Raízen e Volkswagen se unem para desenvolver o etanol como opção às baterias elétricas dos carros

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A Raízen, joint venture do grupo Cosan e da Shell, acaba de trazer um aliado estratégico para a sua aposta de posicionar o etanol como uma opção complementar às baterias elétricas na corrida para descarbonizar a indústria automobilística.

A empresa anunciou hoje um amplo acordo de cooperação com a montadora Volkswagen, que cobre ações como criação de estações de recarga de baterias de carros nos postos da bandeira Shell e também uso de biogás em plantas da montadora no país.

Mas a iniciativa da pauta com maior potencial estratégico para a empresa talvez seja justamente aquela menos detalhada no anúncio: a exploração do uso do etanol pela montadora de forma complementar aos carros elétricos, inclusive nos mercados internacionais.

Com isso, a Raízen traz para dentro do barco um primeiro parceiro estratégico para ajudá-la a emplacar a tese que embalou o seu IPO: a de que há espaço na matriz energética dos carros para o seu etanol de segunda geração (E2G), feito a partir de resíduos da cana.

 

A empresa produz etanol de segunda geração desde 2014, por enquanto apenas em uma planta (em junho foi anunciada a construção de uma segunda). O objetivo é escalar a tecnologia para mais 20 das 35 usinas que opera até o fim da década.

Além de aumentar em até 50% a produtividade das plantações, a Raízen aposta no apelo particular do produto no exterior, pois sua matéria-prima não compete com a produção de alimentos.

Como outras empresas do setor, a Shell está sob intensa pressão para vender menos petróleo e gás e mais renováveis. A possibilidade de desenvolvimento conjunto de novos combustíveis verdes sem dúvida tem apelo para a companhia.

“Existem oportunidades em todos os lugares para uso do etanol”, diz Lauran Wetemans, responsável por negócios de downstream da Shell na América Latina. “Qual é a nossa estratégia? [Não pensamos em] carro elétrico, carro a hidrogênio. O que discutimos no mundo inteiro é que são várias as opções. E o etanol é fantástico.”

Ricardo Mussa, CEO da Raízen, afirmou que já foram identificadas três possibilidades de testes. “O objetivo é melhorar o desempenho, a eficiência e reduzir as emissões.”

Biogás e recarga de baterias

O acordo também envolve medidas de descarbonização da montadora alemã no Brasil. O biogás — biometano, mais precisamente — da Raízen vai substituir o gás natural nas fábricas.

Produzido com vinhaça, um dos resíduos da extração do etanol (de primeira e segunda geração), esse combustível pode representar uma redução de até 80% das emissões de CO2.

O gás natural verde virá da planta de Piracicaba, no interior de São Paulo, que recebeu um investimento de R$ 250 milhões. O fornecimento deve começar em 2023.

A expectativa é que deixem de ser emitidas 19 mil toneladas de dióxido de carbono por ano, afirmou Pablo Di Si, o presidente da Volkswagen na América Latina. “Isso equivale a 100 milhões de quilômetros rodados em um ano por um Polo TSI”, afirma Di Si.

Será o primeiro uso em larga escala de gás renovável pela indústria automobilística no país. A expectativa é um consumo de 50 mil a 60 mil metros cúbicos por dia.

Ainda é um número ínfimo diante do potencial do país. Raphaella Gomes, diretora de transição energética e renováveis da Raízen, afirma que as “reservas” de biogás permitiriam a produção de 120 milhões de metros cúbicos/dia.

O número é cinco vezes superior ao que poderia ser produzido nos Estados Unidos, diz Gomes. “Essa parceria ajuda a tirar esse gás natural do solo e a realizar a descarbonização dos nossos clientes.”

Di Si apontou o ciclo virtuoso da parceria: “Quanto mais incentivamos o uso do etanol, mais vinhaça, o que significa mais biogás e mais redução de CO2”.

Um terceiro ponto da parceria diz respeito aos carros elétricos – um futuro que ainda parece distante no Brasil. Estações de recarga de carros elétricos serão instaladas em postos da bandeira Shell, inicialmente no Estado de São Paulo, afirmou Mussa.

A Volkswagen vai iniciar no país os testes de dois modelos a bateria, o ID.3 e ID.4. As estações vão oferecer recarga rápida. A Shell opera mais de meio milhão de estações no mundo.

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