Reporte climático: adesão ao TCFD dispara, mas detalhamento ainda é baixo

No ritmo de progresso atual, divulgação completa de todos pontos recomendados aconteceria apenas em 2029; resiliência dos negócios à mudança climática ainda é questão mais nebulosa

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Cada vez mais empresas estão apoiando a Task Force on Climate Related Disclosures (TCFD), o padrão de divulgação sobre os impacto das mudanças climáticas nos negócios.  

Mas ainda há muito chão pela frente para que haja uma padronização e para que a ferramenta realmente sirva para dar visibilidade ampla a investidores, credores e reguladores sobre o tema. 

Segundo um relatório de acompanhamento que acaba de ser divulgado, o número de empresas e organizações que deu apoio formal ao TCFD aumentou 85%, chegando a mais de 1500, desde a divulgação do reporte anterior, de julho de 2019. Elas somam quase US$ 12,6 trilhões em valor de mercado e incluem 60% das 100 maiores empresas do mundo.

Mas o nível de detalhamento apresentado pelas empresas que adotam a TCFD ainda é pequeno: em média, elas divulgam 2,9 dos 11 requisitos básicos recomendados pela força-tarefa. 

 

O número cresceu 32% em relação a 2017, ano em que foram divulgadas as recomendações. É um bom avanço, mas, num cenário de urgência climática, pode não ser suficiente. Se mantivermos esse ritmo só chegaremos ao nível completo de reporte recomendado em 2029. 

“Dada a importância de precificar corretamente os riscos relacionados a clima para alocar de maneira eficiente o capital, a força-tarefa acredita que a divulgação precisa avançar de forma rápida”, afirmam os autores no documento. 

TCF-o quê? 

Na sopa de letrinhas do mundo ESG, o TCFD vem se consolidando como principal caminho para avaliar, medir e gerenciar o impacto do aquecimento global nos negócios

A força-tarefa nasceu em 2015 dentro do Financial Stability Board (FSB), o braço operacional de assuntos financeiros do G20, que reúne presidentes de bancos centrais e ministros da economia dos países membros. 

O pai da criança foi Mark Carney, então presidente do Bank of England, e um dos pioneiros a alertar para o fato de que as mudanças climáticas poderiam representar um risco sistêmico para o sistema financeiro mundial.  O financista e ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg é o chairman da iniciativa, que cada vez mais tem ganhando apoios regulatórios. 

O próprio Banco Central do Brasil disse que deve exigir reporte dos bancos de acordo com o TCFD a partir de 2022, como uma das formas de incorporar como a questão climática pode impactar a estabilidade do sistema financeiro.

Linha a linha 

A TCFD recomenda divulgações em quatro dimensões: governança, gestão de riscos, estratégia e métricas e metas.

Para ver o progresso na adoção, a força-tarefa fez um mapeamento de 1700 empresas ao redor do mundo utilizando inteligência artificial. Do lado positivo, descobriu que as empresas estão aumentando a divulgação de cada um dos pontos, em média, em seis pontos percentuais desde 2017. 

Porém, por mais que estejam avançando na divulgação das questões de governança e na identificação de riscos e oportunidades ligados às mudanças climáticas, ainda há pouquíssima visibilidade do impacto financeiro potencial sobre as empresas. 

Apenas uma em cada quinze empresas divulga informações sobre a resiliência da sua estratégia a mudanças climáticas. 

O maior nível de transparência está em setores mais diretamente afetados pela mudança climática, como o de energia e de materiais básicos, que inclui a indústria extrativista, que tem um nível de divulgação médio de 40% e 30%, respectivamente, em relação ao recomendado pela TCFD. 

No setor de bancos, contudo, essa divulgação é de apenas 25%. (As médias são poucos tropicalizáveis: apenas 52 dos 1700 relatórios analisados referem-se a América Latina, com maior concentração em empresas nos Estados Unidos e Europa).

Caminho das pedras 

A TCFD fez também uma pesquisa com usuários ‘experts’ nas informações reportadas. 

Segundo eles, a informação mais crucial para a tomada de decisão a partir desses reportes é o impacto da mudança climática no negócio e na estratégia de uma companhia. 

A força-tarefa preparou um ranking com as 10 informações mais importantes, na ordem, para ajudar quem está começando a implementação. 

  1. Como questões relacionadas ao clima afetam o negócio e a estratégia de uma companhia
  2. Métricas-chave em questões relacionadas ao clima
  3. Informações materiais relacionadas ao clima identificadas em cada setor e geografia
  4. Emissões de gases de efeito-estufa de escopo 1
  5. Metas relacionadas à redução de emissão de gases de efeito-estufa
  6. Questões materiais relacionadas ao clima identificadas pela companhia
  7. Emissões de gases de efeito-estufa de escopo 2
  8. Os cronogramas para os quais as metas relacionadas ao clima da companhia se aplicam
  9. Indicadores-chave de performance (KPIs) usados para avaliar o progresso em relação às metas climáticas
  10. Considerações do board sobre questões relacionadas ao clima para grandes investimentos em capex, aquisições e desinvestimentos

Onde o calo aperta 

A TCFD também ouviu as principais queixas e dúvidas das empresas encontradas durante a implementação das normas. 

No quesito de governança e gestão de riscos, a principal alegação é que o clima já está atrelado aos processos, o que torna difícil separar o tema nos disclosures específicos. 

Em estratégia, a crítica (ou desculpa?) é antiga: divulgar as hipóteses para traçar cenários é complicado porque acaba incluindo informações confidenciais do negócio. 

Já nas métricas e metas, a dificuldade é óbvia: faltam padrões setoriais sobre os quais se apoiar.

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