Movimento ‘Redefina o Capitalismo’ quer fazer o mainstream econômico ir do discurso à prática

Iniciativa global em defesa do capitalismo de stakeholders chega ao país com campanha nas redes sociais, projeção na Paulista e 'kit de conversão' para apoiar empresas

 

Embalada pela pandemia, a defesa de um capitalismo inclusivo e preocupado com a emergência climática passou a fazer parte do discurso de nove entre dez lideranças do mundo dos negócios nos últimos meses. 

A pergunta que se coloca é: E agora?  

Com o objetivo de conscientizar empresas e sociedade e transformar o discurso em ações que passem a ser de fato incorporadas às práticas dos negócios, um conjunto de organizações como B Lab, The B Team, Just Capital e Conscious Capitalism, criou a coalizão Imperative 21 e lançou a campanha ‘Reset Capitalism’.

A coalizão reúne 72.000 empresas em 80 países e 150 setores. Juntas, elas têm mais de 20 milhões de funcionários, U$ 6,6 trilhões em receitas e U$ 15 trilhões em ativos sob gestão. E conta com patrocinadores de peso, como a Fundação Ford e a Fundação Skoll, do bilionário Jeffrey Skoll, um do fundadores do eBay.

Lá fora, o movimento foi lançado no início desta semana, com um anúncio no Wall Street Journal e projeções em vídeo feitas no telão da bolsa Nasdaq, na Times Square, e da LSE, na Citi londrina.

A campanha chega hoje ao Brasil traduzida como “Redefina o Capitalismo”, trazida pelas mãos do Sistema B e da rede Capitalismo Consciente, ambas organizações que trabalham pela disseminação do capitalismo de stakeholders. 

“O maior objetivo é fazer com que a nova economia, o capitalismo de stakeholders e os negócios de impacto se tornem o mainstream. Esperamos grandes empresas engajadas para podermos começar um sólido diálogo sobre o novo capitalismo no Brasil”, diz Francine Lemos, diretora executiva do Sistema B Brasil.

O apelo se dá exatos 50 anos depois de o economista Milton Friedman afirmar que a responsabilidade social dos negócios é a maximização do lucro, conceito que imperou nas últimas décadas e que hoje está em xeque.

A campanha para impulsionar as mudanças por parte das companhias e mercado de capitais será mais forte nas redes sociais e os temas de destaque serão inclusão, equidade de gênero, mercados livres e justos, práticas ambientais regenerativas e distribuição de poder.

Hoje e amanhã, um vídeo nos mesmos moldes do exibido em Nova York será projetado em São Paulo, no cruzamento entre as avenidas Paulista e Consolação. 

Como parte das ações no país, a B3, uma das apoiadoras, promoverá o B3 Convida, webinar sobre o tema para atingir empresas e agentes de mercado.  

Como o mercado de capitais é quem direciona o fluxo do dinheiro, é dele que o Imperative 21 mais quer chamar a atenção. E, por aqui, o Sistema B recrutou empresas da sua própria base como porta-vozes: Sitawi, Dengo, AzQuest, Wright, Reserva, Fama, Grupo Gaia, Avante e Bresco.

Além da B3, Instituto Ethos e Rede Brasil pelo Pacto Global são apoiadores institucionais da campanha.

Kit de conversão’

As empresas que se aproximarem da coalizão terão acesso a uma espécie de ‘kit de conversão’ com opção de três ferramentas gratuitas para fazer um diagnóstico de seu impacto social, ambiental e de governança.

O primeiro instrumento é o B Impact Assessment, questionário elaborado pelo Sistema B para auxiliar as empresas a identificarem que impacto estão gerando para além dos produtos que vendem. São analisadas as esferas de governança, trabalhadores, fornecedores, meio ambiente e clientes.

A segunda ferramenta é o SDG Actions Management, que ajuda as companhias a analisarem seu negócio sob a ótica dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU, e assim entenderem com quais podem contribuir. Ela foi criada pelo B Lab e o Pacto Global.

A terceira é a Pesquisa Humanizadas, do Capitalismo Consciente, para identificar o grau de maturidade da liderança da empresa quanto à jornada dos negócios de impacto e capitalismo consciente.

Resultados

Um termômetro do sucesso da campanha será o aumento da base de empresas cadastradas pelo Sistema B e Capitalismo Consciente, diz Lemos. O passo seguinte será estreitar a relação com as companhias para tentar estimular as adaptações necessárias em cada uma.

Existem hoje 170 empresas certificadas como o selo B no Brasil e 5 mil registradas na base, parte delas em processo para se tornar empresas B. Lemos acredita que os números apontam uma demanda por avaliação.

No entanto, das 170 certificadas, 80% são pequenas, indicando que o ‘mainstream’ econômico ainda não está engajado.