Na estreia em rating ESG, BNDES é ‘investment grade’

Banco de desenvolvimento está entre as 2% empresas mais bem avaliadas pela agência Vigeo Eiris, que, no entanto, aponta necessidade de medir emissões de CO2 do portfólio e criar metas ESG

Compartilhar

O BNDES acaba de obter seu primeiro rating ESG e foi apontado como uma das companhias mais bem ranqueadas pela agência Vigeo Eiris, controlada pela Moody’s e uma das mais bem reputadas da área.

Com uma nota ‘A1+’ na escala da agência e um score de 64 — de um total de 100 pontos possíveis —, o banco de desenvolvimento está entre as 2% mais bem avaliadas de um total de 4913 companhias que têm o rating da agência, na 86ª posição. E aparece em quarto lugar entre 848 empresas de mercados emergentes.

Apesar disso, a agência aponta oportunidades de melhoria, ao ressaltar que o banco não faz o monitoramento das emissões de CO2 da sua carteira de crédito e também não tem indicadores de performance e metas ESG. 

É a primeira vez que o banco estatal obtém um rating solicitado, ou seja, encomendado e pago, e a contratação da Vigeo Eiris foi feita por meio de convênio com o BID, o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Das três letras, o ‘G’ de governança trouxe o melhor score para o banco, com 70 pontos, seguido pelo ‘S’, de social, com 69 pontos. Os aspectos ambientais somaram 50 pontos.

Como pontos fortes do BNDES, a Vigeo Eiris destacou a ‘integração avançada de fatores ESG às atividades de investimentos e empréstimos’, sistemas considerados estado da arte para prevenir discriminação e promover a carreira dos colaboradores e esforços abrangentes para mitigar os riscos de corrupção e lavagem de dinheiro.

Para a diretora financeira do BNDES, Bianca Nasser, o rating traz dois benefícios principais: oferecer ao mercado critérios padronizados e comparáveis dos aspectos ESG do banco e ajudar a construir uma agenda de melhorias nesse front, a partir dos gaps apontados na análise.

“Em 2017, quando fizemos a emissão externa do nosso green bond, o rating ESG era uma das coisas que os investidores nos pediam. Não era um dealbreaker, mas era algo que pediam”, diz Gabriel Ervilha, chefe do departamento de relações com investidores do BNDES.

Maria Netto, especialista em finanças e mudanças climáticas no BID em Washington, diz que os investidores cada vez mais têm exigido uma boa governança ESG dos emissores. “Por causa do risco de greenwashing, os investidores querem, além da história do que será feito com os recursos, saber como as instituições estão gerindo seus riscos.”

Com R$ 140 bilhões de liquidez disponível, mesmo depois de antecipar a devolução de recursos ao Tesouro, o BNDES não tem necessidade imediata de acessar o mercado de capitais. “Mas não descartamos fazer isso como movimento estratégico, para diversificar as fontes de funding, manter nossa presença no mercado ou por liderança”, diz Nasser.

Pontos de melhoria

Se posicionou bem o banco dentro do universo de empresas avaliadas, a análise da Vigeo Eiris também forneceu um bom mapa de ação para o banco avançar na agenda ESG, diz Ervilha. 

O relatório de rating destaca o papel que o banco tem para apoiar o Brasil rumo a uma economia de baixo carbono, financiando ativos que contribuam para a transição energética.

Na avaliação da agência, o banco tem uma performance robusta no front climático, o que inclui o compromisso de ajudar a aumentar a capacidade instalada de geração de energia renovável em 2 GW até 2022 e também a política de excluir atividades de geração a carvão. 

“Não está claro, no entanto, a qual percentual dos investimentos a avaliação de risco climático se aplica e a companhia não reporta as emissões de CO2 ligadas ao portfólio”, diz o relatório.

“Em clima, já estamos trabalhando o inventário das emissões de gases de escopos 1 e 2, mas apareceu a necessidade de trabalhar também no escopo 3 [da carteira de crédito], o que já começamos a trabalhar”, diz Ervilha. Os escopos 1 e 2 dizem respeito às emissões diretas do banco, o que, na atividade bancária não é relevante, já que a atividade é pouco intensiva em carbono. No setor financeiro como um todo, o que faz a diferença são as emissões do portfólio de negócios.

A agência, diz o executivo, também deixou claro que, embora o banco tenha uma boa integração de fatores ESG, precisa criar métricas e metas, tanto corporativas quanto voltadas aos desembolsos.

 “Por exemplo, criar metas socioambientais para as operações, como quantidade de desembolsos para energia limpa.”

Aqui o relatório da Vigeo Eiris na íntegra.

Leia mais

Quer receber o Reset no seu e-mail? Inscreva-se

A melhor cobertura de negócios e finanças sustentáveis

Contribua com o Reset e ajude a construir a mudança.