Na Goldman, a revolta dos jovens banqueiros à beira do colapso

Um ppt que expõe as condições exaustivas de trabalho em bancos de investimento viralizou — numa mostra da geração que não topa tudo por dinheiro

 

Banqueiros do mundo, uni-vos!

Nesta semana, uma queixa coletiva feita por jovens analistas da divisão de banco de investimento da Goldman Sachs em fevereiro ressoou em Wall Street, mostrando que a nova geração não está assim tão disposta a aceitar qualquer coisa pela promessa de uma carreira milionária.

A maioria diz que se considera vítima de abuso no ambiente de trabalho, avaliando sua satisfação com uma nota 2 numa escala até 10, e afirma que não permanecerá na Goldman em seis meses se as condições continuarem as mesmas. 

Eles afirmam que trabalham 100 horas por semana, vão dormir em média todos os dias às 3 da manhã e que o trabalho comprometeu seu relacionamento com família e amigos, fazendo o nível de saúde mental se deteriorar drasticamente depois que começaram a trabalhar na companhia. 

Tudo está resumido numa apresentação de 13 slides que viralizou no Whatsapp e já circula também na Faria Lima. 

Nela, os analistas descrevem sua angústia e os sinais claros de burnout em cores vivas (em frases que podem soar familiares em meio a uma pandemia na qual o ‘home office’ às vezes se torna mais ‘office’ que ‘home’): 

  • “Havia um ponto onde eu não estava comendo, tomando banho ou fazendo outra coisa que não trabalhar de manhã até depois da meia-noite”
  • “Meu corpo dói fisicamente o tempo todo e mentalmente estou em um lugar muito sombrio”
  • “Eu não entrei nesse trabalho esperando fazer uma jornada das 9h da manhã às 5h da tarde, mas também não esperava que fosse das 9h da noite às 5h da manhã”

Mimimi?

Para muita gente, a queixa sobre as longas horas de trabalho para um recém-saído da faculdade cuja remuneração chega a US$ 160 mil por ano pode parecer ‘mimimi’. O salário embutiria um acordo implícito de jornadas estendidas.  

Mais do que isso, a queixa desnuda uma cultura arraigada — e muitas vezes enaltecida — de rituais abusivos com os novatos, perpetuados por banqueiros da velha guarda que passaram pelo mesmo quando estavam começando no mercado. 

Agora, os tempos mudaram. 

O burnout da Goldman vem num momento de recordes de negócios no mercado de capitais. Com o mercado de ações e dívida bombando, a divisão de investment banking gerou uma receita recorde de US$ 9,42 bilhões em 2020. 

“Nós reconhecemos que nosso pessoal está muito ocupado, principalmente porque o negócio está forte e os volumes estão em níveis históricos”, disse a Goldman à Reuters. “Com um ano de covid, as pessoas estão compreensivelmente exauridas, e é por isso que estamos ouvindo as preocupações e tomando diversos passos para endereçá-las.” 

O banco disse que está contratando mais funcionários e pedindo a transferência de equipe para ajudar.