Na Solinftec, o agro é tech… e se financia com título verde

Startup investida pela família Trajano capta R$ 140 milhões com CRA verde pioneiro no setor de tecnologia

 

A Solinftec, uma startup de tecnologia para agricultura de precisão, captou R$ 140 milhões em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) com selo verde, na primeira operação de uma agtech no mundo a contar com a chancela da Climate Bonds Initiative (CBI). 

Unindo três das principais tendências recentes de mercado — tecnologia, agronegócio e sustentabilidade —, a companhia levantou R$ 130 milhões na primeira série, com vencimento em quatro anos, e outros R$ 10 milhões numa série mais longa, que vence em seis, numa operação coordenada pelo Itaú BBA e estruturada pela Planeta Securitizadora (nova marca da Gaia). 

As taxas não foram reveladas. 

A operação contou tanto com o selo de green bond, que atesta os benefícios ambientais, quanto da CBI, organização internacional que atua para promover investimentos na economia de baixo carbono e tem critérios bastante estritos para avaliar os benefícios climáticos. 

Fundada em 2007 pelo cubano Britaldo Hernandez, a Solinftec utiliza tecnologia e inteligência artificial para garantir mais eficiência no campo. Com crescimento exponencial, hoje a companhia monitora mais de 80% da área plantada com cana-de-açúcar no país e atende nove dos dez principais produtores de grãos, além de atuar também nos Estados Unidos, Canadá e 14 países da América Latina.

Entre os investidores estão o TPG Group e a Unbox Capital, firma de venture capital da família Trajano, que entrou no capital da empresa no ano passado, liderando um aporte de US$ 40 milhões. 

Com um modelo baseado em receita recorrente e lastreado em grandes clientes do agro, a companhia já tinha captado com um CRA tradicional no começo de 2019. Agora, decidiu recorrer ao carimbo verde. 

A receita recorrente anualizada é de R$ 120 milhões, de acordo com a diretora financeira, Laís Braido. Os contratos variam de três a oito anos de extensão, com um prazo médio de cinco anos. A taxa de churn — desligamento de clientes — é bastante baixa e os clientes têm multa de rescisão, que varia de 50% a 80%. 

“Achamos que teríamos uma demanda mais próxima de R$ 100 milhões, próximo do que foi a primeira emissão”, diz Caio Viggiano, diretor de renda fixa para empresas médias do Itaú BBA. “Mas fomos surpreendidos com uma procura maior.”

Inicialmente, a operação poderia chegar a R$ 150 milhões, com garantia firme de R$ 50 milhões do Itaú, que não precisou ser exercida.

Mais com menos 

Com uma solução completa, que engloba hardware e software, a Solinftec monitora todo o processo produtivo no campo — utilizando sensores nas máquinas, estações meteorológicas e imagens de satélites — para garantir mais produtividade. 

Um dos exemplos mais simples do impacto da tecnologia é a redução do consumo de combustíveis. “Se você dirigir uma máquina numa faixa de velocidade adequada, vai consumir um X de combustível. Em outra velocidade, consome mais. Controlando isso, conseguimos reduzir em até 15% o consumo de diesel do nosso cliente”, diz Guilherme Guiné, gerente de produtos da Solinftec. 

Modelos de inteligência artificial fazem a gestão de colheitadeiras, entendendo a forma mais eficaz de fazer a colheita: onde começar e onde terminar para utilizar menos recursos. A tecnologia permite ainda a melhor utilização de defensivos químicos, um dos grandes responsáveis pela emissão de gases de efeito-estufa do setor agrícola. 

“A nossa solução sempre teve esse impacto ambiental positivo implícito”, diz Braido. “O que mudou do primeiro para o segundo CRA é que começamos a medir os impactos, começando pelos gases que os clientes deixaram de emitir.”

Segundo a companhia, ao longo dos últimos cinco anos, considerando apenas a redução do consumo de combustível dos clientes, mais de 680 mil toneladas de CO2 foram evitadas pela sua tecnologia.

O volume seria suficiente para neutralizar a operação da ponte aérea Rio-São Paulo e é equivalente à eletrificação de mais de 700 mil carros/ano (o dobro da capacidade de produção da Tesla). 

A ideia agora é reforçar esse posicionamento de sustentabilidade, que vem ganhando apelo, e sofisticar ainda mais as tecnologias para garantir uma produção com menos impacto ambiental, diz Guiné. 

“Nosso modelo é sustentabilidade na veia: é bom para o produtor, porque reduz o custo, é bom para o meio-ambiente, é bom para a sociedade que está em volta. O produtor vai continuar fazendo porque vale a pena para ele”, aponta. 

“Olhando para o  futuro, vemos um grande crescimento fora do Brasil. Queremos ser um exportador de tecnologia para o agro”, diz o executivo. “A gente acredita que a sustentabilidade no agronegócio também vai partir do Brasil. Vamos liderar e não ser liderados nesse processo.”

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