Primeira aposta do fundo de impacto do BTG, Gran Cursos mira até universidade

'Netflix da educação', com mensalidades de até R$ 99, quer consolidar mercado de preparação para concursos e levar educação profissionalizante aos rincões do país

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A digitalização do ensino é uma das principais maneiras de levar educação para mais pessoas, ainda mais num país de dimensões continentais como o Brasil. 

No começo do mês, o BTG Pactual apostou nessa tese dentro do seu recém-criado fundo de impacto, que fez seu primeiro aporte na Gran Cursos Online, uma das principais plataformas de educação digital do Brasil. 

A edtech — que oferece assinaturas a partir de R$ 35 — já formou mais de 1 milhão de alunos desde 2012, com foco em cursos preparatórios para concursos públicos e provas como a da OAB e de residência médica. 

Com a injeção, de valor não revelado, o plano é avançar na área de concursos, onde é forte, mas também levar seu modo de oferecer ensino à distância para outras áreas, com planos de entrar em graduação e pós-graduação e também no ensino técnico. 

 

“Queremos democratizar o ensino levando os melhores professores até para os alunos que moram mais longe”, diz Gabriel Granjeiro, cofundador da empresa. 

Ele diz que, ao observar o mercado de cursos preparatórios para concursos, quase dez anos atrás, notou que as pessoas precisavam muitas vezes se mudar para os grandes centros para encontrar as melhores aulas presenciais, enquanto as provas acontecem no Brasil inteiro. “Naturalmente isso limita quem pode fazer esse investimento e restringe muito o campo de oportunidade para as pessoas.”

A Gran Cursos funciona como uma espécie de Netflix da educação: oferece acesso a um catálogo recheado com quase 26 mil cursos online, num total de 125 mil videoaulas, mediante a cobrança de uma mensalidade fixa que varia entre R$ 35 e R$ 99. Ferramentas de inteligência artificial recomendam ao estudante provas que ele estaria apto a fazer com base no conteúdo que estudou até aquele momento.

Hoje, são mais de 250 mil assinantes ativos.

Impacto sem rótulo 

Ainda que a tese de democratização de ensino estivesse praticamente no objeto social da Gran Cursos desde o nascimento, os fundadores nunca se viram como um negócio de impacto social propriamente dito. 

No processo de captação de cursos, iniciado em 2019, as conversas se deram com investidores tradicionais. 

“Desenhamos um processo com potenciais investidores e chegamos na etapa final com algumas opções. Não estávamos necessariamente buscando um fundo de impacto”, diz Granjeiro. “O BTG enxergou em nós algo além do que imaginávamos em termos de impacto. E isso nos animou.” 

Segundo o fundador, o banco fez algumas provocações sobre onde eles poderiam ir em termos de impacto — e sugeriu métricas que a companhia deveria apresentar para validar e potencializar os benefícios sociais do negócio. 

Hoje, pesquisas internas da Gran Cursos mostram que apenas 37% dos assinantes estão em municípios com mais de 500 mil habitantes; 27% deles, em cidades com menos de 100 mil moradores. Outro dado relevante aponta que mais de 45% dos alunos afirmaram que não teriam como estudar caso a plataforma digital não existisse. 

Outra abordagem que agradou o fundo foi o fato de que a Gran Cursos favorece a inclusão:  uma ferramenta de acessibilidade permite legendar automaticamente todos os vídeos disponibilizados na plataforma e transformar materiais de texto em áudio. “Isso permite que pessoas com problemas de audição ou de leitura também possam aproveitar o conteúdo”, diz Granjeiro. 

Com o fundo de impacto ainda em fase final de captação para o primeiro fechamento, que deve girar em torno de R$ 600 milhões, o BTG não comenta o negócio e nem revela detalhes da transação. Mas documentos apresentados ao Cade mostram que a gestora ficou com pouco menos de 30% do capital da Gran Cursos. 

A medição de impacto do fundo deve seguir os parâmetros do IFC, ligado ao Banco Mundial. 

Uma ideia cuja hora chegou? 

A Gran Cursos é um daqueles negócios que prosperou com a pandemia — que tornou o ensino à distância mais que uma opção, praticamente um imperativo da quarentena. A receita aumentou 50% no ano passado e a meta é crescer mais 40% em 2021, diz Granjeiro. 

Realidade bem distante dos primeiros vídeos gravados com auxílio de cartolinas e com câmeras antigas num estúdio acanhado de Brasília.

Nascido na capital federal, Granjeiro respira o universo concurseiro desde sempre, porque seus pais tinham uma escola de cursos preparatórios, onde começou a trabalhar aos 14 anos. Com 18 anos se mudou para Nova York para cursar administração da New York University, com o sonho de fazer carreira em bancos de investimento e fundos de private equity.

Foi numa das férias de verão no Brasil, depois de ser rejeitado para um estágio não-remunerado no Banco Central, que teve a ideia de criar um negócio em ensino digital, algo que nos Estados Unidos já estava mais avançado. Começar por cursos preparatórios foi o caminho natural.

Para colocar o primeiro site no ar, convidou para sócio Rodrigo Calado, que havia trabalhado na escola da sua família e na época cursava tecnologia da informação. Calado hoje é o CTO da empresa e seu segundo maior acionista — tem 31,74% e Granjeiro, 38,79%, depois da entrada do BTG.

Além de reforçar o marketing, os recursos do banco vão para desenvolvimento de cursos para provas hoje não cobertas pela plataforma e para aquisições. Apesar de haver várias plataformas online de preparação, o mercado ainda é bastante pulverizado. 

O sonho grande é se tornar uma universidade. Ainda não há previsão de quando a ideia será colocada em prática e nem quais áreas de ensino serão exploradas. O plano ainda está em fase de maturação e, antes de tudo, precisa passar pelo crivo do MEC.

“Há muitos cursos de graduação que não preparam as pessoas para o mercado de trabalho. Queremos oferecer algo que supra essa necessidade e seja prioritariamente digital”, afirma Granjeiro.

Edição de Natalia Viri e Vanessa Adachi

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