Lobby dos fósseis barra ‘xerife’ do clima no Fed

Indicada de Joe Biden prometia endurecer as regras relacionadas ao ambiente no setor financeiro americano

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Não foi exatamente uma surpresa. Joe Manchin, democrata cuja família ganhou dinheiro com carvão e maior recebedor de doações do lobby dos combustíveis fósseis na última campanha, efetivamente barrou a nomeação de uma “xerife do clima” para a vice-presidência de supervisão do Fed.

Indicada de Joe Biden, Sarah Bloom Raskin defendia que o banco central americano atuasse de forma mais firme na supervisão dos riscos climáticos para o sistema financeiro e para a economia.

Mas, com a deserção de Manchin, presidente americano foi obrigado a retirar o nome de Raskin de consideração pelo Senado.

A falta de consenso em relação a Raskin estava impedindo a votação da diretoria do Fed, incluindo a confirmação de um novo mandato para seu presidente, Jerome Powell.

 

Pressionado pela inflação crescente e pelas incertezas trazidas pela guerra da Ucrânia, Biden não podia mais barganhar.

Na prática, isso significa que o banco central mais poderoso do mundo vai continuar “voluntariamente cego”, como escreveu a jornalista Jane Mayer na New Yorker, em relação ao caos iminente que pode decorrer da mudança climática.

“Lidar com a transição da economia diante dos efeitos da mudança climática é crítico para a prosperidade americana”, escreveu Raskin na carta em que anunciou sua desistência.

“Como a vasta maioria dos reguladores financeiros e bancos centrais nos Estados Unidos e no mundo, reconheço esses fatos.” O poderoso lobby do petróleo foi responsável por “ataques implacáveis” contra seu nome, disse a advogada.

A ideia de uma presença mais atuante do estado na economia sempre dividiu republicanos e democratas. Misturando meio ambiente, abriu-se um abismo.

As opiniões de Raskin eram muito claras. Num artigo publicado no ano passado, antes de ser indicada para a vice-presidência de supervisão do Fed, ela escreveu: “As maiores ameaças do aquecimento global ainda podem ser mitigadas, mas apenas se os reguladores americanos abandonarem alguns maus hábitos”.

Uma das medidas esperadas sob sua gestão seria um aumento das reservas de capital dos bancos de acordo com sua exposição aos riscos do clima.

Não se trata de ideias novas ou radicais, como afirmou ela em sua carta ao presidente. “Uma vice-presidente de supervisão que ignore essas realidades [da urgência do clima] – manifestas todos os dias neste país – estaria cometendo uma grave negligência.”

Pat Toomey, mais graduado republicano na comissão bancária do Senado, afirmou que a rejeição de Raskin envia uma mensagem poderosa. “Não é papel [do Fed] alocar capital ou afastar-se de sua missão a fim de perseguir objetivos políticos ou estranhos à sua natureza.”

Queda de braço

Analistas ouvidos pela agência Reuters acreditam que os pontos essenciais da agenda democrata, incluindo maior atenção a riscos sistêmicos resultantes da mudança climática, seguirão inalterados. Mas a ausência de um nome forte, com a chancela do Congresso, pode tirar força do regulador.

A expectativa é que o Fed faça uma análise minuciosa da adequação das instituições financeiras no ano que vem.

Mas, como mostra a experiência europeia – que lidera o mundo nas tentativas de criar ferramentas regulatórias que associem clima e finanças –, a tarefa não é simples.

Na segunda-feira, o Banco Central Europeu afirmou que os 109 bancos sob sua supervisão estão criando apenas “ruído branco”, sem contribuir com dados substanciais para a compreensão do problema.

O BCE disse que as instituições têm de “agir de forma decisiva” depois de constatar que nenhuma delas respondeu de forma satisfatória aos questionamentos sobre riscos climáticos.

Três de cada quatro bancos não informaram se fatores ambientais podem ter “impacto material em seus perfis de risco”. E somente 15% deles divulgaram dados sobre as emissões das companhias que eles financiam.

“Estamos prontos para usar o arsenal completo de ferramentas de supervisão à nossa disposição para garantir que as divulgações estejam à altura dos nossos padrões”, disse um integrante do comitê executivo do BCE.

Uma das consequências pode ser a divulgação pública dos recalcitrantes.

Sem informações de qualidade, o teste de estresse previsto para o segundo semestre pode não dar os resultados esperados.

A simulação vai incluir possíveis cenários de curto prazo ­–como aumento do preço do carbono e desastres naturais ­– além de mudanças num horizonte mais distante, em que a temperatura do planeta suba 3°C até 2080.

Embora não esteja prevista uma mudança nos requerimentos de capital dos bancos em decorrência direta do teste, essa é uma medida considerada inevitável no futuro.

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