JGP se une a WWF em crédito para agrofloresta

De olho em créditos de carbono premium, FIDC com recursos do BNDES que escalar financiamento para restauração de áreas degradadas

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Uma das gestoras mais ativas na originação de produtos financeiros verdes, a JGP está criando uma plataforma para financiar a transformação de áreas degradadas em agroflorestas em diversos biomas brasileiros, em parceria com a WWF. 

A ideia é viabilizar crédito, hoje escasso – ou quase inexistente –, para uma atividade que consome bastante capital na entrada e normalmente começa a dar retorno apenas após o terceiro ano de investimento. Além da venda de produtos associados à produção agrícola, o retorno virá na forma de créditos de carbono.

Batizada de Multibiomas, a plataforma nasce a partir de um FIDC de cerca de R$ 80 milhões, dos quais R$ 20 milhões vieram do BNDES

Trata-se de um mecanismo de ‘blended finance’, em que os recursos do banco de fomento entram a fundo perdido tanto para prover assistência técnica necessária aos produtores quanto na forma de como cotas subordinadas, sustentando as primeiras perdas e diminuindo o risco da operação. 

 

Os R$ 60 milhões adicionais serão captados com investidores de mercado.

“Tem um interesse grande de investidores por operações desse tipo, especialmente porque estamos falando da geração de créditos de carbono de qualidade, que estão sendo cada vez mais demandados por empresas sérias para cumprir seus planos de net zero”, afirma José Pugas, head de ESG da JGP. 

Esse primeiro FIDC deve servir de catalisador para uma série de projetos de restauração e reflorestamento, num modelo “de cascata”, diz o executivo. O Multibiomas poderá entrar como investidor de outros instrumentos financeiros, Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), viabilizando outras iniciativas de restauração. 

“Nesse modelo, R$ 20 milhões de capital concessional BNDES, pelos nossos estudos, podem mobilizar até outros R$ 200 milhões”, diz. 

Num primeiro momento, a gestora tem um projeto piloto de 800 hectares na Amazônia que, se bem sucedido, pode ser escalado para 11 mil hectares em área contínua. Há ainda outro projeto no Pantanal de 400 ha que podem ser expandidos para 20 mil ha. 

Ao todo, no pipeline prospectivo apresentado ao BNDES estão 50 mil hectares, dos quais 60% na Amazônia, 30% na Mata Atlântica e 10% no Cerrado. 

Capital paciente

Além dos juros, os investidores do Multibiomas terão direito a receber parte do retorno em créditos de carbono a partir do quinto ano de operação. “O crédito de carbono no fim das contas serve como gatilho para a permanência do capital”, afirma Pugas. 

O crédito concedido pelo FIDC tem prazo de 10 anos – a partir desse período, todo o carbono gerado, normalmente em contratos de 30 anos, fica para os produtores. 

Parte do que será recebido com os títulos de redução de gases de efeito estufa volta para as cotas subordinadas, reciclando e perpetuando o capital concessional para novas iniciativas. 

A gestora está apostando na geração de créditos de carbono de alta qualidade para conseguir preços premium no mercado. 

Isso envolve tanto a garantia de integridade dos créditos – isto é, que eles efetivamente estão sequestrando gases de efeito-estufa – quanto a geração de benefícios sociais e outros benefícios ambientais, como promoção da biodiversidade e segurança hídrica. 

“Restauração custa caro. Uma restauração bem feita, na Mata Atlântica, é R$ 44 mil por hectare. Na agrofloresta, custa de R$ 80 mil a R$ 100 mil por ha, dependendo se for irrigada ou não”, diz Pugas. “Mas há um grande interesse, especialmente de multinacionais, em garantir bons créditos de carbono, sem riscos reputacionais, e isso viabiliza o retorno.”

A JGP já está em conversas com empresas interessadas em fechar contratos de pré-compra para garantir a oferta dos créditos. 

Para dar o conforto do lado ambiental, a WWF vai entrar como gestora de um fundo filantrópico de R$ 5 milhões que vai fazer a parte de assistência técnica aos produtores. Além disso, a ONG será responsável pela gestão de impacto do fundo e pelo relacionamento com as comunidades. 

A consultoria Nint vai monitorar os indicadores de impacto e dará os pareceres de segunda opinião. 

Outra exigência do Multibiomas é que a venda dos créditos seja feita apenas para empresas que tiverem planos de net zero aprovados ou ao menos submetidos ao Science Based Target Initiative (SBTi), que garante que as metas contribuem de fato para conter o aquecimento global. 

Trata-se de uma salvaguarda para garantir que as empresas não utilizem os créditos de compensação de forma indiscriminada e tenham iniciativas para reduzir as emissões próprias. 

“Se a gente quer criar uma empresa global de carbono, vai ter que criar um padrão mínimo de qualidade do carbono”, afirma Pugas. 

Propriedades elegíveis

O Multibiomas vai atuar com três modelos de propriedade. 

O primeiro modelo é de pequenos produtores que têm áreas degradadas ou querem transformar seus modelos em produção agroflorestal. Nesse caso, eles são elegíveis se fazem parte de uma cadeia de fornecimento de alguma grande empresa que pode atuar como fiadora no processo. 

No caso de grandes propriedades, o fundo opera num modelo de joint-venture. A JGP opera a dívida, traz o operador agroflorestal e entra como sócia do dono da terra. Há ainda a possibilidade de compra de terras – mas nesse caso sempre com um regime de parceria com a comunidade local e os produtores que operam por lá.

A nova plataforma é uma evolução do mecanismo criado para integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), operada pela JGP desde 2020. 

“Percebemos que nesse modelo muitas vezes há resistência dos produtores de adotar o modelo de agrofloresta, e a integração ficava restrita a lavoura e pecuária”, diz Pugas. “Precisamos de mecanismos mais potentes para conter o aquecimento, e a agrofloresta é muito mais poderosa nesse sentido.”

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