Mineradora australiana anuncia emissões zero de sua cadeia a partir de 2040

A Fortescue Metals Group apresenta o plano mais agressivo de descarbonização do setor — e o impacto poderá ser sentido no Brasil

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A australiana Fortescue Metals Group (FMG) assumiu nesta segunda-feira o mais ambicioso compromisso de redução de emissões de uma mineradora até agora. A empresa anunciou a intenção de produzir ferro inteiramente “verde” até 2040 – e a notícia pode ter impacto também no Brasil.

A FMG pretende zerar suas emissões de escopo 3, ou seja, as de sua cadeia de valor, incluindo seus clientes. Isso quer dizer que as siderúrgicas que utilizarem o minério de ferro da Fortescue Metals também terão que produzir aço sem despejar CO2 na atmosfera, certamente o maior desafio da cadeia da mineração.

A companhia, terceira maior mineradora da Austrália, já havia anunciado a meta de zerar as emissões de escopo 1 e 2 (decorrentes de suas próprias operações e do uso de energia) até 2030.

“A Fortescue iniciou a transição de uma pura produtora de minério de ferro para uma empresa de recursos verdes e renováveis”, afirmou Elizabeth Gaines, CEO da FMG.

O plano envolve o uso de hidrogênio verde para a descarbonização de seus processos internos e também os de seus clientes, além das frotas que transportam o minério de ferro.

A siderurgia é responsável por 7% a 9% das emissões de todas as emissões de CO2 do planeta relacionadas à queima de combustíveis fósseis e por mais de 95% das emissões de escopo 3 das mineradoras.

Para atingir o objetivo de zerar essas emissões, a FMG tem dois obstáculos. O primeiro é a adoção de novas tecnologias de produção por parte de seus clientes.

Em vez do processo tradicional, que envolve a queima de carvão mineral (coque) em altos-fornos, o ferro verde pode ser pode ser derretido em fornos elétricos, alimentados por energia renovável.

Outra alternativa é um processo que usa hidrogênio verde em vez de coque para fazer a redução do ferro e, portanto, não gera novas emissões. A técnica é conhecida como redução direta, ou DRI.

Mas a também australiana BHP estima que pelo menos até 2050 mais da metade do aço produzido no mundo envolverá a queima de carvão, pois muitas usinas são recentes e não haveria sentido econômico em abandoná-las. E tanto a tecnologia que substitui o carvão pelo hidrogênio quanto a dos fornos elétricos ainda estão em fase de plantas-piloto.

Para cumprir a meta, a FMG também dependerá de uma abundância de hidrogênio verde, ou H2V. Para isso, a empresa criou a subsidiária Fortescue Future Industries, cuja ambição é se tornar a primeira grande produtora global desse novo vetor energético.

É aí que entra a oportunidade para o Brasil.

A principal fonte de H2V é a eletrólise da água – com o uso de energia limpa. Os planos anunciados da FFI preveem a produção de 15 milhões de toneladas de H2V daqui dez anos.

Mas não há eletricidade suficiente na Austrália – muito menos de fontes renováveis – para chegar a esse total. A companhia assinou em julho um memorando de entendimento com o governo do Ceará para avaliar a viabilidade de uma usina de produção de H2V no Porto de Pecém. O investimento pode chegar a US$ 6 bilhões. A empresa também explora a produção na Índia.

Na liderança

Os compromissos anunciados pela Fortescue Metals são muito mais agressivos do que suas duas grandes concorrentes locais, BHP e Rio Tinto.

As duas companhias deveriam “ter vergonha de ser ultrapassadas por uma empresa que elas chamavam de ‘mineradora júnior’”, disse ao Financial Times Dan Gocher, diretor do grupo de acionistas ativistas Australasian Centre for Corporate Responsibility. “Está na hora de BHP e Rio Tinto anunciarem metas vinculativas para suas emissões de escopo 3.”

A Vale, terceira maior mineradora do mundo, anunciou em dezembro do ano passado a meta de reduzir em 15% as emissões de sua cadeia de valor até 2035, tomando como base os números de 2018.

A meta passará por uma revisão em 2025 e, então, a cada cinco anos. Hoje, o escopo 3 corresponde a 98% das emissões da Vale. Quanto aos escopos 1 e 2, a empresa anunciou a meta de reduzi-las em 33% até 2030, o que vai demandar investimentos de US$ 6 bilhões.

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