O laboratório em que a Braskem pensa o futuro das embalagens

Batizado de Cazoolo, centro de inovação aberta da petroquímica tem a missão de pensar na economia circular desde a concepção dos produtos

Impressoras 3D no Cazoolo, o laboratório de inovação de embalagens da Braskem
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Embalagens plásticas que param em pé, usadas para produtos como molho de tomate e cereais, fazem sucesso entre os consumidores pela praticidade e na indústria de alimentos pela boa relação entre custo e versatilidade

Elas têm apenas um problema: são fabricadas com uma mistura de plásticos, o que compromete o sucesso de sua reciclagem. O material obtido depois do processamento tem baixa qualidade e menor valor comercial.

Mas existe uma exceção entre essas embalagens nas prateleiras dos supermercados. A linha de grãos e leguminosas Ritto, da Mãe Terra, marca de produtos orgânicos da Unilever, usa um desses saquinhos feito com um só material (polietileno) e sua reciclagem resulta em uma resina com mais possibilidades de reaproveitamento. 

A ideia foi gestada em conjunto pela gigante global dos bens de consumo e os técnicos do Cazoolo, um laboratório de inovação em embalagens criado pela petroquímica Braskem. 

 

Localizado na cidade de São Paulo, numa antiga indústria metalúrgica dos anos 1940 que hoje mais lembra um coworking moderninho, o Cazoolo é uma das principais empreitadas da companhia em um dos aspectos essenciais da sustentabilidade: a economia circular.

Dos R$ 130 milhões que a Braskem vai investir em projetos ligados a reciclagem e reúso, R$ 20 milhões foram destinados exclusivamente ao laboratório, primeiro do país a se dedicar exclusivamente à circularidade. (O restante será destinado a duas plantas de reciclagem no interior paulista, uma das quais foi inaugurada ano passado.)

“Não existia no Brasil um espaço de fomento à inovação em embalagem, que lidasse com suas complexidades e seus desafios”, afirma Yuri Tomina, diretor do laboratório.

Ele menciona o hub Pulse, da Raízen, em Piracicaba, como um exemplo de iniciativa com foco específico. Se faz sentido se aprofundar em pesquisas de etanol, por que não fazer o mesmo com embalagens, um setor que movimenta cerca de R$ 100 bilhões por ano?

O esforço da Cazoolo reflete um movimento mundial em busca de novos materiais e soluções tecnológicas para reduzir o uso de plásticos virgens. Embora poucos acreditem que esse derivado do petróleo vá desaparecer, o cerco está se fechando.

A Nestlé, por exemplo, começou a testar este ano na Austrália a substituição das tradicionais embalagens plásticas do chocolate KitKat por versões em papel reciclado. Já a Danone está sendo processada por grupos ambientalistas na França por não ter conseguido reduzir significativamente sua pegada de plástico, como havia prometido.

Outra iniciativa recente foi o anúncio da proibição da venda de pratos, talheres e outros utensílios plásticos de uso único, como copos e tigelas, no Reino Unido. A partir de outubro, esses itens não estarão mais disponíveis para os consumidores não apenas em serviços de delivery, lanchonetes e restaurantes, mas também nos varejistas.

Só na Inglaterra, de acordo com estimativas do governo, apenas 10% dos 2,7 bilhões de talheres e dos 720 milhões de pratos descartáveis usados anualmente são reciclados.

A Braskem estabeleceu metas ambientais ousadas: baixar em 15% suas emissões diretas de gases de efeito estufa até 2030 e ser carbono neutra em 2050, também considerando apenas suas operações diretas, os chamados escopos 1 e 2.

Entre outras iniciativas, isso vai envolver a produção de 300 mil toneladas de resinas termoplásticas (polímeros que, quando aquecidos, são moldados para virar produtos plásticos) e químicos com conteúdo reciclado até 2025. A capacidade de produção anual desses dois produtos é de 20 milhões de toneladas.

Em 2030, a empresa quer eliminar a destinação de 1,5 milhão de toneladas anuais de resíduos plásticos para incineração, aterros ou descarte.

Agilidade

Com 450m² de área, o Cazoolo conta com salas modulares, prateleiras que simulam gôndolas de supermercado e um miniauditório para apresentações de projetos.

Mas a menina dos olhos do espaço é a oficina de prototipagem (foto). São seis impressoras 3D de última geração, equipamentos de corte laser, solda e termoformagem (tipo de moldagem do plástico a quente). “A ideia é sair de forma muito ágil de uma ideia, do briefing, até o primeiro protótipo”, diz Tomina.

Um dado em particular foi decisivo para a criação do Cazoolo: 80% do impacto ambiental de um produto é definido no momento da criação, segundo um estudo da Universidade Técnica da Dinamarca.

Em outras palavras, a circularidade precisa ser considerada desde a concepção dos produtos – e das embalagens, o que interessa especificamente ao Cazoolo. O conceito recebe o nome de design for environment (literalmente projetar pensando no meio ambiente).

O laboratório é um centro de inovação aberta, disponibilizado sem custo para toda a cadeia de embalagens plásticas – indústria, escritórios de design, consultorias de inovação, startups e universidades. A contrapartida é que, caso o projeto seja viabilizado, inclua um parceiro da Braskem, seja um cliente dos seus produtos ou uma startup que faça parte de um de seus programas.

Os stand-up pouches usados pela Mãe Terra são um exemplo didático de como opera o centro de inovação. A ideia de produzi-los com um único tipo de plástico foi discutida com a fabricante de embalagens Antilhas, e o passo seguinte foi a prototipagem.

Depois de produzidos nas máquinas do Cazoolo, esses produtos-piloto foram levados a um centro tecnológico da Braskem em Triunfo, no interior de São Paulo. Lá, os saquinhos foram reciclados e, com as resinas obtidas, refeitos. O objetivo era verificar se essa versão pós-consumo manteria sua principal propriedade: parar em pé.

Vencida essa etapa técnica, o projeto foi além, diz Tomina. A Mãe Terra já tinha decidido usar a embalagem, mas seria importante criar um mecanismo para incentivar os consumidores a efetivamente reciclá-la. 

A resposta estava também na órbita da Braskem. “Encontramos no programa de aceleração a startup Molécula, que oferece um modelo de cashback”, afirma Tomina. “O consumidor retorna a embalagem em troca de pontos e descontos. Adotamos a ideia.”

Sem bala de prata

O projeto foi lançado em 2021 e, mesmo que seja um sucesso retumbante, terá um impacto imperceptível no problema global dos plásticos. Igualmente, ainda não existe no horizonte um material alternativo que aponte uma saída. Tomina diz que o Cazoolo atua dentro dos limites do possível. 

“Não adianta uma empresa chegar aqui querendo uma embalagem com o mesmo tempo de prateleira, a mesma qualidade de impressão e que seja também mais sustentável, barata e conveniente. Já passamos da utopia, temos que discutir prioridades.”

Uma das principais contribuições que o centro de inovação pode dar ao negócio da petroquímica é um aumento no uso de resinas recicladas. Para isso, a Braskem precisará de resíduos de qualidade, ou seja, embalagens que possam ser recicladas.

Isso significa outro desafio ainda mais complexo: fechar o ciclo posterior ao consumo. “Numa esteira de separação de cooperativa, não há tempo para identificar marcas que são ou não recicláveis”, diz Tomina. A separação é feita pelo tipo da embalagem.

“Só mudando toda a categoria poderemos comunicar para a estrutura de coleta e recuperação e, assim, ter volume para desenvolver aplicações com conteúdo reciclável.”

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