Metas ‘net zero’ de 25 empresas não entregam o que prometem, diz estudo; Vale e JBS entre elas

Análise dos planos, que incluem Apple, Google e Walmart, mostra que redução das emissões de CO2 ficaria em 20%

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Os compromissos de atingir o chamado ‘net zero’ em emissões de carbono de 25 das maiores e mais conhecidas empresas do mundo – entre elas as brasileiras JBS e Vale – são vagos, ambíguos e embutem promessas falsas, segundo uma análise divulgada hoje.

Em outras palavras, não entregam nem o ‘net’ e nem o ‘zero’.

O documento, de autoria de entidades independentes respeitadas por quem entende do assunto, a New Climate Institute e a Carbon Market Watch, faz uma leitura detalhada e extremamente crítica dos compromissos corporativos anunciados pelas grandes corporações.

As 25 companhias analisadas, que incluem nomes como Apple, Google e Walmart, tiveram receita combinada de US$ 3,2 trilhões em 2020. Suas emissões de CO2, incluindo toda a cadeia de valor, representam cerca de 5% do total global despejado na atmosfera.

 

Numa análise das 13 companhias que apresentaram planos mais detalhados de descarbonização, a redução de emissões seria de 40% em média, afirmam os autores, muito longe dos 100% propalados na comunicação corporativa.

Quando se considera o conjunto completo das 25, a redução ficaria em 20% (cada companhia determina um horizonte diferente para seus compromissos).

Batizado de Corporate Climate Responsibility Monitor, o levantamento classifica as empresas de acordo com a transparência e a integridade de suas promessas.

Nenhuma delas entrou na categoria “alta integridade”. A mais bem colocada, a transportadora marítima Maersk, foi a única cujos planos foram considerados “razoavelmente íntegros”.

Na sequência vêm Apple, Sony e Vodafone (integridade moderada). Dez foram avaliadas como de “baixa integridade”, incluindo a Vale, e onze, como “muito baixa integridade”, grupo que inclui a JBS.

“À medida que aumenta a pressão sobre as empresas para agir, as afirmações ambiciosas e grandiosas muitas vezes não têm substância, o que pode enganar consumidores e reguladores”, afirma Thomas Day, principal autor do estudo.

O documento é sinal de uma transformação inevitável: a mudança climática é urgente, e haverá cada vez menos tolerância para greenwashing.

“Vejo também uma relação com o anúncio na COP26 de uma força-tarefa para avaliar os compromissos privados”, diz Natalie Unterstell, especialista em negociações climáticas e fundadora do instituto Talanoa.

Questão de escopo

Um dos principais problemas apontados pelo estudo é a inconsistência dos planos para descarbonizar o chamado escopo 3, que inclui as emissões upstream (fornecedores) e downstream (clientes).

Essas emissões de terceiros que integram a cadeia de valor das empresas tipicamente compõem a maior parte da pegada de carbono de uma empresa.

No caso das 25 estudadas, o escopo 3 é responsável em média por 87% das emissões de gases de efeito estufa.

Só três empresas têm planos divulgados que incluem a descarbonização de mais de 90% de suas cadeias.

Uma das recomendações dos autores é justamente proibir termos como “net zero” e “neutralidade de carbono”, já que elas em geral são acompanhadas por ressalvas técnicas e raramente se referem à eliminação completa da pegada ambiental das cadeias de valor.

O problema é que existe ainda muita confusão – por vezes intencional – no uso dos termos e desenho das promessas.

Uma coisa é buscar a neutralidade em carbono reduzindo efetivamente as emissões próprias e da cadeia de valor e deixando para compensar com a compra de créditos de carbono apenas aquilo que não é possível diminuir, seja por uma questão de indisponibilidade tecnológica ou porque um plano traçado está sendo executado. Outra coisa bem diferente é usar e abusar das compensações, enquanto se marqueteia o ‘net zero’.

Em outubro foi divulgado um padrão para tentar ordenar os compromissos de net zero.

Leitura implacável

A análise foi precipitada pela aceleração exponencial dos compromissos públicos assumidos pelo mundo corporativo.

Mais de 3.000 empresas aderiram à campanha Race to Zero, da ONU, até janeiro deste ano. O número de participantes dobrou de 2020 para 2021.

O desejo de mostrar-se engajado na luta contra a mudança climática, “mais a fragmentação das abordagens e a falta de regulação ou supervisão, significam que nunca foi tão difícil distinguir entre liderança climática de verdade e greewashing sem fundamento.”

“Avaliar integridade é uma certa novidade”, afirma Unterstell. “Todo mundo fala em ambição, mas quanto você vai de fato entregar do que prometeu?”

No limite, acredita ela, os planos de descarbonização podem incluir responsabilizações judiciais.

Nem sequer as organizações que orientam e avaliam os esforços das grandes empresas escapam dos autores do levantamento.

Ao definir padrões amplamente aceitos e também fazer a avaliação das companhias, efetivamente dando “carimbos de qualidade”, CDP (antigo Carbon Disclosure Project) e SBTi (Science Based Targets initiative) estão sujeitos a potenciais conflitos de interesse, na visão dos autores.

