Moss, a fintech que quer dar liquidez aos créditos de carbono (usando blockchain)

 

Amazon, Microsoft, BP, Shell: a lista de empresas com compromissos de se tornarem neutras em emissões líquidas de carbono nas próximas décadas cresce todos os dias. 

De olho nessa demanda, um brasileiro que fez carreira como gestor de fundos criou uma fintech com um objetivo ambicioso: dar liquidez e desenvolver o hoje pouco eficiente mercado de créditos de carbono voluntário.

A Moss é uma fintech ambiental, que vende créditos de carbono para pessoas físicas e para empresas de qualquer tamanho que queiram compensar suas emissões.

Com uma inovação crucial: é primeira no mundo a oferecer o ativo também para investidores que querem comprá-lo para carregar no longo prazo, para fazer dinheiro com uma potencial valorização. 

“Somos os únicos a oferecer os créditos de carbono como investimentos para pessoa física: ela compra e não tem que compensar automaticamente”, diz o fundador Luiz Felipe Adaime. “Assim como o ouro e o petróleo, o crédito de carbono é um ativo que não expira, até que você efetivamente o compense.”

A ideia é que, com mais participantes, haja liquidez e uma formação de preços mais transparente para um mercado hoje opaco. 

O que pode ser o pulo do gato da Moss é a ideia de certificar os créditos de carbono por blockchain, dando segurança ao processo. Um ‘token’ de CO2 tem como lastro um crédito de carbono.  Um crédito de carbono, por sua vez, é equivalente a uma tonelada de carbono cuja emissão foi evitada. 

“Como se trata de um ativo intangível, tem sempre uma preocupação grande de que não se venda duas ou três vezes a mesma coisa”, diz Adaime. “Com o blockchain não dá pra fazer isso, porque toda transação fica gravada.” 

A startup, que começou a operar em março, rapidamente se tornou a maior compradora de créditos de carbono do país, uma vez que o mercado é muito incipiente. 

Focada inicialmente na demanda de pessoas físicas, a Moss já transacionou 1,7 milhão de toneladas de CO2 equivalentes na plataforma. A Natura, a maior compradora do mercado brasileira, compra 300 mil toneladas ao ano.  

Esses créditos vêm de projetos florestais na Amazônia, e o dinheiro é um incentivo concreto para que os proprietários de terras e comunidades locais mantenham a florestas em pé.

A Moss acaba de fechar uma rodada seed de capital de R$ 8 milhões, que a avaliou em R$ 57 milhões. O aporte foi liderado pela Pfeffer Capital, family office de John Pfeffer, um ex-sócio da firma de private equity KKR e um dos mais ativos investidores em criptomoedas do mundo. 

A rodada contou ainda com a participação de uma dezena de investidores brasileiros, no esquema ‘family and friends’, entre eles o CEO da Dasa, Carlos de Barros, o CEO da Alicerce, Paulo Batista, e o ex-BTG e Gávea, Rafael Horta. 

“É quase um bitcoin melhorado, porque tem um lastro real. E o crédito voluntário está muito descontado em relação ao mercado regulado, uma diferença que tende a ‘fechar” com o tempo'”, diz um investidor do projeto que preferiu não ser identificado. 

Um mercado ainda incipiente

O mercado de carbono funciona de duas formas. 

Há os mercados regulados, em que governos locais determinam esquemas fechados envolvendo setores específicos. Hoje, dois terços do PIB mundial já tem algum tipo de formação de preço desse tipo, da Europa a estados americanos e canadenses, bem como províncias chinesas, que devem começar a adotá-lo neste ano. É aqui que está a maior liquidez. 

De outro lado, há os mercados voluntários, onde as empresas compensam a emissão basicamente por uma questão reputacional — leia-se pressão dos consumidores e de investidores, que cada vez mais estão cobrando uma postura em relação às questões ambientais. 

Os mercados voluntários de carbono representam apenas 70 milhões de toneladas, ou um valor de mercado de US$ 250 milhões, menos de 1% do que é negociado nos mercados regulados.

Apesar de ter as maiores florestas tropicais do mundo, o Brasil responde por uma parte pequena desses créditos: apenas cerca de 5 milhões de toneladas são certificadas no país, a grande maioria em projetos na Amazônia. 

Um relatório feito no começo do ano pela Schroders mostra que o Brasil poderia se tornar a Arábia Saudita do crédito de carbono. Segundo a gestora britânica, o Brasil poderia certificar 1,5 bilhão de toneladas por ano, 300 vezes mais que o patamar atual. 

“Mas fato é que, quando a demanda aumentar, vai ter um ‘squeeze’ muito grande”, diz Adaime, argumentando que demora cerca de três a quatro anos para certificar os créditos de carbono gerados por florestas em pé. “E como esse mercado ficou parado por muitos anos, não tem projeto vindo.” 

A aposta central da Moss é que o preço no mercado voluntários tende a subir: seja pela demanda voluntária, seja porque em algum momento haverá pressão para regulação também nos países emergentes, ou porque os mercados regulados vão começar a se abrir. 

Só entre Amazon, Microsoft e JetBlue já são 68 milhões de toneladas de carbono equivalente. É praticamente tudo o que foi negociado no ano passado. 

