Not ISE: B3 reforma índice de sustentabilidade para cair no gosto do mercado

Em meio à explosão ESG, índice deve incorporar materialidade por setor e ir além das respostas dadas pelas empresas para se adaptar às demandas dos investidores

 

Com quinze anos completados em 2020, o ISE nunca pegou para valer entre os investidores. O Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3 lastreia um ETF com patrimônio de R$ 30 milhões e mais meia dúzia de fundos que exibem cifras igualmente pouco empolgantes.

Agora, com o mercado local começando a sintonizar em filtros ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês), as deficiências do ISE ficaram mais evidentes.  Os investidores se queixam principalmente da presença de ações de sustentabilidade duvidosa entre os 36 papéis que compõem o índice e da falta de transparência de critérios para incluir ou excluí-los.

Ciente disso, a B3 colocou em marcha uma ampla reforma do ISE com o objetivo de sanar os principais gaps, e atender a um mercado carente de referências e em busca de novos produtos ESG.

“Há crítica dos investidores quando à replicabilidade do ISE e à governança dele”, diz Gleice Donini, superintendente de sustentabilidade da B3. “Entendemos que era uma grande oportunidade para trazer uma nova visão e atender os investidores nessa nova agenda ESG acelerada”. 

As mudanças, no entanto, só devem vigorar em 2022. Atualmente está em curso o processo para definir a carteira teórica do ISE 2021, mas que ainda não contempla a reformulação.

É a materialidade!

A primeira alteração está no longo questionário que as empresas têm que responder. Hoje trata-se de uma batelada de 337 perguntas padronizadas para todas as empresas, não importa o setor, com um perfil mais acadêmico do que com lógica de mercado.

A ideia é enxugar o número de questões e também criar questionários diferentes por setor de atividade. 

A principal mudança será incorporar a questão da materialidade às perguntas, para refletir o que é prioritários em termos de critérios ESG para cada setor. A materialidade está na essência da avaliação de investidores ESG. Por exemplo: não adianta nada uma petroleira pontuar bem no ‘S’ porque investe em educação se não se preocupa com segurança nas plataformas ou com as emissões de carbono.

Para identificar quais são os aspectos ESG críticos por atividade, a B3 está se baseando em padrões que surgiram e se consolidaram no mercado nos últimos anos, como o SASB, o GRI e o Sistema B. 

Renato Eid, responsável pela integração ESG na Itaú Asset, vê benefícios para o ETF ISUS11, gerido pelo banco. “Ele passará a contar com um índice mais robusto. Um dos grandes resultados será a maior transparência para temas e critérios endereçados no processo de elaboração do índice.” 

Os ETFs, diz Eid, são responsáveis por 8% dos ativos ESG sob gestão no mundo hoje.  

Do ponto de vista das empresas, a inclusão da materialidade também deve tornar o ISE uma ferramenta mais precisa para balizar suas políticas de sustentabilidade.

Como funciona

A composição do ISE muda uma vez por ano, é anunciada por volta de novembro ou dezembro e passa a valer em janeiro do ano seguinte. Hoje funciona assim: a bolsa envia um convite para que as 200 empresas de maior liquidez se habilitem a fazer parte do ISE, respondendo a um extenso questionário.

As respostas são avaliadas de acordo com alguns critérios públicos e a deliberação final para definir a carteira cabe ao conselho do ISE, formado pela B3 e outras dez instituições, como Anbima, Abrapp, Ministério da Economia, Ethos e IFC.

No ano passado, das 200 convidadas, 46 se inscreveram no processo e a carteira ficou com 30 empresas (36 ações): AES Tietê, B2W, Banco do Brasil, Bradesco, Braskem, BRF, CCR, Cemig, Cielo, Copel, Duratex, Ecorodovias, EDP, Eletrobras, Engie, Fleury, Itaú Unibanco, Itaúsa, Klabin, Light, Lojas Americanas, Lojas Renner, Movida, MRV, Natura, Petrobras Distribuidora, Santander, Telefônica, Tim e Weg.

Esticando a fronteira

Gestores de fundos criticam a presença de alguns nomes no índice. Há muitas envolvidas em atos de corrupção, flagradas pela Operação Lava-Jato, como CCR, Ecorodovias e Braskem — esta última, protagonista também de um desastre ambiental e social em Maceió

A BRF foi selecionada no ano passado, mesmo investigada no âmbito da Operação Carne Fraca, enquanto outro nome que passou a integrar o ISE neste ano, a BR Distribuidora, gera inquietação pela atuação no setor de combustíveis fósseis. 

As queixas não param por aí. A presença de estatais ou de empresas com baixo grau de transparência na divulgação de informações também é mencionada.

