Nove passos para monitorar o risco de desmatamento nas empresas, segundo o JP Morgan

E uma seleção das principais ferramentas de acompanhamento disponíveis para investidores

 

Se você tinha alguma dúvida de que o desmatamento realmente entrou na agenda dos investidores, um amplo relatório distribuído a clientes pelo JP Morgan ajuda a dirimi-las de forma definitiva. São 68 páginas praticamente desenhando os riscos financeiros relacionados ao desmatamento — e usando os frigoríficos brasileiros como exemplo de como eles podem se materializar. 

“Conforme os ativos sob gestão ESG continuem crescendo, acreditamos que uma companhia que tenha exposição significativa a commodities florestais de risco e ignora os riscos relacionados pode sofrer um desconto proporcional no valuation”, escrevem os autores do relatório, escrito em conjunto pela equipe de ESG e sustentabilidade da matriz e pelos analistas de alimentos, bebidas e agronegócio da América Latina.

Para ajudar no monitoramento e gestão desses riscos, o banco criou um guia, com uma lista de pontos de atenção para que investidores possam avaliar como as empresas lidam com o tema e se engajar com potenciais investidas.  

O foco é nas empresas intensivas nas chamadas Forest Risk Commodities, as FRCs, no jargão do setor. Borracha, milho, cacau, café, óleo de palma, carne bovina e soja são as sete principais FRCs. Delas, as três últimas são as que mais contribuem para o desmatamento em termos globais — sendo que soja e carne bovina têm um peso bastante relevante no Brasil.  

O guia do JP Morgan vale tanto para empresas que produzem as commodities quanto aquelas que as utilizam em sua cadeia de fornecimento. Resumimos as recomendações do banco em nove tópicos: 

1. Identificar commodities de risco: Identificar as FRCs a que a companhia está exposta e sua representatividade, tanto na companhia (como porcentagem do custo das matérias-primas), como no mercado total do insumo em questão.

2. As palavras importam: Nos compromissos relacionados ao desmatamento, as definições dos termos ‘florestas’, ‘desmatamento’, etc, podem variar de companhia para companhia, aponta o banco. “Recomendamos prestar atenção aos termos usados e buscar detalhes, na medida em que isso pode influenciar o escopo e as ambições dos compromissos”, escrevem os analistas. Atenção especial a: 

  • Desmatamento zero vs. Desmatamento net-zero: Desmatamento zero significa que não haverá mudança de uso da terra em florestas já existentes. No net-zero, a mudança no uso da terra pode ser “compensada”, replantando árvores em outro local — o que, por sua vez, demanda prestar atenção em particular aos créditos e projetos que são usados para fazer essa compensação. 
  • Desmatamento legal vs. desmatamento ilegal: Compromissos que envolvam apenas o combate ao desmatamento ilegal normalmente não são suficientes.

3. Compromissos sobre emissões de gases de efeito estufa e relacionados ao clima: Companhias com metas de redução de gases de efeito estufa do chamado escopo 3, que incluem a cadeia de valor, estão mais propensas a gerenciar riscos relacionados ao desmatamento.

4. Padrões e certificações: O progresso nos compromissos de desmatamento normalmente são reportados de acordo com certificações — e é importante verificar o escopo, a autenticidade e a independência delas. Certas certificações (como a RSPO, de óleo de palma) têm rótulos distintos para graus diferentes de confiança e garantia.

5. Escopo dos compromissos 

  • Quais commodities são consideradas? 
  • O compromisso se aplica a todas as geografias nas quais a companhia opera? 
  • Até que ponto os fornecedores indiretos são considerados?

6. É pra quando? As políticas de desmatamento devem vir acompanhadas com as respectivas datas em que elas vão ser alcançadas, com compromissos que definem um KPI, um ano base, um valor no ano base, o ano-alvo, a meta de valor no ano-alvo.

