O plano por trás do ‘dream team’ que assume a Vibra Energia

Conselho de notáveis vai ditar pelos próximos dois anos os rumos estratégicos da antiga BR Distribuidora, agora livre das amarras estatais

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As gestoras Dynamo, Verde e Bogari e o investidor Ronaldo Cezar Coelho conseguiram eleger ontem seu ‘dream team’ de conselheiros para ditar os rumos da Vibra Energia, agora uma ‘true corporation’ livre das amarras estatais.

Liderada por Sergio Rial na posição de chairman, a chapa trouxe também Walter Schalka, CEO da Suzano, Nildemar Secches, ex-CEO da Perdigão, Fabio Schvartsman, ex-Vale e Klabin, e duas mulheres com grande conhecimento em sustentabilidade: Ana Toni, presidente do Instituto Clima e Sociedade (ICS), e Clarissa Lins, consultora em estratégia e sustentabilidade e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis.

Completam as nove cadeiras três conselheiros do atual mandato que foram reconduzidos – Carlos Augusto Leone Piani, Mateus Affonso Bandeira e Pedro Santos Ripper.

Na posição de investidoras de referência da antiga BR Distribuidora, as três gestoras somam cerca de 10% das ações da empresa e a Dynamo representa ainda Cezar Coelho, o maior acionista da Vibra, com quase 10% dos papéis por meio do fundo Samambaia.

 

Compete ao conselho a indicação da chapa. Mas o grupo de investidores tomou a dianteira no processo com um plano em mente: criar uma governança robusta para a passagem de estatal em empresa de capital pulverizado, transformar a Vibra num paradigma de transição energética entre companhias de combustíveis fósseis e, de quebra, criar um case de boas práticas ESG.

“Pode dar errado, mas, se em cinco anos a Vibra tiver bons resultados financeiros, a máquina funcionando e a transição energética bem executada, estará tudo endereçado para se transformar num grande case. Não existe nada assim no mercado”, diz um investidor que participou da costura.

“A empresa foi de estatal a corporation sem escalas, então, há um problema de estratégia; e estratégia se define no conselho. O da Vibra era muito disfuncional. O novo conselho tem condições de levar a empresa para onde ela precisa ir”, completa.

De largada, a ideia é que a Vibra se transforme numa grande distribuidora de energia limpa, incluídas aí a elétrica de fontes renováveis, o etanol e o hidrogênio verde, direcionamento que vem sendo indicado desde o ‘investor day’ da companhia, em setembro.

Mas, agora definitivamente privatizada, a fronteira de negócios tornou-se ilimitada. Em outras palavras, nada impede que a geração entre mais forte no modelo, por exemplo.

Nesse sentido, o modelo da Vibra pode passar a ter mais pontos de contato com o da Raízen, do grupo Cosan, forte em biocombustíveis e distribuição, e outra empresa investida pela Dynamo. A leitura é que tem espaço para todo mundo nesse mercado, mas que, caso a Vibra alcance o patamar de vanguarda pretendido, os outros grandes do setor terão que se mexer mais rápido.

Mosaico

Para a execução da estratégia, o CEO Wilson Ferreira, veterano do setor elétrico que comandou a CPFL e a Eletrobrás, é tido como figura importante. Mas os investidores consideraram que era necessário apoiá-lo, dados a ambição e os desafios do projeto.

Se todo mundo fala em transição energética, pouca gente tem experiência em planejar e executar, em especial no Brasil. Ficou claro que era preciso trazer executivos com forte experiência e também compor um mosaico de capacidades. 

Nildemar Secches, Fabio Schvartsman e Clarissa Lins trazem conhecimento na área de distribuição de combustíveis. Secches foi por anos do conselho do Grupo Ultra, dono da rede de postos Ipiranga. Antes de ser CEO de Vale e Klabin, Schvartsman teve uma carreira de 22 anos no Ultra, embora na área financeira. Já Clarissa Lins conhece bem o setor de óleo e gás e foi conselheira da Petrobras.

“Walter Schalka é um dos executivos brasileiros mais bem vistos lá fora em ESG”, diz um investidor.

Depois de conduzir uma bem-sucedida virada como CEO do Santander Brasil, posto que acaba de deixar, Rial tinha disponibilidade para liderar o conselho. Pesaram ainda o fato de estar conectado ao tema da transição energética e defender a diversidade e o equilíbrio identitário no ambiente corporativo.

Clarissa Lins e Ana Toni, trazem diversidade de gênero ao grupo e aportam o conhecimento em sustentabilidade e questões climáticas, sendo que Toni traz ainda um forte olhar para aspectos sociais, não só de diversidade, mas também de relacionamento com as comunidades ao redor.

Processo conturbado

O ambicioso projeto de transição desenhado acabou ofuscado nos últimos meses pela polêmica em torno da indicação de Schvartsman para compor a chapa.

No entendimento de alguns investidores, Previ e JGP entre eles, não era recomendável a presença do ex-CEO da Vale, que comandava a mineradora na época do rompimento da barragem de Brumadinho e que ainda não foi julgado criminalmente ou pela CVM. (Ontem a SEC denunciou a Vale à Justiça dos Estados Unidos por fraude no caso.

Na assembleia de ontem, a Previ e a Bradesco Asset (o Bradesco, como a Previ, ainda era controlador da Vale na época do acidente) se abstiveram de votar na chapa, enquanto a JGP votou contra a eleição. A Previ indicou um membro para o conselho fiscal que foi apoiado pelos investidores de referência da companhia, em movimento semelhante ao ocorrido na BRF há algumas semanas.

Havia uma grande disputa pelas nove vagas nos bastidores – e a polêmica em torno do nome de Schvartsman acabou servindo a esses interesses – uma vez que os conselheiros da Vibra têm uma remuneração muito acima da de mercado. Somando salários, pacote de opções e eventuais participações em outros comitês, a bolada pode superar os R$ 2 milhões por ano.

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