OPINIÃO: Investidores pressionam e a resposta não pode ser a negação ou o ‘greenwash’

Marcelo Furtado, ex-Greenpeace, escreve que um boicote generalizado aos produtos brasileiros provavelmente afetaria mais as empresas “progressistas” do que os setores que apoiam o retrocesso e a ilegalidade

 

Nesta semana, representantes do primeiro escalão do governo federal se reunirão com fundos de investimento e de pensão, a maior parte estrangeiros, que há pouco mais de duas semanas enviaram carta ao governo brasileiro manifestando sua preocupação com o aumento do desmatamento e o retrocesso nas políticas públicas ambientais e de direitos humanos do Brasil.

Integrantes da Investor Initiative for Sustainable Forest, esses fundos gerem R$ 20 trilhões. O encontro virtual é uma oportunidade que poderá contribuir para melhorar ou prejudicar ainda mais a crise de imagem do país no mundo.

O maior erro do governo brasileiro será tentar fazer um greenwash no lugar de implementar ações concretas de combate ao desmatamento, à ilegalidade e de apoio à saúde dos povos indígenas e ribeirinhos. 

O maior erro dos investidores nacionais e internacionais será tratar todas as empresas e setores no Brasil como bandidos. É hora de separar o trigo do joio e investir em companhias que entendem que presente e futuro devem ser construídos com inclusão e sustentabilidade.

Nas últimas semanas, um conjunto de anúncios escancararam os danos à imagem e reputação do Brasil. Má gestão ambiental, descaso com os direitos humanos dos povos indígenas e falhas no combate à covid-19. O preço do descaso socioambiental ficou caro demais.

Além da carta dos investidores, enviada às embaixadas brasileiras em diversos países, a norueguesa Grieg Seafood suspendeu a compra de soja brasileira da Cargill por conta do desmatamento. A BlackRock, maior gestora de fundos do mundo, que controla R$ 35 trilhões, avisou que votará contra empresas que não eliminem o desmatamento de suas cadeias.

Os investidores refletem a pressão de seus próprios clientes e acionistas, impactados pelo crescente volume de informação sobre a destruição do bioma Amazônico, entre outros. Um grande número de estudos gerados pela academia, sociedade civil e órgãos do governo apontam que na pandemia os desmatadores não fizeram home office e os índices do desmatamento aumentaram.

Este ano poderão chegar a 15 mil km2, um aumento de 50% em relação a 2019. Em junho, com a chegada do período de seca na Amazônia, já se pode observar um aumento nos focos de incêndio na floresta. Sem tomar medidas imediatas, a situação poderá ser pior que em 2019, o ano em a NASA mostrou que os incêndios podiam ser vistos do espaço. Neste ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) registrou quase 90 mil focos de incêndio na Amazônia, 30% a mais do que em 2018.

Além do capital financeiro, temos também o capital político pressionando o Brasil. Mais notadamente os parlamentos europeu e holandês, e até mesmo o nosso Congresso Nacional, têm criticado a gestão ambiental e desaprovado o acordo da União Europeia com o Mercosul.

No final de junho, sob a liderança do vice-presidente da República, Hamilton Mourão, em conjunto com os ministérios da Agricultura, Meio Ambiente e Relações Exteriores, o governo desenhou sua estratégia de defesa à crítica internacional: uma campanha publicitária para melhorar a imagem do país no exterior, elaborada pela APEX (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

O governo terá dificuldade em modificar a realidade com uma campanha de relações públicas, dado que o problema é a ausência do Estado com ações de comando e controle na região e principalmente de uma visão próspera, inclusiva e sustentável para a Amazônia.

A primeira oportunidade para estrear a nova estratégia aconteceu em 2 de julho, na fala de abertura do presidente Jair Bolsonaro durante a LVI Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul.

“Ao mesmo tempo, nosso governo dará prosseguimento ao diálogo com diferentes interlocutores para desfazer opiniões distorcidas sobre o Brasil e expor as ações que temos tomado em favor da proteção da floresta Amazônica e do bem-estar das populações indígenas”, disse Bolsonaro.

Ou seja, mais uma vez o governo respondeu negando o problema no lugar de oferecer soluções.

A pressão empreendida por investidores, supermercados e consumidores internacionais deve continuar a ser exercida e já teve o êxito de alertar e gerar uma reação.

Entretanto, essa campanha necessita de uma segunda abordagem, que valorize as empresas e setores atuantes no Brasil que estão se comprometendo com a lógica de conciliar a produção com a conservação. Nos tempos de pós-pandemia, o desafio será empreender com inclusão e sustentabilidade.

Isso deverá ser feito de maneira estratégica e alinhada com as empresas e setores da sociedade brasileira que comungam com a demanda de inclusão social e erradicação do desmatamento na cadeia de valor. Um boicote generalizado aos produtos brasileiros provavelmente afetaria mais as empresas “progressistas” do que os setores que apoiam o retrocesso e a ilegalidade.

No Brasil, o setor privado está claramente tímido e acuado. Este é um momento de cobrar liderança, lá fora e aqui. O manifesto lançado hoje com mais de 35 grandes empresas e representantes do setor de energia e agronegócio como ABAG, Abiove e IBÁ, vai exatamente nessa direção. É preciso que mais empresas e setores assumam esse compromisso. Essa ação deve ser monitorada e devidamente reconhecida pelos investidores.

Devemos encorajar o maior número possível de empresas e setores a se comprometer com ações concretas para eliminar o desmatamento e as violações de direitos humanos de suas cadeias. Também devem se manifestar contra a política de retrocesso socioambiental. Os investidores devem apoiar e valorizar as empresas e setores que estão comprometidos com a demanda de produzir com impacto positivo e contribuição para a sociedade.

*Marcelo Furtado é engenheiro químico com mestrado em energias renováveis. É CSO e sócio fundador da startup BLOCKC/ZCO2, uma plataforma de relacionamento que oferece solução de rastreabilidade de ativos ambientais utilizando a tecnologia Blockchain. Também é presidente do conselho da World Resources Institute (WRI) Brasil, membro do conselho da Conectas Direitos Humanos e membro do comitê de sustentabilidade e inovação de Duratex e Marfrig. Foi diretor executivo da Alana Foundation, co-fundador da plataforma Believe.Earth, membro fundador da Coalizão Brasil Clima Floresta e Agricultura, diretor executivo do Instituto Arapyaú e do Greenpeace Brasil.