O caminho da soja: como a Amaggi se prepara para a era do rastreio total

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Com a pressão crescente de consumidores e a iminente passagem de uma lei da União Europeia que vai proibir a compra de certos produtos agrícolas associados ao desmatamento, a bola da vez no campo é a rastreabilidade.

Eis uma visão da Amaggi, uma das maiores comercializadoras de grãos do país, para o significado prático dessa palavra. Considere um sueco que comprou uma bandeja de sobrecoxas de frango num supermercado de Estocolmo.

Um QR code na embalagem aponta para a ficha completa da vida da ave. Registrado em blockchain, o documento inclui o nome do fabricante da ração à base de soja que alimentou o animal, de que porto brasileiro saiu o carregamento dos grãos usados e onde eles foram plantados.

Nada disso vai acontecer no ano que vem, nem provavelmente nos próximos cinco anos. Mas a tecnologia que permitirá entregar esse nível de detalhe está em desenvolvimento há mais de uma década na sede da Amaggi, em Cuiabá.

 

Em meados do ano passado, a companhia apresentou a versão 2.0 do Originar, um software proprietário que cruza imagens de satélite, cadastros rurais e listas de exclusão para determinar se a empresa deve ou não comprar soja de cada um de seus 6 mil produtores cadastrados.

O sistema é estratégico em duas dimensões, afirma Juliana de Lavor Lopes, diretora de ESG, Comunicação e Compliance da Amaggi. De um lado, a companhia precisa estar preparada para responder às perguntas dos clientes sobre a origem do que é embarcado nos portos brasileiros.

De outro, o software vai servir para estreitar o relacionamento com os produtores rurais, que terão novas oportunidades de negócios dos quais a empresa pode se beneficiar, de créditos de carbono a grãos com um carimbo de baixas emissões.

“Não é só mitigação de risco”, diz Lopes, mencionando técnicas agrícolas que fixem CO2 no solo. “Pensando como trading, imagine juntar esse grão com uma logística de baixo carbono. Poderemos entregar uma soja de menor impacto.”

Ajustando o foco

Quando a Amaggi começou a comprar imagens de satélite para monitorar impacto ambiental de suas atividades, há 15 anos, a resolução das fotos não era das melhores.

Mas o problema maior era outro. A companhia tinha um único retrato por ano do que seus fornecedores estavam fazendo na Amazônia e no Cerrado. O acompanhamento precisava ser mais ágil e mais granular.

O mundo mudou bastante desde então, e a Amaggi, também. Controlada pela família Maggi, do ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi, a empresa teve faturamento de R$ 38 bilhões no ano passado.

O grupo tem diversos negócios em torno da comercialização de algodão, milho e soja, como armazéns, terminais portuários e estações geradoras de energia.

Do seu principal produto, a soja, apenas 5% dos grãos são cultivados em terras da Amaggi. Os outros 95% são adquiridos de fornecedores espalhados por todo o país – mas com uma concentração de 41% no Cerrado e 39% na Amazônia.

Hoje, a empresa consegue ter uma visão quase em tempo real do que acontece nos 15 milhões de hectares cobertos pelas fazendas de seus fornecedores, uma área pouco menor que a soma de Portugal, Bélgica e Holanda.

Sobre as fotos tiradas do espaço, sobrepõem-se camadas de dados que indicam eventuais embargos do Ibama, terras indígenas ou denúncias registradas na Lista Suja do Trabalho Escravo. São informações atualizadas todos os dias.

Os compradores da empresa no campo têm de fazer a checagem obrigatoriamente nesse sistema antes de conseguir fechar contratos. Em casos de pendências, uma equipe de quatro pessoas da equipe de sustentabilidade ajuda nas verificações.

Lopes diz que menos de 10% das negociações passam por essas verificações, e na  maioria dos casos o negócio é concluído. Globalmente, a empresa afirma que 99% da soja comprada de produtores do Cerrado é livre de desmatamento. (Na Amazônia, o total é de 100% pois a empresa é signatária da moratória da soja, em vigor desde 2006.)

Se o percentual é tão pequeno, e com a possibilidade de oferecer essas garantias usando ferramentas de terceiros, por que a companhia passou dois anos e meio desenvolvendo uma nova versão de seu software?

Parte da explicação está nos compromissos públicos de descarbonização anunciados pela companhia. Um deles é a  promessa de neutralidade de emissões de CO2 em 2050, assumido perante a organização Science Based Targets initiative.

Localmente, a empresa se comprometeu a ter uma cadeia de fornecedores de grãos 100% monitorada e livre de desmatamento no Brasil inteiro até 2025 (isso já acontece nas suas principais áreas produtivas, a Amazônia e o Cerrado.

E o movimento também é uma antecipação a demandas com recortes mais específicos que devem se tornar frequentes no futuro. Hoje, segundo Lopes, ainda são poucos os clientes que fazem esse tipo de exigência, mas a tendência é clara.

Ela descreve uma situação hipotética: uma encomenda com a exigência de que os grãos  venham de áreas onde não tenha havido nenhum desmatamento depois de 2017.

Fazendo o cruzamento das fazendas e dos armazéns para onde foi enviada a soja, a Amaggi seria capaz de garantir um carregamento com pelo menos 65% de grãos com essas características.

Em tese, a companhia conseguiria ser ainda mais precisa, segregando completamente a produção de uma área (em geral, grãos de vários produtores diferentes vão para um mesmo silo).

Trata-se de uma operação complexa, que custaria caro, mas seria possível com a tecnologia em uso hoje. “Estamos em discussão, eles próprios [os clientes] querem entender como a gente faria isso.”

(A empresa já tem uma estrutura semelhante, mas “binária”, para diferenciar a soja tradicional da transgênica.)

Sentido inverso

Na opinião de Jean-François Timmers, especialista em advocacy do WWF-Brasil para desmatamento, uma das funções mais importantes desses sistemas é fornecer informações para a gestão do negócio.

O risco de comprar grãos de áreas desmatadas seria pequeno. O maior interesse seria outro. “Essas empresas precisam de informações sobre sua base de fornecimento, que flutua de ano para ano. Esse monitoramento e controle são a alma do negócio para uma trading”, diz Timmers

Mas Lopes aponta possíveis novos negócios que nem sequer existem hoje. 

De todas as terras sob o olhar vigilante do software Originar, 5,9 milhões de hectares correspondiam a vegetação nativa em 2021 (um aumento de 19% em relação ao ano anterior).

A companhia enxerga uma possibilidade de agregar valor à commodity ajudando os agricultores a se aproveitar do mercado de créditos de carbono, por exemplo.

O frigorífico Minerva anunciou uma iniciativa nesse sentido com seus parceiros pecuaristas, em associação com a Biofílica Ambipar.

Embora ainda não exista uma metodologia aprovada, já se sabe que certas técnicas têm enorme potencial de fixar CO2 no solo.

Outra possibilidade de ganho econômico que pode ser destravado com as informações acumuladas pela empresa são as cotas de reserva ambiental.

O Código Florestal brasileiro entrou em vigor em 2012 e criou a exigência de que toda propriedade rural tenha uma porcentagem de cobertura de vegetação natural (o número depende do bioma).

Caso uma fazenda esteja devendo, ela poderia fazer uma compensação – um mecanismo semelhante ao do offsetting de carbono – comprando essas cotas de outra propriedade.

O sistema ainda não funciona em âmbito nacional, mas a expectativa é que os cadastros rurais que formarão a base desse mercado finalmente sejam aprovados com mais velocidade daqui em diante.

“As coisas estão se desenhando”, diz Lopes. “Esperamos muitas novidades nos próximos dois anos.”

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