Vem aí o mercado de carbono chinês

Depois de muitas idas e vindas, mercado nacional da China deve ser lançado nos próximos dias — e já nasce com potencial para ser o maior do mundo

 
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Enquanto a Europa está apertando as regras para conter o aquecimento global, a China deve finalmente lançar esta semana seu sistema nacional de comércio de emissões de carbono — que, de cara, já nasce com potencial para ser o maior do mundo. 

Depois de muitas idas e vindas, Pequim afirmou que as negociações devem começar este mês e fontes ouvidas por Bloomberg, WSJ e Reuters afirmam que o lançamento oficial está previsto para amanhã. 

O programa que foi anunciado há mais de três anos e construído em cima de diversos projetos pilotos regionais foi adiado diversas vezes, principalmente por conta de preocupações com a transparência de dados das emissões. 

Uma estreia prevista para 30 de junho foi postergado depois que veio à tona um caso de dados falsificados por uma empresa de energia que seria regulada pelo sistema. 

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O mercado de carbono chinês começa abrangendo apenas o setor de energia: são 2200 companhias, que representam cerca de metade das emissões do país e 14% das emissões relacionadas à energia do mundo. 

A China é o maior emissor de gases de efeito-estufa do mundo, superando os Estados Unidos, e boa parte da sua emissão vem das usinas térmicas a carvão.

A ideia é que, paulatinamente, o mercado chinês cresça para englobar mais indústrias, como as de aço e cimento. A expectativa é que o sistema vá cobrir até 10 mil entidades, que respondem pela emissão de cerca de 5 bilhões de toneladas de CO2, segundo a Shanghai Environment and Energy Exchange, que está abrigando o mercado nacional. 

O sistema de comércio de emissões (ou ETS, na sigla em inglês) funciona de forma simples.

O governo dá a cada usina de energia o direito a uma certa quantidade de emissões em um dado ano. Se poluir menos que isso, elas podem vender os direitos ou permissões de emitir.  Se poluírem mais, precisam comprar emissões extras.

Os direitos poderão ser negociados em bolsa. As transações listadas serão para 100 mil toneladas de CO2 equivalente ou menos e os preços podem se movimentar até 10% para cima ou para baixo frente ao fechamento anterior. É possível fazer block trades maiores, com flutuações de preços de até 30% frente ao último pregão.

A China se comprometeu com a neutralidade de carbono até 2060 e quer atingir o pico das suas emissões em 2030.

Apesar dos volumes superlativos no mercado de carbono, as expectativas em relação a sua efetividade imediata para conter as emissões são baixas. 

As críticas são de que o governo foi muito generoso, concedendo muitas permissões, o que na prática significa que os geradores de energia que poluem devem conseguir comprar os créditos por muito pouco e não teriam incentivos reais para migrar para alternativas mais limpas. 

É difícil saber de cara o quanto vai custar o carbono no novo sistema — pensado exatamente para colocar um preço nas emissões. 

Mas os sistemas piloto adotados em algumas províncias tem precificado o carbono em cerca de 40 yuans (ou US$ 6,18) por tonelada de carbono equivalente.  

É cerca de um décimo do valor pelo qual o carbono está sendo negociado na Europa — que vem apertando as regras para conter o aquecimento global –, onde os preços chegam estão girando em torno dos € 55 e chegaram a bater um recorde próximo dos € 59 no começo do mês.  

Outro ponto é que as permissões foram calculadas com base na intensidade de carbono das usinas, isto é, no quanto elas emitem por energia gerada e não de maneira absoluta, independentemente do volume, o que, segundo analistas, reduz sua eficácia.

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