Marfrig vira ‘baixo risco’, mas cadeia do boi ainda é ponto cego para brasileiros, dizem investidores

Minerva vai de 'alto' para 'médio risco', mesma classificação de JBS e BRF em ranking da FAIRR, associação que reúne investidores com US$ 45 tri

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Os frigoríficos brasileiros estão avançando nas medidas anunciadas de respeito aos critérios ESG – mas ainda há muito a fazer. É o que aponta a mais recente edição do ranking da FAIRR Initiative, uma associação global de investidores que analisa as políticas ambientais, sociais e de governança de companhias de capital aberto do setor de proteínas animais.

O maior destaque entre as quatro brasileiras que fazem parte do ranking foi a Marfrig, que passou para o grupo das companhias de “baixo risco”. A empresa ocupa a quinta colocação geral e é a segunda entre os frigoríficos, atrás apenas da canadense Maple Leaf Foods.

Em seguida vêm BRF (9ª colocação), JBS (11ª) e Minerva (25ª), que passou de “alto risco” para “risco médio”, mesma classificação de BRF e JBS.

Ganhar posições no ranking é uma boa notícia, mas é preciso considerar que 87% das 60 analisadas receberam nota melhor este ano em comparação com 2020, um sinal inequívoco de que o tema é uma das grandes prioridades do setor. Somente quatro empresas retrocederam.

 

“Os frigoríficos brasileiros estão finalmente respondendo ao crescente escrutínio do mercado, com compromissos mais ambiciosos e investimentos, mas a performance ainda é desigual”, afirma o relatório.

Nenhum produtor brasileiro de carne bovina consegue rastrear integralmente o ciclo de vida completo do gado, diz a análise da FAIRR, e a estimativa é que o monitoramento atual “não cubra de 85% a 90% do desmatamento” associado às suas atividades.

Os três grandes brasileiros já anunciaram prazos para zerar o desmatamento, mas rastrear a cadeia completa, do bezerro ao abate, ainda é um desafio difícil para a indústria.

O arroto bovino

O relatório afirma que 2021 foi o ano do metano. O gás de efeito estufa (GEE) é produzido naturalmente no processo digestivo do gado e tem participação importante nas emissões de escopo 1 da indústria da carne.

As quatro companhias brasileiras do ranking reportam as emissões discriminadas por tipo de GEE. Mais de três quartos das emissões diretas da Minerva são de metano, pois 100% das receitas da empresa vêm de carne bovina. A porcentagem do gás fica em cerca de 55% no caso da Marfrig, cerca de 50% no caso da JBS e pouco acima dos 30% para a BRF.

O Brasil e outros cem países assinaram um pacto para reduzir as emissões de metano em 30% até 2030, em comparação com 2020. Ainda não se sabe que tipos de regulamentação podem resultar desse compromisso, mas a FAIRR afirma que somente a JBS já fala em alinhar investimentos com objetivos específicos por GEE.

O metano, ou CH4, tem o potencial de contribuir 80 vezes mais para o aquecimento do planeta em comparação com o CO2. Mas ele fica menos tempo na atmosfera e, portanto, tornou-se um ponto central na luta contra a mudança climática.

Existem alternativas para mitigar o problema – de mudanças na ração a abate antecipado ­–, mas por enquanto nenhuma dessas soluções dá conta de todas as emissões de CH4 e tampouco comprovaram sua viabilidade econômica em grande escala.

Outro problema relacionado ao metano é o estrume. As fezes dos 70 bilhões de animais abatidos anualmente correspondem ao dobro do total produzido pela população humana.

“Os governos tipicamente têm regulações rigorosas para os dejetos humanos. Mas fazendas industriais e dos abatedouros operam em grande parte sem regras”, diz o levantamento. 

“As falhas de gestão de metano de estrume sublinham a crescente sensação no mercado de que as vacas são o novo carvão”,  afirmou num comunicado Jeremy Coller, presidente da associação.

(Uma possível explicação para a comparação exagerada é que Coller é vegetariano desde a infância.)

Sob a lupa

É o quarto ano em que a FAIRR (sigla para Farm Animal Investment Risk and Return) publica o relatório e  a cada edição o tema ganha mais urgência.

O ranking é elaborado com informações públicas divulgadas pelas próprias companhias e leva em conta 10 critérios, que vão de emissões de gases estufa e desmatamento a condições de trabalho e bons tratos aos animais.

Foram analisadas 60 empresas globais com ações em bolsa e um valor de mercado combinado de US$ 363 bilhões.

Mas o número mais relevante é outro: os gestores que leem o estudo administram mais de US$ 45 trilhões. Cada vez mais, o desempenho em levantamentos desse tipo será parte das decisões de investimento.

Setores que não integram o universo analisado também aparecem de forma indireta. A soja é parte essencial das operações de criação de salmão.

A associação aponta que três companhias brasileiras – CJ Selecta, Caramuru e Imcopa/Cevejaria Petrópolis – se comprometeram a vender somente grãos sem qualquer associação com desmatamento.

“Segundo a indústria, o acordo indica que a maioria dos produtores de salmão, inclusive os europeus, vão comprar soja de fornecedores brasileiros cuja cadeia seja 100% livre de desmatamento” ou de vegetações nativas convertidas para uso agrícola.

O número de empresas do ranking que dizem fazer o rastreamento da origem da soja dobrou de um ano para cá – mas elas ainda são somente dez.

“Em escala global, nossos métodos atuais de alimentar os animais impulsionam os impactos do clima. Apesar desses riscos, a maioria das empresas de proteína animal listadas continua dependendo de fontes convencionais de ração”, afirma a FAIRR.

(Crédito da foto: Andreas Klammer/Unsplash)

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