A maioria dos 18 planos de descarbonização que receberam a chancela da SBTi foi classificada de “controversos ou imprecisos”.

Nem todo mundo concorda com essa parte. Para um especialista brasileiro, as autoras do estudo trabalham com ciência e seus dados são respeitados, mas há um certo ativismo exagerado no ataque a SBTi e CDP.

As brasileiras

Das duas companhias brasileiras incluídas no levantamento, a Vale teve a avaliação menos negativa. A mineradora prometeu neutralidade de carbono em 2050, mas a meta inclui apenas os escopos 1 e 2, ou 2% das emissões totais associadas ao negócio (98% são de escopo 3).

A empresa prometeu reduzir em 15% as emissões da cadeia de valor até 2035, mas, para os autores, ainda não há clareza de como se darão essas reduções.

O uso de créditos de carbono e soluções baseadas na natureza, parte da estratégia da Vale, é criticado no levantamento – e potencialmente o ponto mais controverso da análise.

O maior problema apontado pelos autores diz respeito à qualidade dos “offsets”. Eles podem ter problemas de permanência, por exemplo.

Técnicas que usam árvores ou o solo podem ser impermanentes (florestas podem ser derrubadas de novo no futuro).

Também há variações na qualidade dos projetos e na contabilidade das emissões evitadas ou sequestradas.

O documento sugere uma avaliação rigorosa dos projetos que podem ser usados para compensação por empresas, sugerindo uma abordagem de procurar somente a “high-hanging fruit”.

Isso significa apenas financiar projetos que estejam “inteiramente fora do alcance dos países” que os hospedam no curto e médio prazo.

Iniciativas que hoje são utilizadas para fazer offsetting deveriam ser consideradas “contribuições climáticas”, uma espécie de política filantrópica e voluntária das companhias.

Walmart e Maersk são duas empresas que fazem investimentos sem os respectivos abatimentos de suas metas corporativas.

Na lanterninha

O frigorífico JBS figura entre as mais mal avaliadas do Climate Corporate Responsibility Monitor, com nota “muito baixa” em termos de integridade e transparência.

A promessa de neutralidade em 2040 deixa de fora 97% das emissões na cadeia da empresa, incluindo aquelas associadas ao desmatamento por parte de suas fazendas fornecedoras, afirma o estudo.

A JBS também só contabiliza a fermentação entérica (o arroto do gado) de suas operações próprias. O metano – um dos gases mais potentes do aquecimento global – gerado em propriedades dos fornecedores não é contabilizado.

“A empresa continua a crescer numa indústria intensiva em gases do efeito estufa; não encontramos evidências de medidas planejadas para uma descarbonização profunda”.

A resposta das empresas

A Vale emitiu um comunicado sobre o levantamento:

“A Vale considera que, para uma próxima edição do estudo, os autores poderiam complementar suas análises com qualificação dos desafios dos setores dos quais as empresas fazem parte. A mineração e a siderurgia são reconhecidamente setores hard-to-abate, cuja trajetória de descarbonização é pautada pelo alto grau de incerteza nas rotas tecnológicas e alto custo.”

“A meta de net zero da empresa, que engloba escopos 1 e 2, está tecnicamente alinhada com as diretrizes da SBTi e pressupões apenas iniciativas de redução de emissão – não considera offsetting. A companhia foi uma das primeiras a estabelecer uma meta quantitativa de redução das emissões de escopo 3, também baseada nos requisitos da SBTi, com apenas a diferença de permitir utilização marginal de offsets.”

“O uso de Soluções Baseadas na Natureza para compensar eventuais emissões residuais que não poderão ser abatidas por meio de soluções tecnológicas está condicionado aos avanços nas discussões da implementação de um mercado global de carbono, com regras previsíveis e confiáveis, a partir das discussões já iniciadas com a regulamentação do Artigo 6 do Acordo de Paris.”

Leia a íntegra da posição da Vale aqui.

A JBS afirma:


“A JBS foi a primeira empresa global do setor de proteínas a assumir um compromisso Net Zero 2040, dez anos antes do prazo usualmente assumido ao redor do planeta. Já estabelecemos marcos importantes em nossa jornada em direção ao Net Zero.” 

“A companhia acredita que o relatório Corporate Climate Responsability Monitor 2022 e sua metodologia induzem a erro. O compromisso Net Zero da JBS foi formalmente aceito em 2021 pelo Science-Based Targets initiative (SBTi), que define e promove as melhores práticas no estabelecimento de metas climáticas. A JBS se comprometeu a fornecer seu plano de metas coerente com os critérios estabelecidos pelo SBTi, contemplando as emissões de escopos 1, 2 e 3, inclusive aquelas ao longo de sua cadeia de valor de carne bovina no Brasil.”

(Atualizado às 10h17 para inclusão da resposta da Vale e às 10h55 para incluir a resposta da JBS.)

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