O que os bancos estão fazendo pela Amazônia?

Passado um ano do anúncio do plano o desenvolvimento sustentável da região, Bradesco, Itaú e Santander não despejaram bilhões em financiamento e nem criaram amplas políticas de exclusão — mas o trabalho não estacionou

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Em julho do ano passado, Bradesco, Itaú e Santander anunciaram um plano conjunto para apoiar o desenvolvimento sustentável da Amazônia.  

Passado pouco mais de um ano, o que aconteceu? As ideias saíram do papel? 

Quem esperava que os bancos despejassem bilhões em financiamento na região ou criassem políticas estritas de exclusão, negando crédito a setores inteiros, certamente se frustrou. 

O trabalho tampouco estacionou, como pode sugerir o silêncio sobre a agenda. Tem caminhado na linha de entender as peculiaridades da região e, lentamente, criar políticas estruturantes. 

Com uma pauta inicial de dez itens, os três maiores bancos privados acabaram elegendo três prioridades, duas voltadas a tentar coibir os principais problemas da região — desmatamento na cadeia da pecuária e regularização fundiária — e outra, voltada para uma agenda mais positiva, de financiamento de culturas sustentáveis e desenvolvimento da bioeconomia da região. 

“No curto prazo, nosso plano às vezes é até frustrante. Queremos que sejam iniciativas que mudem a forma de atuação da região e que permitam o crescimento sustentável a longo prazo”, diz Marcelo Pasquini, head de sustentabilidade corporativa do Bradesco. 

Pasquini, Caroline Learth, head de sustentabilidade do Santander, e Luciana Nicola, superintendente de sustentabilidade do Itaú Unibanco, que estão à frente da implementação do plano nos três bancos e se reúnem todas as semanas para discutir as medidas, fizeram um balanço dos quatro itens prioritários:

Cadeia da pecuária

Os primeiros passos, diz Nicola, foram avaliar os compromissos de reduzir o desmatamento já existentes no setor, fazer um engajamento com os três maiores frigoríficos — JBS, Marfrig e Minerva — e pesquisar as tecnologias de rastreio de cadeias já existentes. 

Daí saíram duas medidas concretas: um documento com recomendações de boas práticas para toda a cadeia da carne, criado em conjunto com as áreas de risco dos bancos; e uma lista de indicadores de performance (KPIs) de curto, médio e longo prazos para os bancos acompanharem a evolução das suas próprias carteiras de crédito no setor. 

A recomendação é que sejam implementadas ferramentas tecnológicas e assumidos compromissos públicos de rastreamento de fornecedores diretos e indiretos de gado até 2025. Os bancos querem ainda que sejam implementados planos de ação que levem à redução estrutural do desmatamento ilegal — que deve ser coibido de forma absoluta a partir desta data. 

O plano já foi apresentado aos grandes frigoríficos e agora está sendo levado a todos os clientes do setor pecuário, do atacado e do varejo. 

Já os KPIs vão medir exatamente como está a adesão dos clientes em carteira às recomendações feitas. “Teremos uma primeira medição em outubro e outra em dezembro para, a partir daí, definir os próximos passos”, diz Nicola, do Itaú. 

Embora sejam recomendações, a ideia é que a adesão ou não acabe determinando a política de crédito dos bancos. 

“Sabemos que construir um plano de ação exige estratégia, dinheiro, tecnologia. E queremos estar atuantes para ajudar a financiar essas soluções. A ideia não é ser super restritivo, é estimular o setor porque entendemos que, se a gente renegar o setor, se a gente fechar a porta, a gente vai ter problema de legalidade muito maior, que não queremos ter”, diz Learth, do Santander.

Um dos próximos passos é trazer as redes de varejo de alimentos para a conversa, para integrar ao plano a ponta que faz o elo com o consumidor final.

Também há conversas com a Abiec, a associação das indústrias exportadoras de carne, para estudar como os bancos poderiam financiar o acesso a ferramentas de rastreio para frigoríficos menores, uma vez que os três maiores representam apenas 35% do mercado.

“Existem excelentes tecnologias de rastreio disponíveis. O grande ponto é que para os médios e pequenos existe uma limitação por custo”, diz Nicola.

Financiamento a culturas sustentáveis e bioeconomia

Os bancos admitem que essa tem sido uma das frentes mais desafiadoras. 

