R$ 1 bi em 20 anos: O plano da Localiza para construir ‘uma nova geração de fundadores’

 

Prestes a passar por uma mudança de comando, a Localiza está levando à assembleia de acionistas uma proposta polpuda para um grupo restrito de executivos: eles poderão receber 2,5% do capital da companhia, o equivalente a R$ 1,2 bilhão a valores atuais de mercado. 

Discrepâncias muito grandes na remuneração da cúpula costumam ser vistas com maus olhos pelos investidores. Mas, neste caso, se a cifra chama atenção, a inovação no sistema de remuneração e governança parece ter conquistado a aprovação prévia do mercado por conta do prazo associado ao plano e, principalmente, pela intenção por trás dele. 

Ao todo, a Localiza tem 20 anos para conceder as ações.  

Mais que isso, os executivos agraciados só receberão a maior parte da bolada se permanecerem ao menos sete anos no cargo. E 55% do valor só pode ser ‘vestido’ após o décimo ano — um horizonte muito maior que o da maioria dos planos de incentivo com stock options. 

Num mercado em que os CEOs não raro têm prazo curto de validade, a intenção da empresa é construir o que está chamando de “uma nova geração de fundadores” e reter talentos capazes de assegurar a cultura da empresa.

Marcando uma transição já aguardada pelo mercado, Bruno Lasansky — um executivo com sete anos de casa e atualmente na posição de COO — vai assumir a presidência executiva, no lugar de Eugênio Mattar, na primeira vez em que o cargo não será ocupado por um dos fundadores da companhia. 

Já neste ano, a proposta é que Lasansky e “mais um executivo”, que não teve seu nome revelado até agora, recebam os direitos equivalentes a R$ 200 milhões em ações. O cronograma de ‘vesting’ funciona da seguinte forma: 10% das ações após o terceiro ano; 15% após o quinto aniversário; 20% após o sétimo ano e 55% após o décimo.

O limite de R$ 1,2 bilhão que a companhia quer aprovar em assembleia poderá ser usado para reforçar a participação desses mesmos executivos e/ou para acomodar outros executivos ao longo dos anos.

“Num momento em que nós não temos uma sucessão natural, familiar, estamos fazendo uma natural executiva, mas colocando pessoas para dentro que vão ter participação acionária relevante para ser e agir como fundadores, como donos da companhia no dia a dia”, disse Eugênio Mattar em videoconferência com investidores na segunda-feira. 

“A ideia é que os administradores tenham uma participação acionária relevante ao longo do tempo para fazerem da Localiza seu projeto de vida pessoal e patrimonial.”

Segundo Mattar, o objetivo é que os executivos elegíveis ao plano não “encham uma mão” — ou seja, que cada um deles tenha, ao longo do tempo, algo como 0,5% da companhia, hoje avaliada em quase R$ 48 bilhões na bolsa. 

O comitê de gente é quem faz a indicação dos executivos elegíveis — que precisam ter mais de três anos na empresa –, a ser ratificada pelo conselho de administração.

A outorga deve ser relevante na primeira concessão para cada indicado, para marcar o novo status, e “também o tamanho da responsabilidade que ele passa a ter”, diz Mattar. O que não significa que, ao longo dos anos, os executivos contemplados não possam receber mais participações. 

“A princípio o valor nos chamou atenção, mas o plano tem lógica e foi muito bem amarrado para dar tranquilidade na transição de comando”, diz um gestor doméstico que tem ações da empresa, ecoando uma percepção compartilhada por outras assets ouvidas pelo Reset

A Localiza já vinha realizando roadshows com investidores nos últimos meses para sondar a percepção em relação ao plano de transição. 

Os executivos elegíveis ao “plano de retenção de longuíssimo prazo” terão forte contato com os fundadores, inclusive participando de fóruns de treinamento com a segunda geração, afirmou Mattar. 

Num mercado bombando de IPOs, captações, fusões e aquisições, manter a cultura e reter talentos é um desafio cada vez maior para as grandes empresas. No começo do ano, a Localiza sofreu uma baixa entre seus principais diretores: Maurício Teixeira, que estava no cargo de CFO há quatro anos, deixou a empresa para assumir a diretoria financeira da Hapvida, de planos de saúde. 

Lasansky vai assumir uma Localiza repleta de desafios — o maior deles é a aprovação da fusão com a Unidas, validada pelos acionistas no ano passado, mas que deve encontrar forte oposição no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). 

Para ajudá-lo no desafio, Mattar ficará como ‘executive chairman’, uma espécie de presidente do conselho turbinado. 

Inovação societária

Na prática, o processo de concessão de ações ocorre em paralelo ao programa de remuneração, que envolve uma fatia de remuneração fixa e uma fatia de remuneração variável, na forma de stock options, associada ao cumprimento de metas de curto e longo prazo. 

Mas, como não encontrou suporte na legislação brasileira para um contrato societário, por conformidade legal, a Localiza está tratando o plano como um programa de remuneração — com os custos associados à compra e venda de ações transitando pela demonstração de resultados. 

“Estudamos vários formatos, como dar as ações em comodato, mas não havia suporte jurídico no Brasil”, afirmou o atual presidente do conselho de administração, Oscar Bernardes Neto, em teleconferência com investidores. 

Neste ano, a empresa está alocando um custo de R$ 20 milhões (R$ 200 milhões dividido pelo prazo de vesting), o que elevou o plano de remuneração total em 33% em relação ao passado, para R$ 80 milhões. 

São elegíveis para o plano os executivos com ao menos três anos de companhia. A indicação é feita pelo comitê de gente, e então submetida ao conselho.