OPINIÃO: Decifrar a Amazônia é chave para Brasil ser potência verde

Uma agência similar à Darpa, onde foi criada a internet, abriria caminho para país explorar a interseção entre biologia e tecnologia digital, escreve Julia Marisa Sekula

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Durante a Guerra Fria, era inimaginável que algum outro país teria a capacidade de ultrapassar os Estados Unidos na corrida tecnológica para o espaço. No dia 4 de outubro de 1957, contudo, o satélite russo Sputinik chegou à órbita da Terra antes – e pegou os norte-americanos de surpresa.

Quatro meses depois, em resposta ao evento, os EUA criaram a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (Darpa). Focada em tecnologias de alto risco e potencial de impacto, a agência inspirou-se no Gabinete de Pesquisa e Desenvolvimento Científico (OSRD), órgão responsável por quase toda a P&D militar dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Acredita-se que o OSRD foi um (senão, o) grande responsável pela vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

E a Darpa, bem… na próxima vez em que você for olhar para o seu computador, pesquisar algo na internet, procurar um endereço no Google Maps ou usar uma fita adesiva, lembre-se: aquilo nasceu na Darpa. 

Os dois programas foram desenhados para enfrentar grandes ameaças: o nazismo na Alemanha e o bloco soviético durante a Guerra Fria.

 

Para entender as repercussões, basta olhar para as maiores empresas do mundo hoje.  Das top dez colocadas na S&P 500, oito geram valor em cima das tecnologias criadas nessas ‘start-ups governamentais’.

Estima-se que, a partir do investimento anual de cerca de US$3,5 bilhões na Darpa desde 1958, trilhões de dólares tenham sido gerados na economia dos EUA. Para quem procura retorno de investimento, existem poucos casos comparáveis.

Para quem procura entender as estruturas e incentivos à inovação, poucos lugares têm produzido, em tão pouco tempo, tanta inovação em grande escala. 

Grandes ameaças podem trazer grandes avanços. A emergência climática se apresenta como a maior ameaça já enfrentada pela humanidade. Só que, desta vez, o desenvolvimento não será catalisado pela engenharia (como no século 19) nem pela química e a física (como no século 20), mas pela natureza.

A interseção entre biologia e deep tech possibilitará a migração de economias que precisam extrair da natureza (como o petróleo) para economias que utilizam o design e a inteligência da natureza para criar novos processos de manufatura a nível do átomo.

Da mesma forma que a internet transformou todas as indústrias, essas inovações afetarão a todas e todos – do setor de energia, à agricultura, até ao varejo.

Já em 2011, Steve Jobs falava que as maiores inovações do século 21 se encontrariam na interseção entre a biologia e a tecnologia digital. Dez anos depois, testemunhamos uma das provas dessa visão: vacinas mRNA desenvolvidas em velocidade histórica (não por acaso, também desenvolvidas dentro de uma parceria com Darpa). 

Segundo um estudo do Fórum Econômico Mundial, soluções que utilizam a inteligência da natureza gerarão mais de US$10 trilhões até o final de 2030 e, nos próximos 30 anos – esse número alcançará até 40% do PIB Global.

Vários países estão se preparando para essas mudanças: os EUA acabaram de lançar dois novos programas, a ‘Arpa’ do clima e a ‘Arpa’ da saúde – desta vez, sem o ‘D’ do Departamento da Defesa. O Reino Unido anunciou £ 800 milhões para uma iniciativa parecida de P&D para o clima. E a União Europeia vai investir 53 bilhões de euros em P&D nos próximos 6 anos na área. Para muitos, isso ainda é pouco. 

Laboratório florestal

E o Brasil? Temos um laboratório próprio para essa revolução: a floresta amazônica – possivelmente a maior fonte de futuras descobertas de novas espécies e mapeamento de genomas no mundo.

A floresta em pé não é só o nosso maior seguro de vida em termos de sequestro de carbono, mas também é a maior base de dados para fomentar essa revolução global. Num mundo que gira em torno de dados, não é pouca coisa.

Em 2018, o Brasil investiu 1,15% do seu PIB em P&D – menos do que a Grécia. O governo atual vem cortando essa verba e a fuga de cérebros de cientistas brasileiros é só mais uma prova trágica disso. Não há desenvolvimento sem ciência e tecnologia – e não há vida sem a Amazônia. 

Basta lembrar o papel fundamental que a Embrapa teve no desenvolvimento da agricultura no país para saber que já fizemos uma versão disso antes. Já apostamos na ciência – e a nossa liderança global na agricultura é fruto disso.

Precisamos de um Arpa brasileiro com transparência e mecanismos de transferência de inteligência científica para aplicação comercial, dentro de um arcabouço de impacto para o país.

Hoje, mais do que nunca essa tarefa é possível: o Brasil está entre os 10 países que mais produzem unicórnios no mundo; também é um dos países que mais pode se beneficiar dos US$ 45 trilhões carimbados para investimento ESG. Espírito empreendedor e dinheiro não faltam.  

A notícia boa é que a verba que não vem do atual governo encontra-se na natureza.

Estima-se que entre US$ 50 bilhões e US$ 100 bilhões podem ser gerados só de crédito de carbono no Brasil. Só com isso, daria para bancar uma ‘Arpa brasileira’ – com foco em soluções escaláveis na interseção de biologia e tecnologia – por mais de uma década.

Muitas outras soluções de financiamento também existem. Assim, colocaremos o Brasil no mapa da inovação global, desenvolveremos o país e protegeremos o nosso maior bem: a natureza.

O nazismo e o bloco soviético foram enfrentados com soluções inovadoras da ciência. Essas soluções transformaram em potências globais os países que as patrocinaram. O Brasil pode se tornar a primeira sociedade florestal desenvolvida, uma potência verde global – e liderar a luta contra a maior ameaça já enfrentada pela humanidade: a emergência climática. 


* Julia Marisa Sekula é coautora de “Brasil: Paraíso Restaurável”, finalista do Prêmio Jabuti. Atualmente, cursa MBA na Universidade de Stanford, com foco em tecnologias verdes. Iniciou sua carreira no Banco Morgan Stanley, em Londres. Ao retornar ao Brasil, tornou-se sócia especializada em reestruturação de empresas na G5 Partners. Julia é economista e cientista política.

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