OPINIÃO: A equação do crédito justo

Fernando Ribeiro, CEO da Kobold, escreve que a combinação de tecnologia e uma nova forma de olhar para as relações entre as empresas pode subverter a lógica do acesso a capital

 

Ao longo dos tempos, o acesso a capital segue uma lógica extrativista. Um jogo de forças que até produz frutos, mas que, sob outra lógica, teria potencial para gerar distribuição de riqueza. Quem disse que um pequeno fornecedor de cacau ou um comerciante da comunidade de Paraisópolis não pode obter recursos mais baratos para financiar seus negócios se eles fazem parte de uma teia muito maior? E se reduzirmos o risco só mudando a forma de olhar para esses agentes?

Vivemos um momento sem precedentes na história: a maior parte de todos os dados da humanidade foi criada nos últimos anos. Temos Big Data, Inteligência Artificial, Machine learning. Trilhões de gigabytes de dados trafegando por aí. A tecnologia é, indiscutivelmente, uma das forças que vão ajudar a remodelar o futuro da indústria do crédito. Informação é grande mitigadora de riscos.

Mas, sozinha, a tecnologia não será capaz de subverter o status quo. Falta um ingrediente nessa equação para o mercado avançar de forma equilibrada, com ganhos para todas as pontas: uma nova forma de olhar para as relações. Crédito é sobre confiança nas relações. No mundo corporativo isso é ainda mais verdadeiro. O mercado sempre enxergou os negócios de forma isolada, mas nunca o ecossistema todo. Esquecemos que, para funcionar em harmonia, tudo tem que estar integrado.

O chamado capitalismo de stakeholder, ou de todas as partes interessadas, prega que nenhuma empresa é uma ilha. Ela tem mais sucesso quando todo seu ecossistema prospera junto, em um modelo que se retroalimenta: sustentável, equilibrado, justo. E nada melhor para a sustentabilidade de uma grande companhia do que uma cadeia saudável de fornecedores, parceiros, clientes e colaboradores, com acesso a capital para seguir crescendo e gerando riquezas de forma mais distribuída. 

Nesse novo modelo, a grande empresa tem dois papeis. Primeiro, ela é a principal geradora de informações, que quando bem observadas são instrumentos poderosos de mitigação de riscos. Segundo, e não menos importante, ela passa a ser o canal para que esses recursos possam escoar para a sua rede (parceiros, clientes, fornecedores ou colaboradores), resolvendo o desafio da capilaridade.

O mercado de capitais entra aqui como a ponta financeira que falta para completar essa estrutura. No Brasil, cerca de 25% do crédito tomado por empresas vêm do mercado de capitais. É um número baixo se comparado ao aos EUA, por exemplo, onde o mesmo cálculo chega a 70%. Sabendo usar, o mercado de capitais pode ser o caminho mais eficiente para fazer os recursos chegarem até a ponta final.

Se um pequeno empresário está cumprindo o que propõe em suas transações com uma grande empresa, ele não pode ser penalizado apenas pelo seu tamanho. No crédito deveria valer o princípio da impessoalidade, criando igualdade de condições.

Uma empresa pequena poderia ser avaliada tão bem ou até melhor que uma grande em termos de risco, embora as estruturas convencionais nunca tenham conseguido enxergar assim – por falta de informações ou de uma visão mais inovadora mesmo.


É preciso ir além da superfície para oferecer um crédito verdadeiramente justo. Só vamos parar de ver apenas o rótulo quando o risco for calculado a partir da transação em sua essência. A tecnologia já permite que essa análise de comportamento seja feita, capturando, em tempo real, uma série de evidências ao longo da vida de uma transação.

Na venda de uma mercadoria daquele fornecedor de cacau para uma grande indústria de alimentos, por exemplo, é possível conhecer toda a jornada desse produto desde que ele saiu da fazenda até chegar na fábrica. E ainda ir além: do chocolate que segue para o varejo da grande rede de supermercado em São Paulo ou da pequena mercearia no sertão de Alagoas até chegar às mãos do consumidor que adquire o produto pagando no cartão de crédito.

Para precificar o risco de maneira justa, é necessário observar o comportamento em cada um dos estágios dessa jornada. Alguns podem dizer que o custo de observância é caro. Mas isso não é mais verdadeiro. A tecnologia já permite olhar milhares de comportamentos no nível mais granular, trazendo um ganho de eficiência surpreendente.

O crédito é caro porque é ineficiente. Ao se reduzir essas ineficiências, é possível descentralizar o acesso a crédito. Crédito empoçado nos grandes gera aridez para o sistema. Crédito bem distribuído produz abundância.  

Esse casamento de tecnologia com uma nova forma de olhar é um instrumento poderoso de transformação, com um ganho de eficiência enorme para um sistema com um todo. Em uma analogia, é como substituir uma mangueira, com perdas de água em vários pontos do percurso, por um encanamento que faz os recursos escoarem da maneira mais assertiva até a ponta final.

Mas uma infraestrutura melhor de nada adianta se os ganhos de eficiência não forem capturados por todos os elos da cadeia. E isso não significa abrir mão do lucro. Trata-se de criar valor para a sociedade como um todo, não apenas para a empresa e seus acionistas. É uma transformação e tanto em uma indústria que sempre foi guiada por um pensamento de curto prazo.

*Fernando Ribeiro é fundador e CEO da Kobold