Proz quer ser referência em ensino técnico — e colocar jovem no mercado de trabalho

A EB Capital vem consolidando o segmento a partir da tese de que é possível fechar o gap entre a carência de mão de obra qualificada e o desemprego dos jovens

enfermeira num laboratório com tubos vazios para coleta de exames de sangue
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Enquanto as empresas sofrem com falta de mão de obra de qualidade, o desemprego entre os jovens é um dos problemas crônicos do Brasil. 

Entre quem tem de 18 a 24 anos, a taxa está acima de 20% desde 2016, com um pico de 30% durante a pandemia — mais que o dobro das taxas do restante da população. 

A Proz nasceu a partir da tese de que o ensino técnico de qualidade é capaz de fechar esse gap, colocando foco numa área da educação que sempre foi pouco valorizada.

Enquanto o ensino superior sofreu uma forte onda de consolidação na última década, a EB Capital aposta que há um oceano azul na educação profissionalizante. 

 

Em 2019, a gestora de private equity levantou R$ 170 milhões para a tese e desde então vem construindo uma rede que conta com 21 escolas e 21 mil alunos, que já fatura cerca de R$ 100 milhões anuais.

A meta é chegar a 100 mil alunos nos próximos cinco anos. 

“Cerca de 90% dos nossos alunos tiveram uma formação muito pobre na escola pública, mas quando recebem qualificação técnica se tornam profissionais prontos para o mercado de trabalho”, diz Eduardo Adrião, CEO da Proz. 

O foco é a empregabilidade. Segundo a Proz, 85% de seus alunos egressos conseguem emprego em até seis meses depois da conclusão do curso, que custa em média R$ 350 mensais.

Formados no curso de técnico de enfermagem, carro-chefe da rede até o momento, estão preenchendo vagas com salário médio de R$ 3 mil, diz ele. 

Consolidação

A trajetória da Proz começou com a aquisição de duas escolas em 2020: a Enferminas, que atua em Minas Gerais na área de saúde desde 2009, e a rede de escolas Essa, que tinha, na época, seis unidades na cidade de São Paulo. 

Juntas, as escolas somavam sete unidades e 5 mil alunos.

A partir dessa base, a Proz fez uma máquina de expansão e quer alcançar presença nacional. 

“O mercado é muito pulverizado. Há poucos operadores com mais de uma escola e, em geral, estas escolas não possuem mais que 500 matrículas”, diz Adrião, que antes da Proz passou pela Somos, de ensino básico. 

Até o fim de 2022, a escola vai inaugurar três unidades no Paraná.

Num mercado em que não há grandes marcas de referência, a Proz está tombando todas as escolas para o seu nome. Após as aquisições iniciais, vem apostando na expansão orgânica, mas não descarta aquisições em praças onde haja escolas relevantes.

O portfólio dos cursos da escola é guiado pela demanda de mercado e está concentrado nos setores de saúde, tecnologia e gestão — com duração entre um ano e meio e dois anos.

Além das escolas próprias, a Proz começou a fornecer formação técnica direto a empresas. Uma dessas parcerias é com a Amazon Web Services (AWS) e com a Meta, dona do Facebook, para reforçar o time técnico das empresas na área de tecnologia de informação.

“É um programa para a formação de 50 mil jovens em áreas básicas de sistemas de informação. Destes, vamos selecionar 2 mil para uma formação técnica com certificação em áreas de interesse da Meta e da AWS”, diz Adrião. 

Virada de chave

Historicamente, o ensino técnico foi menosprezado no Brasil. 

Hoje, apenas 9% dos estudantes que concluem o ensino médio vêm da educação profissionalizante ou técnica, ante 46% na União Europeia. Mesmo em países mais próximos do perfil brasileiro, como Chile e México, esse percentual está na casa dos 30%. 

Mas a EB aposta que os ventos estão começando a mudar.

Com um ensino superior ainda restrito a uma parcela pequena da população e com faculdades e universidades com formações muitas vezes desconectadas das necessidades imediatas do mercado de trabalho, o diploma técnico começa a conquistar seu lugar. 

“Para vários setores, a salvação da lavoura sob a perspectiva da eficiência do setor produtivo será o ensino técnico”, diz Luciana Ribeiro, sócia da EB Capital. “Essa é uma ficha que caiu recentemente.”

O ensino técnico não exclui o ensino superior, acrescenta Adrião. “Ele abre uma porta de entrada no mercado de trabalho, especialmente para o jovem de baixa renda.”

Empregabilidade

Crescer com qualidade sempre é o desafio chave das empresas de educação — e Adrião afirma, que, no caso da Proz, a palavra chave é a empregabilidade. 

Para garantir o acesso dos alunos ao mercado de trabalho, a Proz oferece formação com horas práticas e parcerias com as empresas para entender de perto suas necessidades.

Outro fator chave é incluir no currículo de todos seus cursos, além da questões técnicas, uma grade voltada para competências socioemocionais. 

“Temos muitos relatos de empresas que até encontravam profissionais preparados tecnicamente, mas que acabavam não ficando muito tempo por questões mais subjetivas. Então adicionamos uma carga horária para temas como resiliência, capacidade de diálogo e trabalho em equipe”, diz o CEO. 

Num momento em que pipocam cursos online, a Proz aposta num modelo híbrido. A maior parte da carga horário é presencial, o que torna a localização um dos principais pontos na hora de considerar abertura de novas unidades. 

Mas parte do ensino é à distância — e para assegurar a eficácia dessa parte da trilha, a Proz comprou uma startup de aprendizagem gamificada de Recife, chamada Joy Streets, que construiu uma plataforma de ensino online.

Desafios

Um dos principais gargalos no setor é encontrar bons professores.

A Proz hoje tem uma base de seiscentos professores, dos quais 50% estão de alguma forma envolvidos no mercado de trabalho e vêem a atividade de professor como um segundo emprego atrativo.

Além de recrutar profissionais que estejam no mercado de trabalho, a escola está investindo também na formação de professores.

Outra questão sensível para o ensino privado é a inadimplência. Com a maioria dos alunos vindo de classes de baixa renda, a escola montou uma equipe especial de cobrança.

“Já tivemos mais problemas com inadimplência na pandemia”, diz Adrião, completando que hoje a rede está no seu menor patamar de cobrança de mensalidades atrasadas.

Para o futuro, o CEO diz que estuda formas de financiamento. Um modelo bastante usado entre startups de formação de programadores é o “estude agora e pague depois”, em que os alunos só pagam o curso após conseguir emprego.

“É um modelo que está no nosso radar, na medida que entregamos alta empregabilidade. Estamos fazendo testes de precificação e de modelos de financiamento”, afirma Adrião.

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