Votorantim Cimentos capta R$ 450 milhões com títulos atrelados a sustentabilidade

Se cumprir metas de redução de emissão de CO2 e substituição de combustíveis fósseis, cimenteira tem desconto no prêmio de recompra dos títulos

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A Votorantim Cimentos acaba de captar R$ 450 milhões numa emissão de debêntures com condições atreladas ao cumprimento de metas de sustentabilidade, no primeiro sustainability-linked bond (SLB) de uma empresa brasileira numa indústria altamente intensiva em carbono.

A emissão, com prazo de cinco anos, não foi distribuída a investidores. Foi totalmente encarteirada pelos coordenadores, Itaú BBA, UBS BB e Santander, que ficaram com um terço do volume cada.

A meta da Votorantim Cimentos é reduzir as emissões de gases de efeito-estufa por tonelada de cimento produzido em 7,3% no período e aumentar a substituição de combustíveis fósseis usados nos fornos por alternativas renováveis, de 22% para 29,4% do total. 

A base de comparação é o ano de 2019 e a escritura estabelece metas de redução anuais a serem alcançadas. 

 

A emissão inova na taxa que varia em função das metas. Em vez ter benefício nos juros cobrados na emissão, se cumprir as metas, a companhia obtém um desconto no prêmio de recompra dos títulos nos dois últimos anos do vencimento: em 2024, ele cai de 0,15% para 0,10% e, em 2025, de 0,10% para 0,05%. 

“Até pela qualidade de crédito, o que o grupo Votorantim faz com frequência é antecipar o pagamento para continuar com o prazo médio da dívida alongado, acima de nove anos”, diz José Rudge Filho, diretor de corporate e investment banking do Itaú BBA. “Então vimos um benefício para permitir que a empresa recompre essa dívida, pagando um prêmio mais barato.” 

O Itaú foi o coordenador líder e ‘assessor ESG’ da emissão — uma nova função que vem ganhando corpo nas emissões com critérios de sustentabilidade. É o assessor ESG quem auxilia a empresa a montar a estratégia ESG e definir os indicadores que mexem na taxa.

A operação saiu com taxa de juros de CDI + 1,45% ao ano. 

É uma prática relativamente comum entre bancos conceder empréstimos na forma de debêntures — que, em um segundo momento, em teoria, podem ser vendidas no mercado secundário.

Mas, para além disso, a percepção é que, no Brasil, o mercado de potenciais compradores focados em ESG ainda é restrito e não comporta grandes operações, apesar do rápido avanço desse tipo de título no mercado internacional

“A gente vai ver os bancos sendo mais ativos [na ponta compradora] num primeiro momento”, diz Luiza Vasconcellos, especialista ESG na área de renda fixa do Itaú BBA. 

“Até teria espaço para uma emissão como a da Votorantim Cimentos no mercado nacional, mas não no nível de spread que os bancos encarteiraram”, aponta o gestor de um fundo de crédito local.

A emissão da Votorantim Cimentos teve parecer de segunda opinião da Bureau Veritas, mas o documento ainda não foi disponibilizado, apesar de a emissão ser pública,. É esse parecer que atesta, de forma independente, a robustez e a ambição das metas ambientais pactuadas. 

No meio do caminho para 2030

As metas pactuadas pela Votorantim Cimentos na emissão fazem parte de uma agenda de compromissos para 2030 anunciada em novembro do ano passado. 

A companhia se comprometeu a reduzir a emissão de gases de efeito-estufa por tonelada de cimento produzido em 12% ao fim do período. Com a dívida, na prática, está se comprometendo a entregar a maior parte dessa diminuição, ou 7,3%, nos cinco primeiros anos. 

Quanto à substituição térmica, a meta para 2030 é de 53% — bem acima dos 29,4% pactuados na emissão de debêntures para 2025. 

O plano da companhia é substituir os combustíveis fósseis nos fornos de produção do cimento, de onde vem grande parte da emissão relacionada ao setor,  por alternativas como biomassa e resíduos sólidos urbanos. 

Apesar do perfil intensivo em emissões, a Votorantim Cimentos é reconhecida na indústria pela trajetória de busca por processos mais sustentáveis. Ela é signatária de pactos  setoriais para redução na emissão de gases de efeito-estufa desde 2009 — seis anos antes do Acordo de Paris.

No longo prazo, a companhia se comprometeu a desenvolver e implementar tecnologias que permitam entregar para a sociedade um concreto com emissão neutra de carbono até 2050. 

A Votorantim Cimentos já tem US$ 350 milhões em empréstimos ligados a sustentabilidade no mercado externo, incluindo uma linha de crédito de US$ 290 milhões fechada com um sindicato de bancos internacionais em 2019 e com remuneração atrelada a indicadores como redução de emissão de CO2, substituição de combustíveis fósseis e composição do cimento. 

“Mais que a questão financeira, que obviamente faz parte, a gente entende que é um tema reputacional. Tem uma questão do ‘skin in the game’, que é tão ou mais importante que o benefício financeiro no cumprimento desses dos indicadores”, diz Osvaldo Ayres Filho, CFO Global da Votorantim Cimentos.  

Transição 

No Itaú, a ideia é que a operação sirva de vitrine para que outras empresas e setores intensivos possam ver o mercado de dívida ligada à sustentabilidade como uma forma de avançar na transição. 

“Tem inúmeras indústrias que vão ter que passar por uma transformação e reduzir a pegada de carbono. Pelo tamanho do banco, a gente tem um papel de influenciar positivamente algumas indústrias a fazerem essa transição”, aponta Rudge. O concreto é o segundo material mais consumido no mundo, depois da água. 

Essa é a segunda emissão de debêntures no mercado doméstico com metas ligadas à sustentabilidade. A primeira foi uma emissão de R$ 1 bi para o Grupo Boticário, também integralmente encarteirada pelo Itaú. 

O mercado de sustainability-linked loans, de empréstimos bilaterais, por sua vez, vem crescendo ano a ano.

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