No IPO da Orizon, o luxo por trás do lixo

Com reciclagem, biogás e até crédito de carbono, novata na bolsa quer transformar as milhões de toneladas de lixo que chegam em seus aterros em mais dinheiro

 

Uma oferta de ações acaba de trazer para a bolsa um segmento pouco sexy à primeira vista, mas cheio de charme para quem está disposto a chafurdar um pouquinho mais: o de tratamento e destinação do lixo — ou, se preferir, valorização de resíduos. 

A Orizon (antiga Foxx-Haztec), que opera aterros sanitários, fixou o preço de seu IPO ontem à noite um pouco acima do piso da faixa indicativa, a R$ 22 por ação, e vai estrear na B3 na próxima quarta-feira (17) com um valor de mercado de R$ 1,6 bilhão. 

Ainda que bem longe do hype das empresas de tecnologia, a companhia conseguiu demanda de quatro vezes o livro, amparada numa história de consolidação de um mercado altamente pulverizado e demanda por soluções mais sustentáveis. 

A estratégia central da Orizon é extrair cada vez mais valor das milhões de toneladas de lixo que chegam nos seus chamados ‘ecoparques’ — seja transformando-as em biogás e gerando energia a partir dele, aumentando o percentual de reciclagem e reuso dos materiais ou até vendendo créditos de carbono. É economia circular na veia. 

“Nossa meta é cada vez mais aumentar o percentual de valorização de resíduos que recebemos e aterrar o menos possível”, disse o CEO Milton Pilão Júnior em entrevista concedida ao Reset em 20 de novembro, antes de a empresa entrar com o pedido de IPO. 

Com cinco ecoparques em operação, na Paraíba, em Pernambuco e no Rio de Janeiro, 65% da receita de R$ 289 milhões nos nove primeiros meses de 2020 ainda vieram do negócio tradicional de tratamento e destinação dos aterros, altamente gerador de caixa e pouco sensível a ciclos econômicos. 

Mas, tomando por base os planos da companhia, a expectativa do mercado é que a relação se inverta e o percentual passe para algo mais próximo dos 35% em cinco anos, com os serviços acessórios passando a representar a maior fatia do bolo.

O caminho do lixo 

A Orizon é uma das maiores empresas do setor, com uma fatia de 5,7% do volume de lixo processado por aterros, num segmento em que as top 5  juntas não somam nem um quarto do mercado, mostrando um espaço amplo para consolidação. 

Dos quase R$ 400 milhões levantados na fatia primária da oferta de ações, 37,5% vão para potenciais aquisições.

Um dos possíveis alvos são os ativos da Estre Ambiental, que está em recuperação judicial. Para se posicionar bem, a Orizon comprou parte da dívida da Estre em uma operação estruturada com a gestora de ativos estressados Jive. 

Outro vento de popa vem da regulação do mercado. O novo marco regulatório do saneamento estabeleceu o fim dos lixões, que ainda são destino de 40% do resíduos gerados no país, até 2024. 

Diferentemente dos lixões, onde os resíduos são depositados sem infraestrutura, os aterros são grandes obras de engenharia, construídas em camadas, como uma espécie de bolo de noiva, que podem ter uma altura de mais de 100 metros. O lixo vai sendo disposto ao longo dessas células e um sistema de captação de gases e chorume evita a contaminação do solo e dos lençóis freáticos. 

Trata-se de um negócio em que o valor do investimento, a localização e a complexidade de se garantir licenças ambientais — que não raro demoram mais de cinco anos para sair — garantem barreiras de entrada significativas. 

“Na prática, não faz sentido o lixo viajar mais de 100 km das grandes cidades”, diz um gestor que estudou de perto a oferta. “Se você tem uma aterro bem localizado, o recebimento dele é proporcional à população que está num raio de 80 km a 100 km.” 

A Orizon está estabelecendo operações em mais seis Estados: São Paulo, Goiás, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com processos mais adiantados nos dois últimos.

Quem aposta na Orizon vê esses ativos, bem localizados, como uma grande vantagem para a companhia. 

Onde o calo aperta

Por outro lado, a relação com o poder público e o histórico de companhias como a Estre Ambiental, que colapsou em dívidas após ser envolvida na Lava-Jato, deixou parte do buyside com o pé atrás. 

Com uma oferta pequena num setor novo e complexo e o mercado inundado de IPOs, muitos gestores de fundos de maior porte preferiram ficar de fora, alegando que o tempo necessário para fazer a diligência necessária não valeria o tamanho da posição. 

O fato de a companhia só atuar com aterros e estar fora da coleta — onde a barreira de entrada é baixa e o serviço pode mudar de acordo com o prefeito — dá um pouco mais de conforto, apontam gestores mais otimistas.

