgate, o investidor tem que aguardar seis dias para ter o dinheiro disponível em conta. O retorno buscado é de 105% a 110% do CDI e a aplicação pode ser feita por meio de uma plataforma white label da Warren. Pelo menos por ora, a gestora não colocou o produto em plataformas de investimento.

O fundo vinha rodando desde 19 de maio com capital semente de sócios e investidores dos VCs da Vox (pouco mais de 20 cotistas, com um patrimônio líquido de R$ 11 milhões) e no começo do mês abriu para aplicação dos funcionários da gestora.

Como próximos passos, a casa deve lançar outros fundos dessa família ODS, em outras classes de ativos e em parceria com outras gestoras.

Leia mais

A melhor cobertura de negócios e finanças sustentáveis

Contribua com o Reset e ajude a construir a mudança.