“O fato de existir empresas questionáveis na carteira prejudica a credibilidade”, diz um gestor. “Claro que o ESG tem uma enorme carga de subjetividade, mas o ISE esticou essa fronteira”.

Como parte do processo de reforma, a B3 tem se esmerado para ouvir o mercado, como consultas individuais, webinars periódicos e uma audiência pública que se encerrou em julho. “O processo está muito colaborativo, aberto, com participação de todos os stakeholders”, diz um gestor.

Para reduzir o peso das respostas dadas pelas próprias empresas, a nova metodologia vai incorporar duas novidades: informações públicas das companhias que passarão a ser coletadas e processadas e dados e análises ESG de provedores externos que estão em fase de seleção. Toda a revisão da metodologia conta com a parceria técnica da ABC Associados, de Aron Belinky, que participa da elaboração do índice desde a sua estreia.

O papel do conselho do ISE também está sendo discutido. Existe a possibilidade de que deixe de ser deliberativo e passe a ser apenas consultivo. Mas essa decisão ainda não foi tomada.

Critérios de exclusão da carteira e penalidades também devem ficar mais claros. Donini diz que uma das críticas feitas pelos investidores é justamente a respeito dos critérios e tempestividade para a exclusão de empresas do índice enquanto a carteira está em vigor.

A Vale, por exemplo, integrava o ISE quando houve o desastre em Mariana e foi mantida na carteira. No ano passado, a mineradora foi cortada pós-Brumadinho. A Braskem, entretanto, segue no índice, apesar do protesto de gestores de fundos e analistas ESG.

O processo para inclusão no índice continuará tendo como ponto de partida o convite às 200 empresas de maior liquidez.

No mundo, existem os dois tipos de índices de sustentabilidade: aqueles que fazem uma seleção prévia de empresas que atendem a filtros ESG e aqueles que convidam empresas a se habilitar, como o ISE.  O Dow Jones e o FTSE, por exemplo, funcionam do primeiro modo.

Conflito de interesse?

Se elogiam a transparência e abertura do processo, os investidores se mostram incomodados com um aspecto em particular, que enxergam como potencial foco de conflito de interesse. A reforma vem sendo financiada por um grupo de oito empresas: BR Distribuidora, Braskem, Santander, Copel, Klabin, MRV, Itaú e Bradesco. 

“Preferia que o processo fosse patrocinado pela B3 ou por um fórum independente”, pondera um gestor.

Gleice Donini diz que ainda no ano passado houve uma chamada a todas companhias dispostas a financiar a reforma e essas foram as que se interessaram. 

Embora as oito empresas tenham assento no conselho que discute a reformulação, a executiva da B3 diz que o patrocínio não está atrelado a nenhum compromisso de participação na carteira. “Não existe interferência. São coisas apartadas.”

B3 versão ESG

A reforma do ISE faz parte de um processo mais amplo dentro da B3. “Estamos falando de um novo posicionamento estratégico da bolsa para incorporar o ESG”, diz Donini.

A avaliação é que a agenda de sustentabilidade da B3 é muito bem percebida externamente, mas que o tema não estava devidamente conectado aos negócios. Novas frentes de negócios em títulos verdes e sociais, mercado de carbono e negócios de impacto estão no radar.

“Como companhia listada, também estamos olhando nossas práticas e subindo a barra para que a B3 possa figurar nos índices. É para garantir o ‘walk the talk’”, diz Donini. 

As conversas internas para integrar a discussão ao negócio e à cultura da companhia são lideradas por Ana Buchain, diretora de pessoas, comunicação marketing e sustentabilidade da B3.

A reforma dos produtos existentes veio nesse contexto. Além do ISE, a bolsa acaba de revisar também a metodologia do ICO2, o índice carbono eficiente. A nova carteira teórica passa a valer em janeiro do ano que vem.

Com 10 anos de vida, o índice era formado a partir das empresas que integram o IBrX-50, convidadas a enviar planilhas com seus dados de emissão. A B3 percebeu que muitas empresas que integram o índice IBrX-100 já possuem inventários de emissão de gases de efeito estufa e decidiu mudar o universo de partida. 

“Temos potencial de incluir mais 40 empresas no índice, o que o torna mais replicável, atendendo à demanda dos investidores”, diz Donini.

“Só de permitir que o ‘screening’ saia do IBrX-100, já amplia bem as possibilidades de investimento. Além disso, as simulações que fizemos mostram melhora da perspectiva sob o aspecto da volatilidade”, diz Carlos Takahashi, presidente da BlackRock no Brasil, responsável pela gestão do ETF do ICO2.