Na COP Bio, uma proposta para colocar a biodiversidade nos balanços

Marco global pode incluir menção a divulgações obrigatórias por parte das empresas sobre suas dependências e impactos na natureza

Eva Zabey, diretora-executiva da Business for Nature, que coloca a perda de biodiversidade como uma questão central para as empresas
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MONTREAL – Entre as 22 metas que fazem parte do Marco Global da Diversidade, em negociação na COP15, em Montreal, existe uma que diz respeito especificamente às empresas.

O texto ainda não foi finalizado, mas até aqui sobrevive nos rascunhos uma formulação que muitos consideram controversa, ou possivelmente inócua.

A chamada meta 15 pode pedir que os 193 países signatários da Convenção da Biodiversidade da ONU tornem obrigatória por parte das empresas, até 2030, a medição e divulgação de suas dependências e impactos na natureza.

Não há nada parecido no Acordo de Paris, que trata do clima. Foi somente no ano passado, depois de anos de pressão de cientistas e ambientalistas, que uma COP climática fez uma menção específica a uma fonte de energia suja, o carvão, ainda assim com muitas ressalvas.

 

A Business for Nature, uma coalizão de mais de 330 empresas e instituições financeiras, com receitas somadas de mais de US$ 1,5 trilhão, além de organizações de defesa do meio ambiente, defende que o texto final do marco contenha linguagem inequívoca direcionada ao setor privado.

Fundada há três anos, a iniciativa anunciou em Montreal a campanha “Make it Mandatory” (torne obrigatório), apoiada por nomes globais como AB InBev, Nestlé, Ikea e Natura. 

“É complicado”, diz Eva Zabey, diretora-executiva da entidade quando questionada pelo Reset sobre as chances de sobrevivência do termo “mandatory” (obrigatório) na versão final do texto.

“Mas estamos em modo de gestão de crise. Temos de assumir a responsabilidade e fazer o possível com prazos mais apertados. Se você não consegue explicar como sua empresa está contribuindo para um mundo sustentável, não deveria ser recompensado financeiramente.”

Voluntário x obrigatório

Mesmo que a obrigatoriedade das divulgações figure no marco, o que isso vai significar na prática é incerto. Convenções da ONU não são legalmente vinculantes. Caberia às agências reguladoras de cada país estabelecer suas regras.

Isso vem acontecendo, lentamente, com relação aos reportes climáticos. A Securities and Exchange Commission (SEC), xerife dos mercados de capitais americanos, apresentou uma proposta nesse sentido no começo deste ano. No Brasil, a CVM vem aumentando gradualmente as exigências para as companhias abertas.

Apesar dessas ressalvas, afirma Zabey, o importante é a sinalização política na forma de uma menção direta às empresas no marco da biodiversidade.

“Hoje, as empresas que não avaliam e não divulgam seus impactos na natureza têm uma vantagem competitiva involuntária sobre aquelas que o fazem”, diz ela.

Exigências globais poderiam igualar as condições mais rapidamente, afirma Zabey. O avanço da imposição de barreiras tarifárias por parte dos europeus é um exemplo do que pode estar por vir.

Produtos ou matérias-primas com emissões de carbono “gratuitas” embutidas serão taxados ao entrar na União Europeia. Não é difícil imaginar algo parecido para produtos associados à destruição da natureza.

Medir e divulgar não vai “salvar o mundo”, como diz Zabey, mas é um primeiro passo fundamental. Muitas companhias já vêm fazendo isso de forma voluntária, mas isso não é suficiente, na opinião da britânica.

“Obrigações regulatórias são a alavanca mais poderosa. Mas investidores e consumidores também terão influência.”

O que medir?

As negociações em Montreal têm um problema de timing. Ainda nem sequer existem padrões que determinem o que medir e como divulgar os impactos da natureza nos negócios e vice-versa.

A Task Force on Nature-related Disclosures (TNFD), iniciativa das próprias companhias e do setor financeiro para criar parâmetros de divulgação, só deve divulgar uma primeira versão da metodologia em setembro do ano que vem.

Zabey afirma que isso não deveria servir de desculpa. O padrão TNFD aproveita muito do trabalho feito anteriormente pela TCFD, a força-tarefa que fez o mesmo para o clima.

CFOs e áreas de relações com investidores das grandes empresas estão se acostumando a tratar da mudança climática, e agora terão de aprender também a falar de natureza.

Se não for por obrigações regulatórias, a demanda deve partir dos acionistas.

Também em Montreal foi anunciada a criação da Nature Action 100, uma aliança de investidores cujo objetivo é dialogar com as grandes empresas de capital aberto sobre o que elas vêm fazendo em relação à biodiversidade.

A organização é mais um desdobramento de esforços prévios relacionados ao clima: a NA100 é irmã da Climate Action 100+.

Se muitas companhias só agora começam a lidar com o desafio de medir e reportar sua pegada de carbono, essa nova demanda sobre biodiversidade não seria esmagadora?

Zabey afirma que não. “Temos de aceitar a complexidade e a incerteza”, diz ela. “E no mundo das empresas não existe essa separação artificial entre clima e biodiversidade [como nas negociações internacionais]. Não vamos atingir a neutralidade de carbono sem pensar a natureza e não vamos reverter a perda de biodiversidade sem um clima estável.”

Uma oportunidade para unir os dois temas são as metas net zero anunciadas pelo setor corporativo, disse Mark Carney, ex-presidente dos bancos centrais do Canadá e do Reino Unido e líder da aliança global do setor financeiro pela descarbonização.

“Agora que esses compromissos net zero passam de metas à ação, os financiadores privados devem garantir que eles incluam prioridades claras em relação ao desmatamento, à proteção da natureza e à restauração da biodiversidade”, afirmou Carney na abertura do “dia das finanças”, uma novidade das COPs de biodiversidade.

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