Mais ambição e menos idealização: Os conselhos de um Benchimol para investidores na Amazônia

 

A fórmula para preservar a floresta amazônica passa por uma visão mais ambiciosa e menos idealizada por parte dos investidores. A avaliação é de Denis Benchimol Minev, CEO da Lojas Bemol, uma das redes varejistas mais relevantes na região Norte e investidor de impacto. 

“Queremos um pouco mais de ambição aqui. Quando vejo investidores de impacto investindo em comunidades ribeirinhas ou indígenas, em geral estão focados em algum grau de subsistência. Quando os vejo investindo em São Paulo, estão com a ambição alta, de criar grandes empresas. Nós queremos construir essas mesmas grandes empresas aqui”, disse ele ontem durante o fórum online Impacta Mais ON, organizado por ICE, Vox Capital e ImpactHub. 

Esses negócios de proporções paulistanas se dariam “dentro de bons parâmetros ambientais”. Ele defende um empreendedorismo que “toca a floresta de forma sustentável, gentil”. Não queremos cometer os erros do passado. Não queremos que aconteça com a Amazônia o que aconteceu com a Mata Atlântica.”

Fundada em 1942, a Lojas Bemol tem 26 lojas e 18 farmácias em Manaus, Porto Velho, Boa Vista e Rio Branco. A família, que é controladora da rede, também é dona da distribuidora de gás Fogás. 

Em tempo: Minev é parente distante de Guilherme Benchimol, CEO da XP, com quem não mantém vínculos.

Família judaica de origem sefaradita vinda de Tanger, no Marrocos, os Benchimol chegaram à Amazônia por volta de 1880 atraídos pelo ciclo da borracha. Os avôs de ambos são primos, mas o ramo da família do CEO da XP deixou a Amazônia rumo ao Rio de Janeiro quando a exploração da borracha entrou em colapso. A família de Minev se fixou de vez na região e passou a empreender em outras áreas.

Se a história dos Benchimol no Brasil está intimamente ligada à floresta, Minev é pessoalmente envolvido com o tema. 

Além de ter sido ativo em fóruns climáticos internacionais dez anos atrás, como Secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Estado do Amazonas, foi confudador e presidente do conselho do Museu da Amazônia (foto) e ano atrás se converteu em investidor de impacto na região. 

Jogo de cérebros (e não de terras)

Para Minev, o resto do Brasil precisa quebrar o modelo mental que tem sobre a Amazônia. É preciso entender que “aqui há 25 milhões de brasileiros, que sonham com a prosperidade da mesma forma como brasileiros em qualquer outro lugar”. 

“Quando a gente discute empreendedorismo indígena na Amazônia, eu tenho uma tristeza de relatar que todo mundo pensa em artesanato.” A função é nobre, diz Minev, mas não existe chance de explorar todas as descobertas científicas que a Amazônia pode proporcionar sem capacitação. “Esse é um jogo de cérebros, não de terra.”

E sugere que o desenvolvimento e a preservação da Amazônia sejam abordados sob quatro aspectos, em conjunto: o social, o político, o econômico e o ambiental.

Outra frente indispensável para avançar qualquer tentativa de desenvolver a região é atacar o mal da informalidade.

Esse é, segundo ele, um grande obstáculo ao sucesso de iniciativas para estimular o empreendedorismo na floresta já em andamento e com as quais está envolvido, como a plataforma Parceiros pela Amazônia, que tem um programa de aceleração de negócios de impacto na região.

“A Amazônia é um campo de ilegalidade e informalidade. Pouca gente tem o título da sua terra, mas fora isso, pouca gente tem CPF, as empresas não têm CNPJ. Todo mundo come peixe, mas ninguém tem licença para pescar. Tudo é informal. Ter conta bancária, algo simples e básico, ainda é uma raridade aqui.”