OPINIÃO: O papel das empresas na construção de uma nova sociedade no pós-pandemia

Walter Schalka, CEO da Suzano, escreve que a crise atual deixa claro como e porque somos interdependentes.

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A pandemia do novo coronavírus já é um marco de nossa história. Além de ser uma crise de proporções jamais vistas pela nossa geração, ela também tem colocado rapidamente em xeque o modo como nos relacionamos e como nossa sociedade se organiza. A pandemia expôs, ainda mais, a fragilidade e a vulnerabilidade humana, evidenciando também as desigualdades sociais do Brasil.

É com esta realidade, ainda em plena transformação, que as empresas precisam se reposicionar e encontrar um novo modelo de operar – equilibrando os interesses e com uma visão ainda mais voltada para o todo. E é com esse novo direcionamento que o setor privado terá um papel fundamental na construção do mundo pós-pandemia.

Pesquisas indicam que países e regiões com piores índices de desenvolvimento serão mais afetados pela crise. E, dentro desses países, a situação é ainda mais alarmante entre as milhões de pessoas consideradas vulneráveis, as quais se deparam neste momento com dúvidas sobre como conseguirão se alimentar ou manter uma condição de vida minimamente digna. Diante dessa cada vez mais evidente realidade, uma dúvida deve ecoar com ainda maior eloquência: por que temos de deixar que esse abismo e as consequentes tragédias se repitam continuamente?

Acredito que a palavra de ordem na nova realidade que viveremos a partir do covid-19 deva ser a humanização. A crise atual deixa claro como e porque somos interdependentes. A contaminação depende do outro? Sim. Mas a retomada e a construção desse “novo normal” também dependerá de uma sociedade que promova mais o consumo consciente e o desenvolvimento sustentável de nossa população. Isso significa dizer, por exemplo, que a relação com colaboradores, fornecedores e clientes deva ser repensada, considerando o perfil de cada um deles, e que, principalmente, a posição das companhias na e perante a sociedade deverá ser diferente do que era feito antes.

 

Afinal de contas, o modelo em curso não levou a ganhos uniformes e sustentáveis. Ricos ficaram mais ricos, e os pobres, quando muito, alcançaram conquistas pontuais que não resultaram em uma efetiva e consistente melhoria na qualidade de vida. Está na hora de reverter essa marcha e buscar mais igualdade.

Para isso, será fundamental endereçarmos algumas questões centrais, incluindo as reformas administrativa e tributária. Nesta segunda frente, vale lembrar, já temos um caminho muito bem traçado pelo economista e ex-secretário do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, cujo projeto de reforma está no Congresso. Devemos onerar mais a renda e menos o consumo, o que traria efetivo impacto na distribuição de renda do País.

Outro ponto importante é acelerarmos o processo de digitalização no Brasil, avanço importante para democratizar a oferta de serviços públicos de qualidade à população. Vimos nesses últimos meses que é possível, sim, utilizar ferramentas virtuais para disseminar o trabalho e ampliar a capilaridade de serviços que, antes, ficavam restritos aos processos tradicionais, presenciais e muitas vezes burocráticos. Não se trata apenas do home office. Estudos indicam que o uso de soluções digitais pode gerar enormes reduções de custo à operação pública e privada.

A meu ver, portanto, a Era Digital deve ser trabalhada como uma oportunidade de relevante evolução da eficiência do Estado, propiciando maiores investimentos em infraestrutura, geração de empregos, desenvolvimento de indústria, expansão de serviços essenciais e atendimento na medida certa aos mais vulneráveis. As empresas – e a sociedade como um todo – precisam cobrar isso e, quando cabível, serem os próprios agentes protagonistas dessa transformação.

Além disso, a digitalização pode e deve ser utilizada para impulsionar os investimentos e a melhoria da educação e da ciência em nosso País. Essa é a única estratégia que nos permitirá transformar o Brasil, promovendo mais justiça social, sustentabilidade econômica e competitividade à nação.

A educação, aliás, é um exemplo de como o modelo em vigor não foi capaz de promover um ambiente equânime, com condições integrais para todos. Hoje, temos quase a universalidade dos serviços escolares no Brasil, mas com baixa qualidade, o que torna quase inviável aos mais pobres conseguir ascender socialmente. A digitalização e o aperfeiçoamento das práticas de ensino são a solução para levar o conhecimento mais longe e, assim, garantir melhores retornos à vida do brasileiro – e às empresas, por sua vez.

Em todos esses pontos, a participação das lideranças corporativas é essencial. As organizações precisam se posicionar e contribuir para o desenvolvimento dessa relação interdependente mais sólida. E caberá aos líderes dessa e das próximas gerações – muitos deles a serem formados já sob a ótica do mundo pós-covid –  compreenderem que a melhoria da qualidade de vida da população trará resultados positivos para todos. Somente com o desenvolvimento de um novo modelo, pautado no equilíbrio social e no uso adequado e consciente dos recursos naturais, conseguiremos alcançar resultados mais sustentáveis e longevos.

A nova economia e a nova dinâmica corporativa, portanto, não podem mais ser vistas como elementos externos à realidade social e ambiental. A crise originada nesta pandemia mostra como somos dependentes uns dos outros. É responsabilidade das empresas entender e ocupar esse papel como agentes de transformação, apoiando e cobrando as mudanças necessárias para extrair desse cenário as melhores oportunidades. As coisas precisam mudar. Ou melhor, elas já estão mudando.

* Walter Schalka é presidente da Suzano desde 2013. Engenheiro formado pelo ITA e pós-graduado em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV), possui cursos de Especialização e Aperfeiçoamento no IMD (Suíça) e em Harvard (EUA).

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