UE define que gás natural e energia nuclear são ‘investimentos verdes’

Proposta controversa de taxonomia de ativos coloca em dúvida iniciativa pioneira para colocar ordem nas finanças sustentáveis

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Numa decisão para lá de polêmica, a União Europeia definiu nesta quarta-feira que certos projetos de gás natural e energia nuclear poderão ser considerados verdes dentro do plano para colocar ordem nas finanças sustentáveis e fechar o cerco sobre o greenwashing.

Esse era o ponto mais controverso, e o único ainda pendente, da chamada taxonomia verde de ativos, que estabelece critérios unificados e transparentes sobre o que merece o selo sustentável e – igualmente importante – o que não merece.

A razão ostensiva da inclusão de gás e nuclear é garantir uma transição sem sobressaltos de cortes de energia para uma economia de baixo carbono.

A iniciativa da UE é acompanhada de perto por empresas e investidores mundo afora. Trata-se da primeira tentativa de regulamentar uma área das finanças em que ainda há muitas incertezas.

 

Regras semelhantes estão sendo estudadas nos Estados Unidos e no Reino Unido. Caso seja considerada permissiva demais, abrindo brechas para o greenwashing que deveria combater, a taxonomia da UE corre o risco de ser ignorada pelos investidores.

A expectativa é que o livro de regras seja aprovado na forma atual. Apenas sua rejeição em pelo menos 20 dos 27 países do bloco ou uma maioria no Parlamento Europeu podem precipitar uma revisão do texto.

Cobertor curto

Além do desafio do pioneirismo, as autoridades europeias tiveram de encontrar um equilíbrio delicado entre as diferentes realidades de seus membros.

Os alemães, que estão abandonando a energia nuclear, têm grande dependência do gás natural. Na França, a situação é a inversa. Os poloneses querem substituir o carvão por gás em suas térmicas. Os austríacos são radicalmente contra a energia atômica.

Já os ambientalistas afirmam que permitir que os investimentos nessas duas fontes energéticas sejam rotulados como verdes, na prática, pode significar menos dinheiro para energias limpas e renováveis.

Se parece consenso que ninguém ficou inteiramente satisfeito com a taxonomia, o teste mais importante acontecerá quando ela começar a ser usada como critério de investimentos.

O regramento é parte do Green Deal europeu, cujo objetivo final é descarbonizar a economia do continente até 2050.

Baterias, eficiência energética, carros elétricos e usinas solares e eólicas já estavam contempladas desde abril do ano passado. A grande polêmica foi a inclusão de certos projetos de gás natural e usinas nucleares num documento divulgado em 31 de dezembro.

“Mesmo que faça parte da taxonomia, isso não quer dizer que temos de comprar”, afirmou à Bloomberg Isobel Edwards, analista de green bonds do NN Investment Partners. “Nossos clientes esperam certos tipos de investimentos, como renováveis e edifícios verdes.”

A Institutional Investors Group on Climate Change, uma associação de gestores europeus com 375 fundos e responsável pela alocação de 51 trilhões de euros, também defende a exclusão do gás natural.

“Sendo diretos, não há espaço no orçamento de carbono para novos investimentos” nesse combustível fóssil, disse o grupo em comunicado.

Mas é claro que nem todos os investidores pensarão da mesma maneira.

“A Itália, um país que tem 300 dias de sol por ano, grande potencial de ventos e infraestrutura robusta de hidrelétricas, está correndo para erguer 48 novas térmicas a gás”, escreveu William Todts, diretor executivo do centro de estudos Transport & Environment. “Com a nova taxonomia o país teria acesso a financiamento verde para várias delas.”

As letras miúdas

As exceções abertas para termelétricas a gás estarão sujeitas a certas regras relacionadas ao total de emissões por quilowatt-hora de eletricidade gerado. Essas novas usinas também terão de apresentar planos de transição para renováveis ou gases de baixas emissões até 2035.

No caso das nucleares, o texto exige, em termos bastante vagos, o respeito a critérios que evitem “danos significativos” ao meio ambiente e aos recursos hídricos.

Essas provisões, na opinião dos críticos, são insuficientes. “A Europa está minando sua liderança climática e rebaixando os padrões na UE e além”, afirmou Laurence Tubiana, diretor da European Climate Foundation e um dos arquitetos do Acordo de Paris. “Quando um padrão ouro surgir em outro lugar, essa taxonomia vai ficar para trás.”

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