“Na Europa, o preço nos mercados regulados já está aumentando. Está acima de US$ 30, no ano passado era US$ 10”, diz Adaime. 

A visão não é unânime.

Investidores que conheceram o modelo de negócio e pessoas envolvidas no mercado de carbono dizem que esse salto nos preços no mercado regulado — onde a oferta e demanda são controlados — não está necessariamente contratado para o mercado voluntário, onde hoje a realidade é de sobreoferta.  

“Não está dado que a compra de crédito de carbono como investimento é interessante, porque hoje existe um excesso de oferta de crédito de carbono”, diz um gestor de um family office.

“A Moss pode estar sendo super visionária, mas a atratividade do carbono como investimento ainda não está dada”. 

Tecnologia contra burocracia

Hoje, no mercado voluntário, as negociações são feitas no mercado de balcão.  As empresas que querem compensar emissões negociam diretamente com os produtores, em processos de due diligence e certificação que não raro levam vários meses. 

É esse ineficiência que a Moss está tentando eliminar. “Pessoas e empresas de qualquer tamanho vão poder comprar créditos de CO2 e saber que tem uma due diligence por trás e uma garantia de que não há dupla contagem”, diz Adaime. 

Ele afirma que, hoje, com empresas de porte centenas de vezes maior que os vendedores, o poder de negociação sempre acaba pendendo para o lado do comprador.  “Hoje, os projetos vendem quando aparece comprador, não quando eles querem. Quando tivermos um mercado líquido, que é o que estamos tentando montar, quando o preço subir na Europa, eles iriam lá e venderiam. E iria mais dinheiro para a floresta”, diz Adaime. 

Os créditos vendidos pela Moss são certificados internacionalmente e cadastrados na Verra, a plataforma de registro global que garante que os créditos realmente correspondem a menos carbono na atmosfera. 

A fintech também tem acesso aos projetos cadastros na plataforma do Instituto Ekos, fundada por Natura e Itaú, e considerada estado da arte na seleção dos projetos. 

As oportunidades de negócio

Hoje, a Moss ganha dinheiro de duas formas. Primeiro, com o spread entre o valor pelo qual que compra os projetos na Amazônia e o valor de venda na plataforma. 

O preço é dinâmico, formado pela oferta e pela demanda da plataforma. Hoje, está em cerca de US$ 13 por tonelada equivalente de carbono. Nas ofertas primárias, em que a Moss é que abastece o mercado, sai com um desconto de 5% em relação ao preço de ‘tela’. 

Alguns investidores veem aí um conflito do modelo.

“Gostamos da tese de se posicionar no mercado voluntário de créditos de carbono e do modelo de compensação de créditos”, disse o gestor de um fundo de capital de risco que avaliou o projeto. “Mas não gostamos da ideia de que a fonte de receita da empresa é o spread financeiro em cima de um ativo que reflete algo tão sensível quanto o aquecimento global.”

Os preços variam muito, mas os projetos certificados hoje saem a algo entre US$ 4 e US$ 6 para os produtores.  A segunda fonte de receita é uma taxa de 2% sobre cada negociação, metade bancada pelo vendedor e metade pelo comprador. 

Alguns investidores sondados para o projeto ressaltam ainda algum incômodo com a postura ‘agressiva’ de Adaime, que veem como potencial empecilho para unir pontes num mercado em construção. “Ele de fato não tem papas na língua, mas essa mesma energia ele usa para fazer as coisas funcionarem”, aponta uma outra pessoa próxima.

A Moss começou mirando pessoas físicas. Mas a ideia de atuar como um marketplace é uma etapa intermediária para desenvolver o mercado, diz o fundador.

“A gente montou nosso marketplace para incentivar o mercado. Na nossa ideia, terceirizamos esse serviço mais à frente para bolsas de cripto no mundo e ficamos só na originação e venda em atacado para bolsas, distribuidoras ou grandes clientes corporativos”, diz Adaime. 

Passada a etapa mais grave da covid, ele diz que está conversando com grandes empresas. A tokenização — certificação do CO2 por meio de blockchain — permite também fracionar os créditos de carbono, o que potencialmente abriria um novo filão. 

Com isso, a Moss quer oferecer para empresas a possibilidade de compensar as emissões de carbono associados a produtos de pequeno valor. Por exemplo: ao vender um hambúrguer, uma rede de lanchonetes pode cobrar do consumidor centavos equivalentes à pegada de carbono do produto que vão para compensação. “É um ganha-ganha”, diz. 

A Moss também está criando instrumentos para difundir crédito de carbono como veículo para que as empresas possam fazer hedge, por exemplo, por meio de fundos de investimento em participação (FIP) de crédito de carbono, fundos offshore. A ideia é que qualquer fundo do mundo possa comprar créditos de carbono. 

“As emissões de carbono são um passivo potencial para as empresas, que só tende a crescer conforme os preços forem aumentando”, diz Adaime.  “As empresas espertas já estão se ligando. Eu acho que tem muita empresa empurrando com a barriga e dizendo: ‘estou no meio da crise e depois vejo isso’. Essas vão ficar para trás”.