No IPO da Duolingo, a democratização da educação vai à bolsa

 
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A Duolingo, a maior plataforma digital de ensino de idiomas do mundo, protocolou seu pedido de IPO na Nasdaq, numa operação que vai colocar sob escrutínio dos investidores um modelo de negócios que se propõe a “universalizar a educação de qualidade”.

O app, com mais de 500 milhões de downloads e 40 milhões de usuários ativos em todo o mundo, opera como uma espécie de game e funciona no modo ‘freemium’. Todos os cursos estão disponíveis de graça, mas com anúncios na navegação. Quem não quer ver a propaganda, paga a versão ‘plus’.

O modelo de monetização está longe de ser uma invenção, mas no caso do Duolingo, parte do princípio dos fundadores. 

 “A primeira coisa que vocês devem saber é que eu vou dedicar a minha vida para construir um futuro em que, por meio da tecnologia, cada pessoa deste planeta possa ter acesso a melhor qualidade de educação”, escreveu o fundador Luis von Ahn, numa carta curta, direta e pouco usual no prospecto do IPO.

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Nascido na Guatemala, von Ahn se formou em matemática e tem um PhD em ciência da computação em universidades renomadas nos Estados Unidos, como Duke e Carnegie Mellon. (Curiosidade: ele desenvolveu a tecnologia do CAPTCHA, o anti-spam que te obriga a digitar palavras aleatórias para provar que não é um robô.)

Mas, pela sua origem, diz conhecer de perto a desigualdade. “Muitas pessoas falam que a educação pode trazer igualdade para diferentes classes sociais. Eu sempre vi como o oposto disso, com o algo que traz desigualdade”, diz ele em entrevista em vídeo publicada em fevereiro no canal da Nasdaq. “O que acontece na prática é que pessoas com muito dinheiro podem comprar para si a melhor educação do mundo e,  assim, continuam com muito dinheiro.”

A visão se reflete na missão da empresa, expressa no prospecto do IPO: “desenvolver a melhor educação do mundo e torná-la disponível universalmente”.

O instrumento para isso está nas mãos de quase todo mundo: o smartphone. 

A Duolingo desenvolveu cursos de mais de 40 línguas, num formato gamificado: em vez de textos longos, videoaulas e apostilas de exercícios, o usuário responde perguntas e vai avançando nas fases, enquanto coleta coroas e corações, na forma de recompensas. 

Com ferramentas de inteligência artificial, as questões apresentadas levam em consideração os erros e acertos anteriores de cada estudante. A ideia é reforçar pontos de dificuldade do aluno, mas sem tornar o conteúdo repetitivo em um determinado tema. 

O modelo viralizou. Dados de engajamento mostram que com frequência os usuários preferem ficar na plataforma do que em redes sociais. Hoje, existem mais pessoas nos Estados Unidos usando o Duolingo do que estudantes de línguas estrangeiras em todas as high schools americanas combinadas — e há mais pessoas aprendendo idiomas como irlandês e havaiano do que o número de falantes nativos. 

Tudo isso com qualidade de aprendizado. Uma pesquisa realizada no ano passado mostra que os índices de proficiência para leitura e escuta em francês e espanhol eram equivalentes àqueles de estudantes do quarto semestre desses idiomas em universidades americanas, com a metade do tempo gasto pelos universitários. 

Como todo negócio digital, a empresa decolou durante a pandemia. Em um ano, a receita aumentou 129%, para US$ 162 milhões em 2020. No primeiro trimestre, a receita foi de US$ 55 milhões, quase o dobro da registrada no mesmo período do ano passado.

Mas a empresa ainda opera no vermelho — e terá que provar que consegue monetizar sua base, sem necessariamente abrir mão da qualidade do conteúdo gratuito. Parte dos recursos captados com a oferta irão para esforços nesse sentido. 

Embora a maior parte dos alunos, cerca de 95%, utilize a versão gratuita, o acesso pago de 1,8 milhão de alunos já responde por 73% da receita. Os anúncios, que bancam os cursos grátis, respondem por 17%. 

A empresa ainda não revelou quanto pretende arrecadar com o IPO, mas a última rodada de captação, em novembro, capitaneada pelos fundos Durable Capital Partners e General Atlantic, avaliou a companhia em US$ 2,4 bilhões.

Em dez anos de operação, o negócio levantou US$ 183 milhões com investidores em rodadas privadas.

A ideia também é expandir horizontalmente e ir além do ensino de idiomas.

No documento da oferta, a empresa diz que a ambição é levar sua abordagem gamificada e móvel para a educação de forma geral, estratégia que começou a sair do papel no ano passado com o Duolingo ABC, um aplicativo que desenvolve a alfabetização de crianças pequenas.

Os planos contemplam o Brasil, onde a empresa já tem o seu segundo maior mercado, com  30 milhões de cadastros, atrás somente dos Estados Unidos. O idioma mais buscado por aqui é o inglês.

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