“A ideia era nos aproximarmos da produção local, aprender o que é financiar um produtor de cacau, de castanha que tem uma pequena propriedade no meio da floresta. Com muita humildade, porque a gente nunca tocou essas pessoas. De fato, não sabíamos como lidar”, diz Learth. 

No começo do ano, os três bancos anunciaram uma meta de destinar R$ 100 milhões em crédito para cooperativas e agroindústrias — uma gota no oceano que é a carteira de crédito das instituições somada, e que está prestes a ser batida, via empréstimos individuais e uma operação sindicalizada. 

Os próximos passos serão discutidos, com possível ampliação dos volumes. 

Os três bancos têm estruturas comerciais bastante díspares na Amazônia e, cada um dentro da sua realidade, tem buscado ampliar a atuação na ponta.

Dos três, o Bradesco é o de maior presença na região, com uma rede de mais de 360 agências e correspondentes bancários que cobrem 100% dos 772 municípios da Amazônia Legal. Marcelo Pasquini diz que o banco está treinando o pessoal da rede para conseguir propagar os cases de financiamento das cadeias de produtos da floresta.

No Santander, as 166 agências na Amazônia Legal foram reunidas numa nova divisão comercial para aumentar o direcionamento da atuação. “Estamos recrutando pessoas da região, abrindo agências e interiorizando”, diz Learth.

De perfil mais urbano, o Itaú tem 165 agências na região e está buscando outro caminho. “Fizemos uma parceria com consultoria específica, a Palladium, para acelerar pipeline de projetos. Sentimos necessidade por termos menos capilaridade que Bradesco e Santander”, diz Nicola. 

Na linha de desenvolvimento da bioeconomia — o que inclui o desbravamento de mercado doméstico e global para os produtos da floresta –, os bancos também estão tateando as possibilidades. 

Encomendaram um estudo a Salo Coslovsky, professor de desenvolvimento econômico da Universidade de Nova York e um estudioso das cadeias de produtos na Amazônia. 

Até o fim do ano, uma equipe coordenada pelo pesquisador irá identificar até três produtos com uma boa capacidade instalada na Amazônia para mapear os gargalos que dificultam seu acesso aos mercados internacionais e fazer recomendações práticas de como superá-los.  

“Será um estudo conclusivo que vai dar um norte pra gente sobre como podemos atuar”, diz Nicola.

Paralelamente, diz, os bancos decidiram doar recursos para a instalação em comunidades amazônicas de biofábricas da cadeia de cacau e cupuaçu dentro da iniciativa Amazônia 4.0, do climatologista Carlos Nobre. “A ideia é aprendermos práticas, na ponta, que depois podemos trazer como aprendizado quando o trabalho do Salo estiver concluído.”

Regularização fundiária

Esse é o quesito em que os bancos estão de mãos mais amarradas porque, a rigor, trata-se de políticas e decisões de governo.

No fim do ano passado, os CEOs dos três bancos chegaram a comemorar a perspectiva de que em breve governo e bancos chegariam a um plano para regularização de terras de pequenos produtores da Amazônia, mas as coisas mudaram de rumo.

Segundo Nicola, houve um pedido de apoio financeiro aos bancos para criar a ferramenta de análise dinamizada do Cadastro Ambiental Rural (CAR), mas posteriormente a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, retrocedeu e disse ter conseguido recursos do Ministério da Economia. 

(O CAR é um cadastro que consolida as informações das propriedades rurais para permitir o monitoramento e o combate ao desmatamento ilegal. Um dos gargalos da aplicação prática do Código Florestal brasileiro é a lentidão para análise e validação do CAR das propriedades, uma vez que o processo era todo manual.)

A nova tecnologia de análise dinamizada foi lançada pelo governo no primeiro semestre e é capaz de examinar até 66 mil cadastros por dia, identificando aquelas propriedades sem irregularidade ou com inconsistências simples, além de checar dados territoriais com imagens de satélite. O estado do Amapá foi o primeiro a implementar a ferramenta e, até o fim do ano, outros 10 estados também deverão estar utilizando o sistema.

“Essa validação do CAR abre portas para abastecer o Plano Amazônia de outras coisas. Dela saem mercados para ativos florestais para quem tem excedentes de áreas preservadas, saem financiamentos para reflorestamento, tudo relacionado à regularização”, diz Learth.

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