7. Divulgação do progresso: Políticas de desmatamento devem se traduzir em compromissos de entregas ao longo do tempo e a companhia deve divulgar publicamente e regularmente progressos quantificáveis em relação a esses compromissos. 

8. Monitoramento e remediação: As empresas devem monitorar e verificar o compliance do fornecedor em relação a seu compromisso de não-desmatamento e ter protocolos claros para fornecedores que não estão em acordo. As ferramentas utilizadas para monitorar desmatamento têm de ser altamente eficientes e os dados devem ser precisos. 

9. Investimentos e custos relacionados: Para ajudar os investidores a avaliar a materialidade financeira dos riscos relacionados ao desmatamento e sua gestão, as companhias devem divulgar seus esforços relacionados a desmatamento em uma unidade monetária, como os custos adicionais com certificações sustentáveis ou investimento em tecnologias de monitoramento, escreve o banco. Os analistas recomendam questionar, em particular, o payback do investimento e os benefícios esperados de tais políticas e apontam que investimentos em práticas de agricultura regenerativa devem ser considerados. 

Ferramentas de acompanhamento

Há diversas plataformas tecnológicas desenhadas para ajudar empresas que compram e vendem as principais commodities a entender melhor seu impacto sobre as florestas e rastreá-lo. 

O JP Morgan elencou quatro que considera mais úteis para ajudar os investidores a fazer esse acompanhamento:

Trase: Uma iniciativa da Global Canopy e do Stockholm Environment Institute, a Trase usa imagens de satélite para identificar áreas de floresta abertas para cultivo de commodities. Ainda que os dados do Trase não consigam responder de forma definitiva se uma empresa ou cadeia de valor em específico está ligada ao desmatamento, ajuda a identificar fluxos de commodities que têm o risco de estarem ligadas ao desmatamento, aponta o JP.  Os dados são públicos.

Global Canopy-Forest 500 Project: Ranking publicado anualmente pela Global Canopy, avaliando os compromissos públicos das companhias e instituições financeiras relacionados ao desmatamento na cadeia de fornecimento. A avaliação parte de um score máximo de 100, dividido em cinco segmentos, cada um com um peso: abordagem geral (14/100), força do compromisso (36/100), reporte e implementação (34/100) e considerações sociais (16/100). Dados públicos. 

Forest Trends — Supply Change Initiative: Uma iniciativa da Forest Trend em colaboração com a WWF e o CDP, é a maior e mais abrangente base de dados sobre os compromissos das empresas em relação à redução do desmatamento relativo a commodities agrícolas, com 865 empresas cobertas. Dados públicos. 

“Forest questionnaires”, do CDP: Representando 515 investidores com mais de US$ 100 trilhões sob gestão, o Carbon Disclosure Project tem um framework de ação para companhia que querem medir e gerir riscos e oportunidades relacionados a florestas. Os dados são disponíveis apenas para os investidores signatários. 

Uma análise dos frigoríficos brasileiros

O relatório traz também um estudo de caso dos frigoríficos brasileiros, tidos como um exemplo de como a pressão dos investidores está mexendo com os valuations e fazendo com que as empresas tomem providências para responder a ela

Ainda assim, nenhum dos grandes produtores encontrou uma solução para rastrear completamente sua cadeia de fornecimento indireta. JBS e Marfrig são as mais avançadas no assunto”, apontam os analistas. 

A equipe do JP Morgan aponta ainda que as companhias brasileiras do setor precisam ter metas específicas para desmatamento zero que sejam abrangentes em escopo, para além do bioma amazônico.

E mostra outro gap: “Em termos de emissões de gases de efeito estufa, as companhias não têm acompanhamento de sua pegada de emissões e nem metas de reduções claras.”

LEIA MAIS

Do discurso à prática: os desafios do ‘Plano Amazônia’ da JBS

Da exclusão às parcerias: o plano da Marfrig para alcançar o desmatamento zero