Reino Unido dá largada para padronização de fundos ESG — com sotaque português

O português Rodrigo Tavares foi escolhido para liderar o processo, que levará um ano e servirá de base para uma padronização ISO de fundos

 

O Reino Unido lança em janeiro um trabalho que vai culminar na criação de um padrão para classificar e rotular fundos que utilizam critérios ESG (ambientais, sociais e de governança) em sua estratégia de investimento.

O trabalho é coordenado pelo British Standards Institution (BSI), o órgão britânico de padronizações, uma espécie de ABNT local, e conta com o apoio do governo britânico e da City de Londres e com a participação de instituições financeiras. A intenção é publicar a padronização no início de 2022.

Em meio às diversas iniciativas de padronização ao redor do mundo, esta tem sotaque português. Rodrigo Tavares, CEO do Granito Group, empresa de consultoria em ESG, foi escolhido nesta semana para liderar o processo. 

Professor de finanças sustentáveis da Nova School of Business and Economics, ele é natural de Portugal e bastante conhecido no mundo das finanças sustentáveis também no Brasil, onde tem assessorado gestoras e family offices na integração ESG.

“O tema tornou-se primordial dado o crescimento exponencial e relativamente desordenado de produtos com um selo ESG. Na maioria dos casos, qualquer gestora pode autodeclarar o seu fundo como ESG, sem riscos regulatórios”, diz Tavares. 

Na visão dele, o Reino Unido é um dos países onde o mercado financeiro está mais avançado na integração de políticas, práticas e dados ESG. “O governo e a City de Londres têm desempenhado um papel central.” 

Os padrões não terão força regulatória, mas a intenção do governo britânico é influenciar o debate internacional sobre o tema e posicionar o país como uma liderança em finanças sustentáveis, polindo as credenciais verdes diante da próxima rodada de negociações climáticas em 2021.

Hoje, existem algumas padronizações ESG nacionais, principalmente na Europa, mas nenhuma globalmente aceita. O padrão britânico deverá ter forte influência na criação de um padrão internacional para fundos sustentáveis.

O programa britânico tem fornecido orientação técnica para um comitê dentro do ISO (International Organization for Standardization) que trabalha na criação de um sistema de classificação de fundos ESG e o objetivo final é tornar esse sistema obrigatório em todos os 165 países membros da ISO, Brasil inclusive. 

O trabalho começa em janeiro e, ao fim de um ano, a ideia é ter critérios definidos para avaliação, governança, rotulagem e comunicação de fundos que se apresentem como sustentáveis aos investidores.

Sem inventar a roda 

Com tantas iniciativas simultâneas já em curso e outras que certamente virão, ainda é cedo para dizer que padrão irá prevalecer globalmente.

Tavares diz que a ideia é trabalhar de forma alinhada a outras iniciativas de padronização de produtos ESG, lideradas, por exemplo, pela CFA e pela União Europeia, a taxonomia verde da UE.

“Relativamente à taxonomia, existe um diálogo entre as duas organizações e o resultado [no Reino Unido] estará harmonizado com este sistema de classificação europeu. Mas o escopo da iniciativa britânica é mais amplo, uma vez que a taxonomia europeia é focada apenas em temas ambientais.”

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