“Não se trata de uma companhia familiar, que atua nisso há várias décadas. Aqui, os acionistas eram empresários já bem sucedidos que decidiram entrar no setor porque viram uma boa oportunidade de alocação de capital”, pontua o sócio de uma asset que entrou na oferta. 

Ele se refere ao CEO Milton Pilão, que fez carreira na empresa de máquinas e equipamentos para papel e celulose que leva o nome da sua família, e Ismar Assaly, antigo dono da fabricante de pescados enlatados Gomes da Costa.  

Junto com mais dois sócios eles têm 75% da empresa, fatia que deve passar a 50% depois do IPO. O restante está nas mãos do fundo de private equity Spectra, que reduziu sua posição para algo mais próximo dos 10% na oferta.  

Pilão e Assaly fundaram a Foxx em meados de 2009 para vender serviços de valorização de resíduos.

Em 2013, compraram a Haztec, que fora fundada uma década antes para consolidar o setor numa grande holding ambiental, de tratamento de água a coleta de lixo, passando por saneamento. As diversas aquisições não trouxeram sinergia e a Haztec terminou endividada e no prejuízo. 

Ao longo do tempo, a Foxx-Haztec foi vendendo todos os outros segmentos e ficou apenas com o de tratamento de resíduos. O turnaround que começou com a aquisição em 2013 só foi concluído no ano passado — e ainda assim cerca de um quinto do dinheiro levantado com o IPO vai para pagar dívidas caras com o Credit Suisse, coordenador da oferta. 

Quando a Foxx adquiriu a companhia, 90% da receita vinha do poder público. Hoje, esse percentual é de 40%. 

“A aquisição da Haztec nos deu acesso à nossa matéria-prima. O que a gente percebeu na época foi que, para implantar soluções de valorização de resíduos em grande escala, a gente precisava ter acesso ao lixo”, contou Pilão ao Reset

Agregando valor 

Os planos de agregar valor ao lixo envolvem aumentar tanto a venda de biogás quanto da energia gerada por ele.

O biogás é produzido a partir do metano emitido pelo lixo em decomposição — e hoje os cinco ecoparques em operação já têm estrutura para gerar o combustível renovável, que representa cerca de 16% da receita da companhia. 

Além disso, todas as plantas juntas têm capacidade de geração de 56 MW a partir do gás, com potencial de expansão de até 35% nos próximos anos, segundo informações do prospecto da oferta. 

Uma opcionalidade relevante é a venda de créditos de carbono, emitidos a partir da captura e aproveitamento do biogás — ainda que ninguém queira cravar essa receita potencial nas estimativas de retorno, dadas as incertezas sobre o desenvolvimento do mercado.

“Hoje é uma linha de receita que ainda tem pouca representatividade, mas que pode mudar o valor da companhia se esse mercado de créditos de carbono voluntário realmente deslanchar”, pondera um gestor.

A Haztec foi a primeira empresa de aterros do Brasil a ter créditos de carbono certificados pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) e gera créditos há mais de 15 anos.

O mercado ficou meio parado nos últimos anos, mas o cenário parece estar mudando. Em 2020, a Orizon foi a maior vendedora de um leilão do Banco Mundial , colocando pouco mais de 1,2 milhão de créditos por US$ 1,98 a tonelada. 

Reciclando — de plástico a resíduo siderúrgico

Outra avenida de crescimento em que a companhia aposta é a reciclagem. 

Após anos de pesquisa para tropicalizar a tecnologia desenvolvida na Europa, a Orizon encomendou duas grandes máquinas que separam os recicláveis dos demais resíduos, as chamadas Unidades de Tratamento Mecânico (UTMs), que devem chegar já neste ano. 

O plano é que, até 2025, todos os cinco ecoparques contem com equipamentos semelhantes.  

Para viabilizar o investimento, a Orizon já pediu cadastro para emitir créditos de reciclagem, iniciativa viabilizada pela EuReciclo

Se cumprir o plano, a companhia deve contribuir para o cenário de reciclagem do Brasil. Muito dependente de cooperativas de coleta, apenas 3% dos resíduos sólidos municipais foram reciclados no Brasil em 2018, enquanto em países como Alemanha esse número chega a 66%.

Ainda na linha de economia circular, a Orizon atua em serviços de beneficiamento de resíduos customizados para empresas.

Nesse caso, o melhor exemplo vem da CSN, para quem a Orizon desenvolveu uma tecnologia capaz de transformar uma lama que sai do processo de fabricação do aço num produto que volta ao processo produtivo substituindo. 

A sobreposição com Ambipar, a companhia de gestão ambiental que fez seu IPO no ano passado, acontece apenas na área que representa a menor parte da receita, de apenas 6%: a de serviços de engenharia ambiental, que envolve atividades como a descontaminação de terrenos.