Maior credor das Big Oil, JP Morgan vai alinhar carteira de crédito ao Acordo de Paris

Compromisso climático do banco, com meta intermediária para 2030, fecha o cerco para a indústria de combustíveis fósseis

 

Se você ainda precisava de mais um sinal de que os tempos estão mudando, está aí um cheio de superlativos. 

Maior credor mundial da indústria de combustíveis fósseis, o JP Morgan Chase se comprometeu a alinhar sua carteira de financiamento aos parâmetros do Acordo de Paris. 

Traduzindo: após anos de forte pressão de ativistas ambientais, e mais recentemente, de acionistas, o banco precisará começar a fechar o cerco em torno das petroleiras. 

O anúncio não fala exatamente em fechar a torneira para o Big Oil e metas mais concretas só devem ser divulgadas no ano que vem. 

Mas o banco já adiantou que estabelecerá objetivos intermediários de emissão para 2030 do seu portfólio de financiamento, e que terá metas setoriais para a carteira de crédito, com foco principal nos setores automotivo, de óleo e gás e energia elétrica.

O objetivo é a neutralidade de carbono até 2050.

O primeiro passo será ter dados melhores das companhias no portfólio e determinar a intensidade de carbono das operações.

“O anúncio de hoje é significativo. O maior credor da indústria de combustíveis fósseis claramente sinalizou que jogo dos combustíveis fósseis está chegando ao fim”, disse Alec Coonon, coordenador da coalizão de ONGs ambientais Stop The Pipeline, em nota.

“Contudo, se realmente está levando a sério seus compromissos ambientais, precisa rapidamente ter políticas que proíbam todos os empréstimos para empresas de carvão e outras empresas que ainda estão aumentando a produção de combustíveis fósseis”.

Por livre e espontânea pressão

A mudança vem na esteira de uma forte pressão dos acionistas. No começo do ano, numa vitória dos investidores voltados a práticas ESG, o banco se comprometeu a substituir Lee Raymond, o antigo CEO da Exxon Mobil que era o ‘lead independent director’ do seu conselho de administração. 

Desde a assinatura do Acordo de Paris, no fim de 2015, até o fim do ano passado, o JP Morgan concedeu US$ 269 bilhões em crédito para a indústria de combustíveis fósseis, de acordo com o relatório Banking on Climate Change, produzido pela ONG americana Rainforest Action Network. 

O banco lidera com folga a lista, seguido por Wells Fargo, com US$ 197 bilhões, e Citi, com US$ 187 bilhões. 

O JP Morgan se comprometeu também a neutralizar as emissões próprias de carbono, dos chamados Escopo 1 e 2, mas que, no caso dos bancos, são irrisórias quando comparadas àquelas geradas pelos projetos que financiam. 

O banco é liderado por Jamie Dimon, o chairman do Business Roundtable, associação que reúne as principais empresas americanas que divulgou um icônico manifesto no ano passado dizendo que o lucro não era mais o principal objetivo dos negócios, mas sim a geração de valor englobando todos os stakeholders, além dos acionistas. 

Chegando atrasado

A iniciativa do JP Morgan também se segue a uma série de outros pledges climáticos por parte do setor financeiro — mas sua magnitude no financiamento do setor de combustível fóssil dá peso à decisão, ainda que tardia. 

No ano passado, um grupo de 38 bancos, principalmente na Europa, incluindo Santander, Société Générale e Natixis, anunciou sua intenção de cortar as emissões ligadas ao portfólio de crédito. 

Em julho deste ano, firmas como Morgan Stanley, Citi e Bank of America se juntaram a uma rede de colaboração internacional para padronizar a contabilidade de carbono para o setor financeiro. 

O Morgan Stanley também se comprometeu a tornar sua carteira de empréstimos neutra em carbono até 2050, mas não deu nenhuma meta intermediária.