Nunca comprou um celular usado? A Trocafone quer te fazer mudar de ideia

Com tese de redução de lixo eletrônico e inclusão digital, startup se consolida como líder em aparelhos seminovos — e quer avançar sobre mercado informal

 

Se você já comprou um celular na Oi, na Samsung ou na FastShop e deu o seu antigo em troca de desconto, provavelmente já fez negócio com a Trocafone — e nem se deu conta disso. 

Fundada em 2015, a companhia compra celulares que normalmente seriam descartados ou ficaram parados no fundo da gaveta e, depois de fazer os reparos necessários, vende os aparelhos seminovos no seu site. Tudo com garantia, e em 12 vezes sem juros. 

“Queremos democratizar o acesso à tecnologia e promover o consumo responsável, reduzindo o lixo eletrônico”, diz o argentino Guillermo Freire, CEO e um dos fundadores da empresa. 

É possível vender seu celular de forma direta para a Trocafone, via site ou quiosques da loja. Mas a maior fonte de matéria-prima da companhia são varejistas, fabricantes e operadores de telefonia, que veem na parceria uma forma de fazer a logística reversa dos produtos, ao mesmo tempo em que  aumentam as chances de venda do novo ao dar desconto em troca do usado. 

Em meados do ano passado, a startup avançou discretamente no mercado ao incorporar por meio de uma troca de ações sua principal concorrente, a Brightstar, que tem o Softbank entre os maiores acionistas — consolidando-se como líder absoluta no mercado e dando um passo importante no xadrez do abastecimento. 

Enquanto a Trocafone tinha contratos com empresas como Samsung, Oi e FastShop, a Brightstar deu acesso a outras gigantes, como Vivo e Via Varejo. 

Com um aporte de R$ 30 milhões finalizado em dezembro — e provavelmente outra rodada em gestação, apesar de a empresa não comentar —, a Trocafone quer agora ganhar mais visibilidade e avançar sobre o mercado informal, que estima representar 85% da venda de celulares usados. 

O objetivo é que, antes de pensar em comprar o aparelho de segunda mão de um amigo ou de sites de classificados, as pessoas recorram ao site da empresa. Para isso, quer investir em marketing, valorizando atributos como a garantia de origem (para que o cliente fuja de aparelhos roubados, por exemplo) e de funcionamento. 

“Nossa aposta é educar para um consumo mais responsável, profissionalizando o mercado, e assim multiplicar por cinco o tamanho da empresa nos próximos cinco anos”, diz Freire. 

Ele fala por experiência própria. A ideia da Trocafone surgiu em 2014, quando, recém-chegado de um MBA nos Estados Unidos, teve seu celular furtado num café em Buenos Aires. O empresário comprou um smartphone usado pela Internet e, quando chegou em casa, viu que o aparelho simplesmente não carregava.  “Liguei para o vendedor, que me disse que o problema era meu, e a OLX respondeu que era só uma intermediária”, diz.

Desde que foi lançada, a Trocafone já consertou e vendeu mais de 1,5 milhão de aparelhos. 

Economia circular e inclusão

Além do potencial de expansão e consolidação do mercado de usados, a Trocafone também chamou a atenção de investidores por endereçar questões de sustentabilidade e inclusão digital. 

“É um modelo de negócio muito bom para países emergentes, porque empodera pessoas de classes mais baixas, que não teriam acesso acesso a um smartphone novo, e coloca para circular aparelhos que virariam lixo eletrônico”, diz Flavio Zaclis, sócio da Barn Investimentos, que investe na empresa desde 2016.

Segundo o IDC, cerca de 80 milhões de brasileiros não têm um smartphone. Outro dado, desta vez da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do IBGE, mostra que, entre as pessoas que não possuem celular, o motivo mais alegado é o alto custo do aparelho (28,0%). 

Apesar disso, o foco da empresa não é chegar apenas a quem não possui um smartphone. 

Além de modelos mais simples ou mais antigos, vendidos por menos de R$ 600, a Trocafone quer oferecer uma alternativa viável aos interessados em tecnologia, mas que não querem desembolsar muito dinheiro por um aparelho novo.

E para ganhar esses consumidores, a estratégia é o preço. Um iPhone XR 64GB preto novo custa, por exemplo, R$ 4.999 na loja da Apple. O mesmo aparelho usado, com alguns sinais de uso e garantia de 90 dias, sai por R$ R$ 3.069 na Trocafone. Além disso, a empresa vende modelos que saíram de linha, como o iPhone X, com tecnologia bem parecida ao do XR, e preço a partir de R$ 2.719.

Comprar, consertar e vender

Nas lojas onde coleta os usados, algoritmos desenvolvidos pela empresa permitem ao varejista dar um preço ao usado na hora. 

A compra dos aparelhos é só a primeira etapa de um longo processo até que eles possam ser revendidos. Na etapa seguinte, a Trocafone coleta os celulares nas lojas cadastradas e submete os aparelhos a uma avaliação detalhada pela equipe técnica.

Eles são separados entre os que estão prontos para a venda, os que precisam de conserto e os casos em que o reparo não é possível ou não vale a pena. Nessa última situação, a equipe separa as peças que podem ser reutilizadas em outros aparelhos e encaminha o que não será usado para empresas que reciclam lixo eletrônico.

A Trocafone desenvolveu soluções customizadas para a logística de transporte, ferramentas de diagnóstico e venda dos smartphones.

A venda do celular usado é feita por meio do site da Trocafone e dos quiosques da marca, disponíveis em shoppings em São João do Meriti e Duque de Caxias, na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Por enquanto, a Trocafone deve continuar mais concentrada no online, que cresceu 60% na pandemia, mas não vai deixar de lado os quiosques físicos. A ideia é investir com calma, por conta das restrições no comércio, mas ficar de olho nas oportunidades geradas pelas quedas de preços dos aluguéis em shoppings por conta da pandemia.

O comércio offline hoje corresponde a cerca de 15% das vendas da empresa, que vê espaço para ampliar o percentual no futuro.

“A gente utiliza os quiosques como um showroom, para dar visibilidade e posicionar a marca. Além disso, ainda tem muita gente que prefere esses espaços para ver o celular e já fazer a troca na hora”, diz o CEO.

Recentemente, o negócio começou a oferecer serviços também para smartwatches, tablets, computadores e TVs.

O próximo passo agora, diz o CEO, é vender serviços de seguros (que quase não existem no mercado para os usados) e leasing. “Queremos oferecer a possibilidade de que, em vez de comprar, o cliente possa ter um plano como se fosse um aluguel do aparelho, em que paga as parcelas, tem disponíveis serviços de reparo e, depois de um tempo, consegue trocar por um mais novo”, afirma Freire.