Vinci quer subir a barra ESG em todas as classes de ativos

Uma das dificuldade é vencer o 'efeito Damoradan' e convencer gestores e analistas de ações que são céticos quanto à geração de valor do ESG

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No embalo da listagem de suas ações na Nasdaq, no começo do ano, a gestora de fundos Vinci Partners, com R$ 57 bilhões em ativos sob gestão, aproveitou para arrumar a casa na frente ESG.

Se já vinha dando os primeiros passos há algum tempo para contemplar aspectos sociais e ambientais, respondendo à demanda dos investidores estrangeiros em seus fundos de private equity, a casa resolveu aprumar a governança para dar mais consistência à agenda.

Uma das pioneiras do tema no Brasil, a consultora Sonia Favaretto foi recrutada para liderar um comitê ESG, do qual fazem parte o chairman Gilberto Sayão e o CEO Alessandro Horta, e, ao mesmo tempo, ocupar uma cadeira no conselho de administração para puxar o tema nas discussões estratégicas. 

Uma das decisões do novo comitê é acelerar a integração ESG nos negócios propriamente, ou seja, nos fundos.

“Estamos olhando as investidas, tudo relacionado aos processos de investimento e o acompanhamento dos negócios. O desafio é trazer todas as áreas em que atuamos para o mesmo nível de maturidade e compreensão sobre o tema”, diz Roberto Leuzinger, sócio da gestora responsável por supervisionar a implementação transversal do ESG na casa.

Enquanto a área de private equity está mais avançada, inclusive com o lançamento neste ano de um fundo de impacto, diz Leuzinger, no extremo oposto estão os fundos hedge, talvez a classe de fundos mais difícil de avançar com os critérios ESG. No meio do caminho estão outros fundos ilíquidos, como os de infraestrutura, e líquidos, como os de ações.  

“Existe uma questão cultural a ser vencida, porque o analista e o gestor, que estão na ponta, ainda resistem e precisam ser convencidos. Os gestores de equity são mais céticos. Mas agora o comitê de ESG está forçando mais a mão”, diz ele.

Vencendo o ‘efeito Damodaran

Um dos problemas, diz o executivo, é que “o Damodaran não ajuda”.

O professor da Universidade de Nova York e papa do valuation, Aswath Damoradan, tem sido um crítico constante da integração ESG às políticas de investimento, alegando que não enxerga geração de valor.

Leuzinger diz acreditar que, no tempo, a geração de valor ficará clara. Enquanto isso, diz, a incorporação do ESG se dá principalmente pelo viés da gestão de riscos. “É fundamental para conseguir lidar com casos de corrupção como o da JBS ou acidentes ambientais como o da Vale, por exemplo. Vamos puxar a barra para cima.”

Ele cita um caso recente em que os gestores tomaram a decisão de não investir numa empresa do setor petroquímico que tinha bons fundamentos porque avaliaram que a governança era um problema.

Nos fundos de infraestrutura, a casa tem lançado produtos com apelo de sustentabilidade, como de energia limpa e saneamento. “Mas a pegada ambiental e social hoje se dá pela tese de investimento. Ainda falta estruturarmos as políticas.”

Especificamente na frente climática, a gestora começou a conversar com as investidas para andar mais rápido na transição para a economia de baixo carbono. “Estamos mapeando consultorias para medir a pegada de carbono das empresas do portfólio e desenhar um projeto de redução das emissões da carteira. E, o que não for possível reduzir, iremos compensar.”

E dentro de casa?

Um outro pilar de atuação definido pelo comitê é o de cultura e práticas internas. “Queremos garantir o ‘walk the talk”, diz Leuzinger.

Aqui, a prioridade tem sido combater a falta de diversidade entre os colaboradores de forma geral, e de gênero em particular, mal crônico no mercado financeiro.

Do conselho de administração, além de Favaretto, faz parte também a economista e especialista em finanças Ana Marta Horta Veloso, o que faz com que a casa já esteja de acordo com a nova regra de diversidade que a Nasdaq está começando a implementar para as companhias listadas.

Mas o desafio maior é ampliar a diversidade na operação. Segundo o executivo, com iniciativas para aumentar a base de mulheres na equipe, o percentual saiu de 18% em 2017 para 35% agora.

Mas a participação maior ainda está concentrada nos níveis de entrada. Na faixa etária de 20 a 24 anos, de colaboradores cuja porta de entrada é o backoffice, as mulheres são 57%. 

Mas, além de atrair, a dificuldade é fazê-las progredir para que o percentual se elevar nos demais níveis hierárquicos. “A gente gosta de desenvolver os talentos em casa, então, essa ação na base da pirâmide é que vai levar a gente a avançar nos níveis superiores”, diz Leuzinger. Dos 30 sócios da gestora, apenas três são mulheres hoje. 

Uma dessas sócias é Patrícia Amorim, que lidera a área de gente. “Temos feito um recrutamento afirmativo, com o programa Vinci por Elas, com vagas exclusivas para mulheres. E não pode ser diferente disso”, diz ela. 

Muitas dessas vagas são divulgadas com a ajuda da consultoria Fin4She, de Carolina Cavenaghi, especializada em aumentar o número de mulheres no mercado financeiro. “A Carolina também nos ajuda no recrutamento para vagas mais robustas, para cargos mais altos”, diz ela.

Para acelerar o desenvolvimento das mulheres da equipe, Amorim diz que neste ano o programa de coaching oferecido aos funcionários que se destacam foi exclusivamente dedicado a mulheres. “A ideia é ter mulheres em cargos mais sênior mais rápido”, explica.

Amorim também tem trabalhado a diversidade nas empresas do portfólio dos fundos de private equity. “Criamos um fórum ESG com os RHs das investidas, junto com a Sonia Favaretto, para discutir como, por exemplo, atuar para tirar o viés inconsciente no recrutamento”, diz ela.

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