Olimpíada de inverno: vitrine verde da China ou greenwashing?

Com ônibus movido a hidrogênio, China promete evento neutro em emissões – mas o ceticismo persiste

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A pira olímpica dos Jogos de Inverno de Pequim será apagada no final desta semana sem ter emitido nenhum grama de CO2: o que queima é hidrogênio verde.

A chama que simboliza a Olimpíada é abastecida por uma das maiores usinas de hidrogênio verde do mundo.

Instalada no resort de Zhangjiakou, onde acontecem algumas das provas de neve dos jogos, a planta utiliza energia solar para quebrar as moléculas de água e separar o hidrogênio do oxigênio.

Estima-se que a Olimpíada seja responsável por despejar o equivalente a 1,3 milhão de toneladas de CO2 na atmosfera. Diante dos 11 bilhões de toneladas emitidas anualmente pela China, é quase nada – mas as autoridades do país estão determinadas a usar os Jogos como exemplo de seu comprometimento com a descarbonização.

 

Parte da “economia” em emissões vem da adaptação de sete arenas e ginásios construídos para os jogos de 2008 (Pequim é a única cidade a sediar tanto a Olimpíada de verão como a de inverno).

Cinco estruturas são temporárias e serão desmontadas quando acabar a competição. Outras 13, erguidas para o evento, receberam a certificação mais estrita para edifícios verdes.

A política de tolerância zero com o coronavírus também ajudou: surtos da variante ômicron detectados em janeiro significaram arquibancadas vazias. A proibição de torcedores evitou 500 mil toneladas de CO2.

Os locais de competição são abastecidos de energia renovável, fornecida em parte por uma nova rede que garante que 10% da eletricidade consumida na capital seja verde.

As emissões inevitáveis e residuais serão compensadas com o plantio de árvores numa área equivalente a 800 quilômetros quadrados.

E, ainda assim, persiste o ceticismo a respeito da pegada ambiental dos Jogos.

Neve artificial

“Obviamente estamos falando de esportes de inverno e temos de admitir que algumas pessoas ficam perturbadas com o que veem na TV”, disse em entrevista recente Marie Sallois, diretora de sustentabilidade do Comitê Olímpico Internacional.

A perturbação a que se refere Sallois é a neve. O tapete branco em que deslizam os esquiadores é inteiramente artificial.

Os organizadores afirmam ter usado 185 milhões de litros d’água, cerca de 74 piscinas olímpicas, para produzir a neve. Mas observadores dizem que o número provavelmente é muito maior.

Oficialmente, não haverá impacto para a população das regiões de Zhangjiakou e Yanqing, onde acontecem as provas de montanha.

Pequim não é a primeira cidade a depender de neve fabricada para garantir a competição. O mesmo aconteceu nas duas edições anteriores dos Jogos, em Sochi (Rússia) e Pyeongchang (Coreia do Sul).

E as perspectivas não são mais animadoras para o futuro. “Infelizmente, os esportes de inverno vão depender cada vez mais de neve artificial, por causa da mudança climática”, afirmou Sallois.

Verde ou cinza?

O uso de 800 ônibus movidos a hidrogênio, promovido com insistência pelos organizadores, também está cercado de incertezas ­– pelo menos em relação às supostas credenciais verdes.

O eletrolisador que produz o hidrogênio verde (H2V) em Zhangjiakou, uma joint-venture da Shell com uma companhia local, é um dos maiores do mundo. Mas sua capacidade é suficiente para abastecer somente cerca de metade do consumo esperado no evento.

O restante será entregue pela petroquímica estatal Sinopec. A companhia está montando uma rede de distribuição de hidrogênio com mais de 1.000 pontos de abastecimento de veículos.

Nessas bombas, o hidrogênio por enquanto não é verde, pelo contrário. A Sinopec produz o vetor energético a partir de combustíveis fósseis.

Uma vez nos veículos, o hidrogênio de fato é limpo. O único subproduto do funcionamento do motor é água. O problema é anterior.

O método mais usado para obter hidrogênio do gás natural – o chamado hidrogênio cinza – gera de três a seis vezes mais emissões que a queima da gasolina.

Somente 1% do hidrogênio produzido no país é verde. O chamado hidrogênio negro – produzido com carvão – responde por quase dois terços da produção do país. O restante é cinza.

Enquanto o H2V não atinge volumes relevantes, as autoridades do país seguem adiante com o plano de criar uma infraestrutura nacional para sustentar a nascente economia do H2.

Inspiradas pelo sucesso da Tesla, montadoras e governos ocidentais decidiram concentrar esforços nas baterias e na rede de recarga.

Mas o governo da China, que tem um dos maiores mercados de carros elétricos do mundo, ainda não parece ter desistido do hidrogênio no transporte.

Até o fim do ano passado, os governos de 16 províncias haviam recebido autorização para fazer testes com carros movidos a célula de combustível.

O país espera ter 1 milhão desses modelos nas ruas até 2030 – só não se sabe qual a cor do hidrogênio que estará nos tanques.

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