JBS se compromete a ser carbono neutra até 2040 — mas ainda não diz como vai chegar lá

 

A JBS anunciou há pouco um compromisso de neutralizar todas as suas emissões globais de gases causadores do efeito estufa até 2040, numa promessa ambiciosa para a maior produtora mundial de proteína.

Mas o que falta ainda é um ‘road map’ para atingir o objetivo, que está longe de ser trivial.

À primeira vista, a meta pode ser considerada ambiciosa porque a empresa se propôs a neutralizar não só suas emissões diretas, mas também aquelas da “sua diversificada cadeia de valor, que engloba produtores agrícolas e demais fornecedores, além de clientes”.

Esse é um desafio em qualquer setor, mas na pecuária, em particular, significa acima de tudo controlar a procedência do gado abatido para assegurar que ele não veio de áreas desmatadas. 

O problema é que apenas agora os frigoríficos estão começando a se comprometer com o rastreio completo de toda a sua cadeia de fornecimento de gado, inclusive do fornecedor do fornecedor. 

Hoje, sem essas informações, é simplesmente impossível medir as emissões e saber qual o tamanho do problema e como atacá-lo. 

No ano passado, a JBS se comprometeu a atingir a rastreabilidade completa de todos os seus fornecedores de gado na Amazônia até 2025, incluindo os indiretos, que criam bezerros e bois magros — o ponto cego da indústria.

No anúncio feito hoje, ela foi além e estabeleceu a meta de atingir desmatamento ilegal zero nos demais biomas brasileiros até 2030 e na cadeia de global de fornecimento até 2035. 

“Na prática, o anúncio de neutralização até 2040 implica dizer que, menos de cinco anos depois de começar a rastrear toda a cadeia, a companhia vai conseguir adequar todos os fornecedores às práticas mais avançadas de manejo”, aponta um executivo do setor. “Parece bastante difícil de parar de pé.”

Neutralizar as emissões não quer dizer que a empresa deixará de lançar gases na atmosfera completamente. A proposta é reduzir o que for possível — e compensar tudo aquilo que não puder ser cortado, via créditos de carbono por exemplo. A JBS disse que “focará em uma gama de soluções baseadas na natureza, como investimentos em reflorestamento e restauração florestal”.

Entre as emissões que podem ser cortadas com mais facilidade na indústria estão aquelas que resultam da troca de fontes de energia poluente por alternativas limpas. 

Entre as mais complexas, além do desmatamento, está a emissão de metano e outros gases associados à fermentação entérica (as flatulências do boi) e à decomposição do esterco, que responde por boa parte das emissões do setor. 

Aqui há algumas iniciativas em andamento, como melhora na alimentação animal e técnicas de integração lavoura-pecuária-floresta, que estocam carbono no solo e nas árvores durante o processo de cria dos animais.

Mas trata-se ainda de processos incipientes. 

No futuro, essa equação também poderá mudar conforme a JBS avance em proteínas alternativas, como aquelas à base de plantas ou as sintéticas, duas tendências que devem ganhar escala nas próximas décadas e que todos os frigoríficos já começaram a explorar

A JBS anunciou que investirá US$ 1 bilhão na próxima década em soluções que visem reduzir as emissões de carbono em suas operações e que a remuneração variável de seus altos executivos será atrelada à meta de mudança climática. 

Passo a passo 

O compromisso de se tornar neutra em carbono é, por ora, apenas um compromisso. 

Em comunicado ao mercado, a JBS deu transparência a esse fato e informou que o próximo passo será a apresentação de um plano — com acompanhamento anual dos progressos alcançados. 

A companhia informou que se tornou signatária da iniciativa “Ambição Empresarial pelo 1,5ºC” do Pacto Global das Nações Unidas, o que significa, na prática, que se compromete a usar uma régua científica para definir suas metas e seu plano de ação, de acordo com os critérios da Science-Based Targets Initiative (SBT). 

Por essa iniciativa, a empresa tem até dois anos para submeter seus planos de redução de emissões. A SBT prega a adoção de metas intermediárias para descarbonização. 

Outra novidade é que a companhia passará a dar transparência aos riscos financeiros a que está exposta por conta das mudanças climáticas. Para isso, adotará o padrão da Task Force on Climate-related Financial Disclosure (TCFD).

O escopo dos compromissos

Por ora, a companhia informou que até 2030 reduzirá em pelo menos 30% suas emissões de escopos 1 e 2, em comparação com as do ano de 2019. 

O escopo 1 representa todas as emissões diretas que acontecem no curso de sua atividade e que estão sob seu exclusivo controle. O escopo 2 são as emissões causadas na produção da energia utilizada na operação direta da empresa.

Já o escopo 3 é sempre o mais complicado quando se trata de metas, porque se refere justamente às emissões de fornecedores e clientes e, portanto, não estão sob controle direto da empresa. 

Algumas companhias simplesmente se recusam a adotar metas para escopo 3. Mas, no caso dos frigoríficos, que estão sob intenso escrutínio, essa parece não ser mais uma opção.

Hoje, a JBS mede as emissões de um conjunto muito limitado de atividades dentro do escopo 3. Segundo o site da empresa, atualmente estão contempladas no seu inventário de emissões apenas aquelas geradas no tratamento de resíduos, no transporte terrestre de frota terceirizada e nas viagens aéreas a negócio. 

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