Spin-off do bem: Na Sitawi, finanças sociais ficam e braço ESG parte em voo solo

De um lado, Leonardo Letelier vai mobilizar variados capitais para impacto; enquanto Gustavo Pimentel quer uma consultoria ESG ‘full service’

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Fundada em 2008 quando ninguém do mundo dos negócios dava bola pra ESG ou impacto socioambiental, a Sitawi virou uma das protagonistas do avanço dessa agenda no Brasil nos últimos anos. Ao um só tempo mobilizando capital para negócios de impacto e assessorando empresas e bancos na estruturação de políticas e produtos ESG.

Sempre foram duas faces da moeda das ‘finanças do bem’ e operavam sob CNPJs distintos – um sem fins lucrativos e outro com.

Mas, para conseguir capturar todas as oportunidades que a aceleração das agendas estão gerando, os sócios da Sitawi decidiram se dividir de fato. 

Leonardo Letelier ficará com a marca Sitawi e toda a operação de finanças sociais. Gustavo Pimentel tocará de forma completamente apartada uma empresa de consultoria sob nova marca que ainda será definida.

 

“As duas empresas não farão parte de um mesmo grupo. Serão duas organizações independentes e que continuarão trabalhando juntas em projetos específicos”, diz Gustavo Pimentel, sócio do braço de finanças sustentáveis.

“Formalmente, já não éramos sócios, mas agora precisamos ir para um caminho de maior independência. Com o tempo, o crescimento acelerado dos dois programas aumenta diferenças que hoje são gerenciáveis”, diz Leonardo Letelier, CEO da Sitawi.

Segundo os dois, ter uma única marca com produtos tão distintos tem dificultado a comunicação com os diferentes públicos. O braço de finanças sociais, por exemplo, cresceu em produtos para pessoas físicas nos últimos anos, o que requer comunicação específica. 

Até agora, a empresa com fins lucrativos doava automaticamente 10% da sua receita líquida para o braço filantrópico, mecanismo que deixa de existir. O compartilhamento da infraestrutura física, digital e de backoffice também cessará e cada uma das organizações passará a ter políticas institucionais e governança próprias. Não haverá laços societários entre as duas empresas.

Dos 140 colaboradores totais (eram 22 no começo de 2020), 60 já estavam alocados na empresa de finanças sociais e lá seguirão. Aos 80 que estão sob o CNPJ de finanças sustentáveis, serão acrescidos outros 10 para criar as áreas de recursos humanos, financeiro e comunicação. 

“O modelo atual não gera problemas de atração e retenção de talentos e, desde 2020, o braço sem fins lucrativos opera no azul, sem a doação de receita feita pelo braço de finanças sustentáveis”, diz Pimentel.

Endowments, a nova fronteira

Letelier acaba de ganhar o prêmio Empreendedor Social do Ano na categoria emergência sanitária, promovido pela Folha de S. Paulo e pela Fundação Schwab, por conta dos 14 fundos filantrópicos mobilizados, junto a parceiros como o BNDES, que levantaram R$ 175 milhões para combater os efeitos da pandemia no país.

Desde a fundação, a Sitawi já mobilizou um total de R$ 260 milhões em 62 fundos filantrópicos e a meta é chegar a R$ 1 bilhão até 2025.

“Estamos enxergando muitas oportunidades de crescimento em tudo que envolve inovação com foco em ‘impact first’”, diz Letelier. Ou seja, cada vez mais a Sitawi irá além do ‘impact only’, que envolve apenas capital filantrópico, para mobilizar capital tradicional para gerar impacto.

Nessa linha, já funciona e tem crescido a plataforma de empréstimos coletivos para negócios de impacto, com tíquetes a partir de R$ 10 (que está com uma rodada aberta). A originação de instrumentos financeiros para captar recursos para negócios de impacto, como Certificados de Recebíveis do Agronegócios (CRA), também faz parte dos planos. 

Uma próxima fronteira é criar uma espécie de ‘co-working’ de fundos patrimoniais, os chamados endowments.

Com a regulamentação do segmento no Brasil, tem havido crescimento desses fundos, mas um dos obstáculos para a sua multiplicação é o custo de se montar uma estrutura para endowments menores, que estão começando. E é essa lacuna que a Sitawi espera preencher.

ESG ‘full service’

Na esteira da demanda crescente de empresas e bancos, o faturamento do braço de finanças sustentáveis dobrou em 2021, para R$ 20,5 milhões.

De agora em diante, são dois os eixos para expansão. Um é geográfico. “A estratégia é nos tornarmos uma empresa de atuação regional. Já temos um escritório em Bogotá e abriremos em outras praças da América Latina em 2022”, diz Gustavo Pimentel.

Além disso, a ideia é se tornar uma consultoria ESG ‘full service’. “Vamos fazer mais coisas dentro do espectro ESG do que fazemos hoje”, diz.

Hoje a empresa faz avaliação de produtos financeiros sustentáveis que querem sair com um selo ESG, como debêntures e fundos, e presta consultorias de um ponto de vista estratégico. A ideia é colocar mais a mão na massa.

“Hoje fazemos pouca coisa na área de implementação e é aí que queremos entrar mais. Para isso, precisaremos ter especialistas nos diversos temas do ESG, e inclusive atuar mais em governança”, diz Pimentel.

A certificação de ativos da economia real – e não apenas produtos financeiros – também está no radar. “Há uma infinidade de coisas que precisam ser certificadas segundo padrões definidos.”

A transição para o novo modelo começa agora e a separação completa deve estar concluída no primeiro semestre de 2022.

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