O recado de Persio Arida à Faria Lima: não há cisão entre economia e cidadania

Sobre apoio da elite econômica ao governo, um dos pais do Plano Real dispara: "Não existe a separação do sujeito que é o ‘trader’ do cidadão. O governo Bolsonaro é uma ameaça à democracia"

 

Um trecho de pouco mais de quatro minutos da participação do economista Persio Arida no programa Manhattan Connection, da TV Cultura, no último dia 24, vem circulando com força pelo Whatsapp por colocar o dedo na ferida do mainstream econômico do país.

Ao ser perguntado sobre os motivos para que a elite econômica siga apoiando o governo de Jair Bolsonaro — ou não se posicione contrariamente de forma mais enérgica — depois que ficou claro o engodo na pauta liberal, Arida não tergiversou.

Para ele, são duas as razões: uma noção enganosa de que a pauta econômica e a cidadania não se cruzam e medo da mão pesada do Estado

“Tem um elemento a explicar o comportamento de parte da elite que é uma certa ingenuidade de achar o seguinte: no fundo o que importa é que as reformas econômicas passem, se houver qualquer avanço nesse sentido, aplausos. O resto se vê depois. É como se tivesse uma cisão entre a visão econômica e a visão da cidadania. É uma cisão falsa”, disse. 

Para ele, uma parte da elite, que qualificou como “Faria Lima”, mantém o apoio ao governo na expectativa de algum avanço na pauta econômica, como a privatização da Eletrobras ou a Reforma Tributária.

“É um engano. Para mim não existe a separação do sujeito que é o ‘trader’ do cidadão. Ele é também um cidadão. Aliás, eu diria mais, ele é primordialmente um cidadão. O governo Bolsonaro é uma ameaça à democracia. Uns não querem ver, não querem se posicionar por medo, e outros por uma visão de que o que importa são as reformas econômicas. Quando no fundo o valor primeiro a ser preservado é o da democracia.” 

Um dos mais respeitados economistas do país, um dos formuladores do Plano Real, com trânsito na academia e no setor privado, Arida acha que, de forma mais abrangente, o empresariado do país é acometido pelo medo.

“O Estado no Brasil é extraordinariamente poderoso”, disse ele, enumerando exemplos na sequência: “Tem o medo da retaliação, o medo da ação do gabinete do ódio nas redes sociais. Tem o medo de uma intervenção na Receita Federal que leve a autos de infração gigantescos; tem medo de intervenção via agências regulatórias que termine com as licenças de várias concessões vigentes; tem o medo de não ter acesso ao crédito nos bancos oficiais.” 

Ao Reset, Arida completou o raciocínio: “Vale enfatizar que o Estado é poderoso no mundo todo. A diferença é se o Estado segue o princípio da impessoalidade. Mas uma das marcas do nosso subdesenvolvimento é que a impessoalidade é transgredida de várias formas, sem a violação da lei.”

E exemplificou: “Se um banco público nega crédito para um inimigo do regime, sempre pode invocar que as garantias não eram suficientes.”

Durante o programa, Arida também direcionou críticas ao ministro da Economia, Paulo Guedes, um sabido desafeto. O plano Bolsonaro-Guedes, disse, é um engodo para quem acreditava que este seria um governo liberal na economia.

Para ele, Bolsonaro nunca escondeu suas ideias intervencionistas e fez um “casamento de conveniência com Guedes”.

“Quando um economista é alçado a um cargo de relevo, de poder, ele não está lá só para implementar uma alocação mais produtiva de recursos. Está lá para servir a um projeto de poder. Ele pode se iludir em relação a isso ou até apoiar o projeto de poder. Mas é sempre um projeto de poder.” 

Aqui o vídeo de quatro minutos e aqui o programa na íntegra.