OPINIÃO: Apetite de risco todos conhecem. E o apetite de impacto?

Os investidores deveriam formalizar a intenção de gerar impacto, para garantir que a estrutura de capital e gestão sejam adequadas e que os resultados possam ser monitorados, escreve Guilherme Teixeira, da Sitawi.

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A intenção explícita de gerar impacto positivo por meio dos investimentos deixou de ser tema de pequenos círculos de investidores. A afirmação aparece de forma cada vez mais frequente em políticas de investimento e relatórios de fundos e instituições financeiras diversas.

Se antes almejar impacto era exclusividade de quem era considerado “investidor de impacto”, hoje isso vem se disseminando entre diferentes estratégias de investimento, classes de ativos e segmentos do setor financeiro.

No universo brasileiro de fundos, as gestoras “dedicadas” ganharam recentemente a companhia de grandes players com seus fundos de impacto. Prospectos e regulamentos versando sobre impacto eram anteriormente quase uma exclusividade de FIPs (Fundos de Investimento em Participações). Hoje há FIAs (ações), FIDCs (direitos creditórios), FIIs (imobiliários) e FIs-Infra também apresentando ambições de impacto.

Grandes proprietários de ativos, como family offices e fundos de pensão, também buscam definir quanto, onde e como querem gerar impacto. Bancos grandes e médios vêm definindo metas e aperfeiçoando a medição de seu impacto positivo por meio do crédito. 

 

Estão todos falando do mesmo impacto? Não. E nem deveríamos esperar isso.

Do apetite pelo risco ao apetite pelo impacto

Todo investidor tem uma estratégia para maximizar seus resultados, considerando os recursos captados e as escolhas de alocação do capital. Para executar as diferentes estratégias, os tomadores de decisão precisam definir antecipadamente quais riscos aceitam tomar e como pretendem gerenciá-los.

Esses riscos vão depender do perfil do investidor e de seus objetivos. Isso vale para indivíduos, instituições proprietárias de ativos e gestores de ativos, de qualquer segmento do setor financeiro. 

Ou seja, no famoso binômio risco-retorno, é preciso definir qual risco aceita-se tomar para atingir o retorno. No jargão financeiro, isso se chama “apetite de risco”.

Quando o investidor pretende gerar impacto positivo, o binômio deveria virar trinômio: precisamos definir  também o “apetite de impacto”.

O apetite de impacto como pilar estratégico 

O apetite de risco é tão importante no setor financeiro que as grandes convenções internacionais e partes importantes das regulações nacionais se concentram neste conceito. 

O Financial Stability Board, por exemplo, prega que as instituições financeiras formalizem uma Declaração de Apetite de Risco (RAS, na sigla em inglês), descrevendo riscos aos quais estão expostas, quais pretendem aceitar e como pretendem tratá-los.

No Brasil, o Banco Central tem normas específicas sobre este tema e, dependendo do apetite, a instituição financeira deve ter uma estrutura de capital e práticas gerenciais compatíveis. À alta liderança cabe acompanhar como a exposição ao risco na prática dialoga com o apetite e equilibrar isso na estratégia da instituição.

Ou seja, o apetite pelo risco é um instrumento central da estratégia de investidores. Seria natural então esperar que um investidor que deseja gerar impacto positivo também formalize uma “Declaração de Apetite de Impacto”, a fim de garantir que sua estrutura de capital e gestão sejam adequadas e que a alta liderança consiga monitorar se o impacto atingido condiz com o apetite.

Se na gestão de riscos temos indicadores específicos como o RAROC (risk-adjusted return on capital, ou retorno sobre o capital ajustado ao risco), por que não pensarmos em um IAROC (impact-adjusted return on capital, retorno sobre o capital ajustado ao impacto)? 

O paralelo pode ser útil até mesmo na oferta de produtos financeiros. O cardápio de produtos financeiros que pretendem gerar impacto positivo vem aumentando, e os investidores também querem um lugar na mesa.

Nem todos os produtos vão investir em soluções que zeram as emissões de gases de efeito estufa, por exemplo. E nem todos os investidores terão esse apetite.

Pode ser sempre um balanço entre retorno, risco e impacto. Pelas regras de “suitability” tradicionais, devem ser ofertados produtos compatíveis com o apetite de risco do investidor. Mas e o impacto? Já está na hora de criar um “Sustainability Suitability” ou um “ImpactAbility”.

É verdade que quantificar – e mesmo qualificar impacto – ainda parece desafiador. Mas essa agenda vem avançando. Para além dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, referências para qualificar impacto (como o Impact Management Project) e, em menor grau de desenvolvimento, quantificá-lo (como a Impact-Weighted Accounts Initiative) vêm ganhando massa crítica.

Seja você investidor individual, profissional ou instituição financeira, cabe a reflexão: qual é o seu apetite de impacto?

*Guilherme Teixeira é head de consultoria ESG para instituições financeiras e fundos da Sitawi.

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