Na Itaú Asset, a ordem é fazer a cabeça do gestor para integrar ESG

Incluir os critérios socioambientais em toda a matriz de decisão de investimentos é mais importante do que lançar produtos com o rótulo, diz o CEO Rubens Henriques

 

Bem antes que a onda dos investimentos que adotam filtros ambientais, sociais e de governança deixasse de ser uma marolinha no Brasil, a Itaú Asset Management, maior gestora de fundos privada do país, com mais de R$ 700 bilhões em ativos sob gestão, já tinha um sistema de avaliação ESG implantado.

Primeira grande gestora do país a aderir ao Principles for Responsible Investment (PRI), em 2008, a Itaú criou a primeira versão de sua análise ESG ainda em 2010 — e vem aprimorando o sistema desde então. Hoje, 95% dos ativos em carteira passam por essa análise e a meta divulgada pelo banco é chegar a 100% até 2022.

Mas, conforme a agenda ESG ganha velocidade no Brasil, o desafio da gestora agora é aplicar os filtros para valer em suas decisões de investimento.

Rubens Henriques, há um ano e meio no posto de CEO da Itaú Asset, quer que cada vez mais os gestores dos fundos da casa levem em conta essa análise na hora de escolher e calibrar o peso dos papéis das empresas investidas.

“Queremos sensibilizar o gestor para a importância disso na tomada de decisão dele. Esse processo fica tão melhor quanto mais cada gestor fizer a sua parte”, diz Henriques.

Ele considera que a casa tem um bom modelo para identificar os riscos e oportunidades socioambientais das empresas e, tão importante quanto, traduzir isso em valores financeiros. Esse trabalho é coordenado por Renato Eid, gestor de portfólio responsável pela área de estratégia beta (gestão passiva), e serve de forma transversal à toda casa.

O ‘xis’ da questão é o que é feito com as informações geradas.

“O nível de consciência entre os diversos gestores é desigual. Agora vamos dar ferramentas e treinamentos para que isso seja ‘top of mind’ para eles”, diz. “E o meu papel será cobrar.”

Quem conhece as entranhas da gestora diz que o desafio não é pequeno. “É mais difícil conseguir que todos adotem a mesma política porque os gestores da Itaú Asset têm muita autonomia. É como se fossem várias assets dentro dela”, diz um ex-executivo do banco.

Henriques discorda que a estrutura de “várias assets” seja um obstáculo, justamente porque a integração ESG é feita por uma área transversal, que também é responsável por centralizar e coordenar a participação em assembleias e engajamentos com empresas para todos os gestores e estratégias.

O executivo conta que sua experiência anterior, como responsável pela área que seleciona produtos de terceiros no Brasil e no exterior para distribuir a clientes do Itaú, mostrou o quanto o mercado brasileiro está atrasado na adoção do ESG.

Como exemplo dos diferentes graus de “awareness” entre os times de gestão da casa, ele cita o exemplo da equipe que veio da casa alemã DWS em maio, quando a Itaú ganhou o mandato para cuidar das estratégias de renda variável da gestora na América Latina. “Para esse time não tem conversa de integração. Eles estranham que alguém não olhe para isso.”

Além do rótulo

A asset está prestes a lançar produtos específicos com o rótulo ESG.

Vai começar por um fundo de ações com gestão ativa, que terá filtros socioambientais e de governança mais rigorosos. Também há planos de criar fundos temáticos, como de energias renováveis. E o banco trabalha ainda para reforçar a prateleira com produtos ESG e de impacto de terceiros, inclusive nas categorias de private equity e venture capital.

Mas Henriques é da opinião de que, mais do que produtos rotulados, o que faz a diferença é adotar os filtros em toda a carteira.

“Trabalhamos com o mantra da integração ESG. Porque assim eu coloco R$ 740 bilhões pela causa na interação com as empresas nas quais investimos. Quando lanço um fundo e capto R$ 10 milhões, coloco apenas esse fundo pela causa. A integração é muito mais potente.”

Tempero secreto

Quando começou a fazer análise ESG, a Itaú Asset avaliava 32 dimensões diferentes. Hoje são oito, sendo quatro ambientais (biodiversidade e uso do solo, manejo de resíduos, mudanças climáticas e água, energia e materiais); e quatro sociais (relações com trabalhadores, fornecedores, clientes e comunidades). “O tema é dinâmico e o que era diferencial no passado muitas vezes é incorporado pela análise financeira tradicional”, diz Eid.

E o “secret sauce”, para Henriques, é o modelo que permite quantificar financeiramente cada um dos itens analisados, para cada empresa.  A equipe calcula o impacto da materialização de riscos no fluxo de caixa da empresa e no seu custo de capital. “Conseguir dar um número para tomar a decisão objetiva é a parte importante.”

No caso dos fundos de renda variável, essa conta entra no cálculo do preço alvo das ações, o que possibilita ao gestor calibrar o peso do papel na carteira.

Nas carteiras de renda fixa, a conta compõe o rating de crédito dos papéis de dívida das empresas. A equipe ESG tem poder de veto no comitê semanal de crédito, para barrar a compra de títulos associados a riscos ambientais ou sociais que podem comprometer a capacidade de pagamento da empresa.

Sobre a precificação dos fatores ambiental e social, a equipe de Eid adiciona outra camada de análise para incorporar o fator governança, por meio de um ranking interno.

Toda a metodologia da Itaú Asset para integrar os fatores ESG está descrito em dois “white papers” públicos, um para ações e outro para renda fixa.

Rubens Henriques diz que o poder de veto da equipe ESG existe somente no crédito porque o mercado de dívida no Brasil é “buy and hold”. Ou seja, como não existe um mercado secundário, não tem como sair do papel em caso de erro.

“Em ações todo dia é um dia e tem zona cinza. Somos contra a abordagem de lista negativa. Nosso papel é ir nas empresas e falar:  você sabia que isso pode impactar o seu valor na bolsa? Sabia que se você desse mais transparência à remuneração do seu executivo em assembleia eu ficaria mais confortável?”, diz.

No ano passado, a equipe coordenada por Renato Eid se engajou com 91 empresas de 22 setores diferentes – em 2018 haviam sido 35 engajamentos.

Engajar significa estar em contato com a empresa para discutir como melhorar aspectos que não atendem a bons padrões ESG.

Além disso, a asset exerceu o poder de voto em 80 assembleias de acionistas em 2019.

Henriques cita um caso concreto em que a Itaú Asset votou contra a política de remuneração de uma empresa em assembleia e propôs e discutiu melhorias que foram aprovadas posteriormente.

Ao divulgar seus compromissos de impacto positivo, menos de um ano atrás, o banco Itaú fixou metas para a área de investimentos, a serem cumpridas até 2022: que os produtos de investimentos responsável e de impacto alcancem 3% dos ativos sob gestão e ter avaliação ESG para 100% dos ativos, com certificação externa.

A certificação externa está a caminho, diz Henriques. A asset está em processo de seleção da empresa que irá avaliar seu processo. Quanto ao percentual, que hoje está pouco acima de 95%, ele diz que a diferença é explicada por ativos antigos, comprados antes da criação do score ESG.

Seu palpite é que as metas serão alcançadas antes do prazo. Mas isso não encerra o capítulo da integração ESG. “Nunca diria que está pronto. Fazemos há bastante tempo e não está pronto. É um processo vivo e temos muito o que aprender.”