Verde e social: Itaú capta US$ 500 milhões com bônus sustentáveis

Emissão, voltada para compor capital do banco, saiu com demanda de 2,5 vezes a oferta

 

O Itaú acaba de concluir uma emissão externa de US$ 500 milhões com sustainable bonds.

Apesar da profusão de títulos verdes, é primeira vez que uma empresa brasileira emite um título sustentável no mercado externo. 

Enquanto nos títulos verdes os recursos devem ser usados apenas para financiar projetos com benefícios ambientais, nos títulos sustentáveis os projetos com impactos sociais positivos também podem ser contemplados.

O ineditismo está também no tipo de bond: a emissão de hoje é de uma dívida subordinada, destinada a compor o chamado capital de nível 2 do banco, ou ‘tier 2’. 

Exatamente por ter uma característica híbrida de ‘equity’, esse tipo de dívida costuma ser mais cara que uma emissão comum. 

A emissão do Itaú saiu com um yield final de 3,95% ao ano, na menor taxa para um banco brasileiro em uma emissão de ‘tier 2’, e praticamente em linha com a curva de juros de emissões similares da instituição.

A demanda foi de 2,5 vezes a oferta, segundo fontes ouvidas pelo Reset, e contou com forte participação de gestores dedicados a ESG.

Os papéis têm vencimento em 10 anos e podem ser resgatados no meio do caminho, daqui a cinco anos.

Os recursos captados podem ser alocados para crédito em setores como energia renovável ou eficiência energética, transporte limpo, água e saneamento, prevenção e controle de poluição, gestão sustentável de recursos naturais e uso da terra e prédios verdes. 

Do lado social, podem ser voltados para projetos que garantam acesso a serviços essenciais e inclusão financeira.

O framework de emissões sustentáveis do Itaú contou com parecer de segunda opinião da Sustainalytics, que deve fazer uma verificação anual do progresso da alocação.

Um bicho diferente

Em meio à forte demanda por investimentos verdes, diversos bancos europeus, como o espanhol BBVA e o alemão Volksbank, já vêm emitindo dívidas subordinadas, para compor capital, por meio de green ou sustainable bonds. 

Mas com a crise trazida pela covid-19, no entanto, a Fitch Ratings lançou um alerta que, a princípio, pode parecer quase filosófico, mas mostra uma lacuna entre regulação e os movimentos de mercado: em teoria, num cenário limite, as dívidas subordinadas verdes (ou sustentáveis) podem não ir para projetos verdes.

Em tese, tanto o capital tier 1 quanto o tier 2 podem ser usados para absorver perdas por meio de baixas contábeis ou conversão em equity (no caso do tier 2) se os reguladores considerarem que o banco tem algum risco de falência.

“Questões chave sobre como bonds verdes subordinados lançados por bancos serão tratados num cenário de estresse podem continuar não respondidas até que se tenha casos da vida real”, disse a Fitch em nota. “Isso destaca o potencial choque entre os objetivos de sustentabilidade dos bancos e as regulações prudenciais de capital sob as quais eles operam.”

Bancos brasileiros entram no jogo 

A emissão do Itaú dá sequência a uma leva de operações de dívida ESG feitas por bancos privados brasileiros no mercado de dívida nas últimas semanas, numa espécie de debut conjunto do setor, que demorou a estrear em captações verdes e sustentáveis. 

Há uma semana, o BTG fez a primeira emissão externa verde de um banco privado brasileiro captando US$ 500 milhões a uma taxa de 2,76%, com vencimento em janeiro de 2026.

No fim de novembro, o banco tinha testado a água numa emissão privada de US$ 50 milhões. O BV havia feito o mesmo em março.

O Bradesco, por sua vez,  fez a estreia dos bancos privados no mercado doméstico, com a emissão de R$ 1,2 bilhão em letras financeiras no mês passado. 

O BNDES foi o precursor neste mercado, com uma emissão externa de US$ 1 bilhão em 2017 e uma nova emissão doméstica de R$ 1 bilhão no ano passado.

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