Por que o Spotify passou pano para o antivaxxer de US$ 100 milhões

Joe Rogan faz mea culpa insincero e vai manter podcast que espalha desinformação para mais de 11 milhões de ouvintes

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“Desculpa qualquer coisa.”

Esse é um resumo razoável do vídeo em que o americano Joe Rogan, um dos podcasters mais famosos do mundo, tratou da polêmica envolvendo seu programa no Spotify.

Rogan, que ficou famoso de verdade comentando as lutas de vale-tudo do Ultimate Fighting Championship, há meses abre espaço em seu podcast para quem levanta dúvidas sobre as vacinas da covid.

Na semana passada, o roqueiro Neil Young e a cantora folk Joni Mitchell pediram a retirada de suas músicas da plataforma por causa da desinformação contida nos podcasts de Rogan.

 

No domingo, a empresa apresentou sua “solução” para o imbróglio: criar uma central de informações sobre covid-19 e divulgar sua política para o que pode ou não ser dito nos podcasts oferecidos pelo serviço.

“Ficou claro que temos a obrigação de fazer mais para oferecer equilíbrio e acesso a informações amplamente aceitas pelas comunidades médicas e científicas”, disse o CEO da empresa, Daniel Ek.

Mas Joe Rogan manteve o contrato de US$ 100 milhões para transmitir seu podcast exclusivamente no Spotify – agora, segundo ele próprio, com um “alerta” caso o tema seja controverso.

Em português claro, o Spotify fez o mesmo que outras gigantes da tecnologia que vivem de vender audiência: quase nada.

Nova fronteira das fake news

Nos quase dez minutos do vídeo em que fala da polêmica, Rogan diz que “busca a verdade” e que procura ouvir opiniões divergentes.

Eis um exemplo da opinião que “rema contra a maré” disseminada para os mais de 11 milhões de ouvintes do “Joe Rogan Experience”: as vacinas com tecnologia mRNA podem levar a um surto de “psicose em massa”.

O autor da teoria é Robert Malone, um médico que foi expulso do Twitter por promover mentiras a respeito da segurança da imunização.

Só contando a versão da Pfizer, já foram aplicadas mais de 10 bilhões de doses de vacinas que empregam a tecnologia inovadora do RNA mensageiro. Não há registro de loucura coletiva.

O próprio Rogan não se vacinou, pegou a doença em agosto do ano passado e disse ter se tratado com ivermectina. No ano passado, ele sugeriu que jovens não precisariam se vacinar pois têm sistemas imunes sadios.

As redes sociais há muito lidam com o jogo de gato e rato que é a caça à desinformação, e era questão de tempo para que a atenção se voltasse aos podcasts.

Mas esses programas de rádio via internet têm dois complicadores. O primeiro é da natureza do meio. A tecnologia para monitorar o que se diz num bate-papo (como são os podcasts de Rogan, por exemplo) é mais complexa que os softwares usados para identificar conteúdos potencialmente perigosos em forma de texto.

E Rogan não é meramente dono de uma conta na plataforma. Ele tem um contrato milionário com o Spotify e é peça central na tentativa da empresa de se firmar como um destino para podcasts.

O Spotify não pode alegar que faz apenas a mediação entre Rogan e seus ouvintes.

Depois do anúncio da retirada do catálogo de Neil Young da plataforma, o Spotify perdeu US$ 2,1 bilhões em valor de mercado na semana passada.

Hoje, com o mea-culpa insincero de Rogan e do CEO e um relatório otimista do Citi prevendo aumento das receitas de publicidade, a ação da empresa estava em alta de 12% no meio do pregão.

‘Responsabilidade estranha’

Rogan disse nunca ter esperado ou se preparado para tamanha influência. “É uma responsabilidade estranha ter tantos espectadores e ouvintes.”

Ele prometeu “melhorar” e se esforçar para mostrar opiniões diferentes daquelas que julga controversas.

“Se te irritei, me desculpe”, disse Rogan. E na sequência ele agradeceu ao Spotify – presumivelmente pelos US$ 100 milhões garantidos e pela carta branca para continuar dizendo o que lhe dá na telha.

Como as gigantes das redes sociais, o Spotify, cuja sede é na Suécia, deve continuar dando muito dinheiro – mas talvez também entre na mira dos reguladores e legisladores americanos e europeus.

Este mês, o Congresso americano intimou Meta (dona do Facebook e do Instagram), Alphabet (dona do Google e do YouTube), Twitter e o megafórum Reddit a entregar documentos relacionados à investigação da invasão do Capitólio, em janeiro do ano passado.

Foi apenas mais um capítulo da queda-de-braço entre políticos e as Big Techs. No fim de 2021, uma série de reportagens do Wall Street Journal mostrou que executivos do Instagram sabiam dos efeitos psicológicos negativos da rede social sobre os usuários mais jovens.

Há duas semanas, depois de uma intensa mobilização dos usuários, o Twitter Brasil passou a disponibilizar um canal de denúncias específico para contas que promovem desinformação.

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