Para se criar a bioeconomia da Amazônia, falta cuidar do básico

Enquanto se discute a Amazônia 4.0, que engloba o mercado de carbono e as bioindústrias, a floresta carece de infraestrutura mínima como alicerce, escreve Marcello Brito

Para se criar a bioeconomia da Amazônia, falta cuidar do básico
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Na semana do clima de Nova York, em setembro, foi difícil achar um evento que não se referia à Amazônia 4.0, aquela que engloba entre outros o mercado de carbono, pagamentos por serviços ambientais, biotecnologia e bioindústrias de última geração, nanotecnologia, e uma “moderna bioeconomia da floresta” – seja lá o que isso represente nesse momento de profunda destruição da floresta. 

Na próxima COP 27 não tenho dúvidas que o 4.0 continuará no topo das discussões. Mas como chegar ao 4.0 se não conseguimos viabilizar nem mesmo o 1.0?

Essa primeira etapa é caracterizada pelas dádivas da natureza disponibilizadas a nós de forma teoricamente gratuita  —  frutas, raízes, ervas, plantas, madeiras, castanhas, oleaginosas e demais ativos presentes nos mosaicos naturais da floresta.

Ao não dar a importância necessária a esses ativos, permitimos que esse complexo sistema bioeconômico seja reduzido a um pequeno número de espécies, que por ora remuneram a tradicional ganância empresarial sem qualquer planejamento bioeconômico de longo prazo. São apenas os famosos ciclos econômicos com prazo ou abrangências limitadas, conhecidas como “boom e colapso”.

Assim, multiplicam-se projetos de florestas de açaí, cacau a sol, dendê, macaúba, teca, seringa e tantos outros produtos da agricultura tradicional que participam da rotina alimentar nacional e internacional.

Não me entenda mal, esses são ótimos ativos para a restauração de áreas e pastos degradados, mas nunca para substituir um mosaico de floresta natural. A agricultura regenerativa, em suas diversas faces, terá importância especial na recuperação dos mais de 60 milhões de hectares de áreas degradadas ou subutilizadas no arco do desmatamento e terá participação importante no mercado de carbono.

Por nossa incapacidade de explorar positivamente e a contento essa Amazônia 1.0, nos distanciamos ainda mais da 2.0, o passo seguinte num processo natural da economia circular, que valorizaria os milhares de subprodutos da primeira etapa.

Cascas, fibras, farelos, resíduos sólidos e líquidos que poderiam ser a base para uma bioeconomia industrial e agregação de valor percebido num universo inimaginável de produtos e serviços. Sem isso, se acumulam resíduos de alto valor comercial em vastas áreas amazônicas com sérios impactos ambientais e na saúde pública, ampliando a degradação florestal.

Conversas impossíveis

“O xerife nunca chega antes do bandido”. Esta frase era dita por um tradicional político amazônida, que sempre usava o bordão quando a ele pediam infraestrutura mínima para que investimentos fossem feitos na região. Nada mais revelador em relação ao tratamento estratégico (nunca) dado à região.

Nessa lógica, primeiro tem que acontecer a destruição para depois os “homens de bem” aparecerem para organizar o sistema. Uma lógica contrária a qualquer modelo minimamente moderno, e é nesse que se encaixaria o que chamamos de Amazônia 3.0.

Nesta etapa estariam sendo desenvolvidas as estruturas socioeconômicas necessárias para o salto de qualidade, escala e efetivação socioeconômica das ações resultantes do 1.0 e 2.0. Assistência técnica de verdade, rearranjo dos sistemas e modelos de financiamento (não falta dinheiro, falta estratégia de aplicação desses recursos), aprimoramento do acesso à educação e formação de mão de obra, melhoria da governança pública, política industrial, parcerias público-privadas e programas de P&D efetivos.

Que tal baixar das prateleiras das dezenas de universidades e centros de P&D as centenas de milhares de pesquisas feitas com dinheiro público nos últimos 30 anos? Será que nada se aproveita?         

Sem o desenvolvimento e aprimoramento das ações efetivas no 1.0, 2.0 e 3.0 não conseguiremos implementar um 4.0 de sucesso, pois este estará fadado a todo tipo de riscos e interferências políticas, sociais, ambientais e empresariais. Serão poucos e sem o impacto global esperado aqueles que prosperarão. 

Não pode haver no centésimo andar de nossas intenções algo sem construção sólida nos andares inferiores, baseada numa edificação sem a presença madura e ordeira dos três eixos primordiais do desenvolvimento representados por governos, sociedade civil e setor privado. Sem isso qualquer modelo será capenga.

Cabe uma provocação: existem hoje seguramente mais de uma centena de “projetos” bioeconômicos públicos e privados na Amazônia brasileira. Todos concorrendo entre si por verbas e financiadores que lhes dê ao fim e ao cabo o protagonismo da liderança das soluções amazônicas, ou o título de “melhor dos melhores, ou o Top ESG”.

Será que nunca nos ocorreu que algum dia pudéssemos nos sentar, conversar e enxergar onde um apenas vem realizando retrabalho do outro, ou ainda não chegamos ao limite do sofisma?

A matemática da Amazônia exige mais que boa vontade, pois, sob o ponto de vista filosófico, a decisão nada mais é que a soma de intenção mais ação.

O 4.0 é fruto das melhores intenções, mas somente a ação concreta no 1.0, 2.0 e 3.0 nos trará a base adequada e necessária para evoluir, e dirá quais são as difíceis decisões que teremos que tomar. 

Não é fácil e não há balas de prata. Levará tempo, vontade política, capital nacional e internacional intenso e de longo prazo e muita inteligência estratégica para mudarmos o rumo das coisas.

Qual será nossa atuação como cidadãos e o que falta aos líderes do setor privado para transformar intenções em ações? A resposta a essa pergunta, feita a 28 CEOs e presidentes de empresas entre as 50 maiores do agronegócio nacional surpreendeu, pois foi “coragem para dialogar as conversas impossíveis”.      

* Marcello Brito é CEO da CBKK S. A., professor associado e coordenador da Academia Global do Agronegócio da Fundação Dom Cabral.