Um padrão para botar ordem nos compromissos de net zero

SBTi lança diretrizes para validar se metas corporativas estão alinhadas com a ciência

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Em meio ao tsunami de compromissos net zero corporativos, um padrão divulgado hoje promete colocar ordem na bagunça — e dar algum norte para avaliar se as metas vão além do marketing e efetivamente contribuem para conter o aquecimento global

Desenhado pela Science Based Targets Initiative (SBTi), formada por um conjunto de ONGs climáticas que incluem do Carbon Disclosure Project (CDP) ao WWF, o padrão parte de alguns pontos essenciais. 

Primeiro, o foco é na redução de emissões e não no uso de offsets — o que deve jogar por terra diversos compromissos que se baseiam principalmente na compra de créditos de carbono para compensar as emissões. 

O percentual varia por setor de atuação, a depender da dificuldade de redução de emissões, mas em boa parte dos casos, aponta a SBTi, as empresas terão que reduzir suas emissões em até 90%. A compensação ficará por conta das emissões mais difíceis de abater. 

 

Segundo, é preciso ter metas intermediárias robustas de curto e médio prazos, com foco em uma redução profunda até 2030 — e com metas que precisam ser apertadas a cada cinco anos, trazendo para a lógica corporativa o que o Acordo de Paris prevê para as metas de redução de emissão de cada país. 

E, terceiro, os compromissos precisam incluir os escopos 1, 2 e 3, ou seja, além das emissões próprias, precisam contemplar também toda a cadeia de valor, dos fornecedores ao uso dos produtos. 

“Hoje, basicamente qualquer empresa pode falar que tem um compromisso net zero, e não havia muita base para avaliar se os planos faziam sentido”, diz Lauro Marins, chefe de consultoria ESG e mudança climática da Resultante. “Esse padrão começa a organizar a conversa”. 

Considerado o padrão-ouro da indústria para compromissos de redução de emissões, a SBTi já tinha frameworks setoriais para metas mais curtas, que iam até 2030. Mas ainda não tinha um mapa para os compromissos de net zero. 

Offsets, dentro e fora da cadeia de valor 

O padrão da SBTi faz uma distinção entre offsets e o que chama de “neutralização”. 

O texto diz que, enquanto está na transição para o net zero, a companhia pode e deve utilizar mitigação “fora da sua cadeia de valor”, ou seja, comprar créditos que evitam, reduzem ou removem gases de efeito estufa da atmosfera fora do seu escopo de atuação — com projetos de REDD+, de desmatamento evitado.

Ao se aproximar da linha de chegada de 2050, qualquer emissão residual precisa ser “neutralizada”, o que significa que ela precisa ser efetivamente removida da atmosfera e não apenas compensada.

“O padrão deve ajudar a fazer uma distinção sobre a qualidade dos créditos de carbono que as empresas hoje usam nas suas estratégias de compensação e dá bastante atenção às soluções baseadas na natureza”, afirma Marins, da Resultante. “Hoje, algumas empresas podem comprar qualquer tipo de crédito e dizer que são ‘neutras em carbono’, mas a nova diretriz deve jogar luz sobre este assunto”.

Padrões setoriais

A SBTi definiu diretrizes de net zero específicas para cinco indústrias: florestas, uso da terra e agricultura, edifícios, mineração e siderurgia, cimento e geração de energia. Orientações para outros setores, como químico, aviação e transporte marítimo, devem sair nos próximos meses. Para as demais indústrias, há um padrão geral — que não se aplica ao setor financeiro. 

Sete companhias tiveram seus compromissos aprovados na fase piloto, entre elas o grupo de energias renováveis dinamarquês Orsted, a rede de farmácias americana CVS, a cimenteira suíça Holcim e a farmacêutica britânica AstraZeneca.

A avaliação dos compromissos de net zero vai funcionar da mesma maneira que hoje operam as metas de prazo mais curto. As empresas precisam enviar uma carta à SBTi com seu plano (ou a intenção de apresentá-lo em breve). Há um prazo de dois anos para que as metas apresentadas sejam validadas.

A barra é alta. Apesar de um número cada vez maior de companhias ter se comprometido em estabelecer metas de redução de emissões baseadas na ciência nos últimos anos, pouco mais de 1000 em todo o mundo tiveram suas metas efetivamente aprovadas pelo SBTi.

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