Na Amazon, VP renuncia após demissão de funcionários que protestaram

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Enquanto funcionários dos armazéns da Amazon nos Estados Unidos faziam protestos por melhores condições de trabalho em meio à pandemia do novo coronavírus na última sexta-feira (1º), um alto executivo esvaziava suas gavetas no escritório. 

Tim Bray, um dos vice-presidentes da Amazon Web Services (AWS), a divisão de computação em nuvem da companhia, renunciou ao cargo por não concordar com demissões de funcionários que tinham vindo a público neste ano para contestar as medidas de proteção da companhia. 

“Continuar como VP na Amazon significaria assinar embaixo de ações que desprezo”, escreveu no seu blog, numa dura crítica ao modelo de negócio da Amazon. Segundo ele, as demissões são “prova da toxicidade venal que corre na cultura da companhia”. 

O pedido de demissão de Bray mostra que a insatisfação com as políticas para os trabalhadores na ponta dos serviços de entrega da companhia está começando a subir na hierarquia. 

 

Há cinco e anos e meio na Amazon, o executivo de 64 anos é um programador renomado e tinha um cargo elevado. Acima dos VPs estão apenas vice-presidentes sêniores e o CEO. 

Bray se revoltou com a demissão de Christian Smalls, funcionário de um armazém em Staten Island que se tornou símbolo da insatisfação de trabalhadores de empresas de ecommerce ao liderar um protesto em março. 

O executivo também repudiou a demissão de duas designers experientes da Amazon, Maren Costa e Emily Cunningham, que lideraram uma petição interna pedindo que a Amazon expandisse benefícios como licença paga em caso de doenças e auxílio-creche também para os trabalhadores dos galpões da companhia. 

A Amazon disse que demitiu os funcionários por violações das políticas da companhia e não pelo ativismo, mas os demitidos dizem acreditar que se tornaram alvos por cobrar a empresa. 

“As vítimas não foram entidades abstratas, mas pessoas reais”, disse Bray. “Tenho certeza que é apenas uma coincidência que todos eles sejam pessoas de cor, mulheres ou ambos. Certo?”, ironizou. 

Ponta do iceberg

No longo post em que justifica o pedido de demissão, Bray afirmou que a Amazon vem tomando medidas para proteger os funcionários dos armazéns de contaminação em meio à pandemia, mas que os protestos dizem respeito a uma discussão muito maior. 

“No fim do dia, o problema não são as especificidades da resposta à covid-19. É que a Amazon trata os humanos nos galpões como unidades fungíveis na engrenagem de coletar e empacotar as mercadorias”, apontou.  “A Amazon é excepcionalmente bem-gerida e tem demonstrado grande capacidade em identificar oportunidades e construir processos repetíveis para explorá-las. E tem uma falta de visão correspondente sobre os custos humanos de crescimento e acumulação de riqueza e poder infindáveis”. 

Bray apontou ainda a diferença no tratamento entre os trabalhadores qualificados do escritório, como os programadores, e os funcionários do chão do centro de distribuição. 

“A AWS [divisão de serviços na nuvem]  trata seus trabalhadores de forma humana, incentiva o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, se esforça para mover a agulha da diversidade e é uma organização ética”,  diz, destacando que isso só acontece porque os funcionários têm poder. “O salário médio é alto e qualquer um que esteja infeliz pode atravessar a rua e conseguir um outro emprego pagando o mesmo ou mais.” 

Por outro lado, disse Bray, os funcionários dos centros de distribuição estão cada vez mais fracos, especialmente com o desemprego em massa por conta do coronavírus. 

“Se não gostamos de certas coisas que a Amazon está fazendo precisamos colocar muros de contenção legais para impedi-la de fazer essas coisas. Não precisamos inventar nada novo: uma combinação de antitruste, salário mínimo e legislação pró-trabalhador, rigorosamente aplicada, oferece um caminho claro à frente”. 

Ativista climático 

Ativista climático, Bray já vinha rezando fora da cartilha de discrição pública que normalmente se aplica à alta cúpula das empresas. 

Ele foi o único VP da Amazon a assinar uma carta aberta juntamente com milhares de funcionários de mais baixo escalão no ano passado, pedindo que o CEO Jeff Bezos tomasse medidas para reduzir o impacto ambiental da companhia.. 

Maren Costa e Emily Cunningham, demitidas no mês passado, estavam na organização dessa iniciativa, batizada Amazon Employees for Climate Justice (AECJ). Quatro meses depois de seu lançamento, em setembro, a Amazon se comprometeu a neutralizar suas emissões até 2040. 

“Não é como se os ativistas tenham sido recompensados por seu pensamento; na realidade eles foram ameaçados de demissão”, disse Bray. 

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